CAPÍTULO 6 — O PREÇO QUE NÃO SANGRA
A febre passou.
Para o orfanato, isso significava apenas mais uma criança que sobreviveu a uma crise inexplicável. Para mim, significava algo pior.
Eu não estava igual.
Nos primeiros dias, meu corpo parecia… vazio.
Não fraco — oco.
Como se algo tivesse sido retirado e o espaço ainda não tivesse sido preenchido.
Quando respirava fundo, sentia um leve atraso.
Quando me movia rápido demais, o coração reagia tarde.
Não era dor.
Era dessincronia.
"Então esse é o custo imediato…", pensei.
Evitei qualquer esforço desnecessário. Andava devagar. Brincava menos. Dormia mais.
E observei.
Porque mudanças reais não anunciam a si mesmas.
Elas se escondem.
A primeira delas surgiu numa noite comum.
A mana ao redor de mim… não se aproximava mais sozinha.
Antes, ela fluía naturalmente, como ar. Agora, havia um espaço mínimo ao meu redor onde a mana simplesmente… contornava.
Não fuga.
Respeito.
Ou alerta.
Era como se o mundo tivesse marcado algo em mim:
"Este corpo ainda não."
Isso me tranquilizou e me assustou ao mesmo tempo.
O segundo sinal veio do colar.
Até então, ele reagia apenas quando eu cruzava limites claros. Agora… ele estava diferente.
Não mais quente.
Não mais frio.
Pesado.
Não no pescoço — na percepção.
Quando eu tocava o colar, sentia uma leve pressão atrás dos olhos, como se algo estivesse registrando cada ação minha.
Não julgando.
Anotando.
"Você mudou de função?", pensei.
Nenhuma resposta.
Mas compreendi algo fundamental:
O colar não era um freio.
Era um observador ativo.
Se eu errasse novamente, ele não me impediria.
Ele apenas garantiria que o erro tivesse consequências precisas.
Nos dias seguintes, algo mais começou a se manifestar.
Meu corpo… crescia melhor.
Não mais rápido — melhor.
Os ossos doíam menos durante o sono.
Os músculos se ajustavam de forma mais eficiente.
Meu equilíbrio melhorava sem treino consciente.
Era como se o mundo tivesse dito:
"Se você aprendeu a lição… então sobreviva."
O erro quase fatal não havia me enfraquecido.
Ele havia corrigido meu desenvolvimento.
Mas havia um detalhe perturbador.
Às vezes, quando eu olhava para outras crianças… eu via diferença demais.
Não em força.
Em tempo.
Elas se moviam como se o mundo fosse lento demais para mim.
Não porque eu fosse rápido.
Mas porque eu antecipava.
Era um eco da vida passada, mas agora sem poder para sustentá-lo.
Um perigo.
Comecei a praticar algo novo.
Supressão.
Não de mana — de intenção.
Eu treinava parecer confuso. Demorar a responder. Errar de propósito.
Cada erro fingido doía mais do que qualquer febre.
Mas funcionava.
Ninguém suspeitava.
Exceto uma pessoa.
A cuidadora mais velha.
Ela não falava muito. Não sorria com facilidade. Observava crianças como quem conta sobreviventes.
Certa tarde, enquanto eu empilhava blocos lentamente — com cuidado demais para uma criança da minha idade —, senti o olhar dela.
Fixo.
— Você… — ela murmurou, sem terminar a frase.
Levantei o olhar.
Abri um sorriso infantil. Imperfeito. Torto.
Ela desviou o olhar logo depois.
Mas eu soube.
Ela não sabia o que eu era.
Mas sabia que eu não era normal.
Naquela noite, tive outro sonho.
Não havia trono.
Havia uma linha desenhada no chão.
De um lado, eu — pequeno, frágil, vivo.
Do outro, algo vasto, silencioso, atento.
Uma voz sem som ecoou:
"Erro registrado."
"Correção aplicada."
"Continuidade permitida."
Acordei suando.
Toquei o colar.
Ele estava… imóvel.
"Então é assim agora…", pensei.
Eu não estava sendo protegido.
Eu estava sendo tolerado.
E essa tolerância podia acabar.
Se eu esquecesse…
Se eu me apressasse…
Se eu quisesse demais…
O mundo não me mataria com violência.
Ele simplesmente pararia de me permitir existir.
Fechei os olhos.
E aceitei.
Sobreviver, nesta vida, não seria vencer.
Seria não ultrapassar a linha até o momento exato.
