CAPÍTULO 7 — O MEDO NÃO PRECISA DE MOTIVO
O medo não nasce do perigo.
Ele nasce da diferença.
Eu aprendi isso cedo demais.
No orfanato, as crianças brigavam, gritavam, se empurravam. Era barulho sem intenção real. Instinto. Energia sem direção.
Eu não participava.
Não por superioridade.
Por cálculo.
Enquanto eles agiam, eu observava.
E alguém percebeu.
O nome dele era Lucas.
Tinha quase a mesma idade que eu. Forte para uma criança. Chorava pouco. Era o tipo que empurrava primeiro e perguntava depois.
No início, ele apenas me ignorava.
Depois, começou a me observar.
Não com curiosidade.
Com desconfiança.
Certa tarde, ele tentou algo simples.
Pegou um brinquedo da minha frente e correu.
As outras crianças riram.
Eu não reagi de imediato.
Olhei para o espaço onde o brinquedo estava.
Depois para Lucas.
Depois para o caminho que ele faria.
Quando ele tropeçou — exatamente onde eu havia previsto —, o brinquedo caiu de sua mão.
Antes que ele percebesse, eu já o tinha de volta.
Não corri.
Apenas caminhei até lá.
O silêncio caiu rápido demais.
Lucas me encarou.
Seus olhos não mostravam raiva.
Mostravam confusão.
— Como…? — ele murmurou.
Eu não respondi.
Sentei e continuei brincando.
Isso foi o suficiente.
Nos dias seguintes, pequenas coisas aconteceram.
Quando Lucas tentava me empurrar, eu sempre estava meio passo fora do alcance.
Quando gritava comigo, eu o encarava em silêncio — não por desafio, mas por análise.
Eu nunca bati nele.
Nunca o ameacei.
E isso o perturbava mais do que qualquer agressão.
Certa noite, acordei com choro abafado.
Lucas estava encolhido na cama ao lado, suando.
— Ele fica me olhando… — sussurrou para uma cuidadora.
— Quem?
— O Matheus…
Ela tocou sua testa.
— Ele não faz nada, querido.
— Mas ele sabe… — Lucas engoliu seco. — Ele sempre sabe.
Eu fechei os olhos.
"Então é assim que começa…", pensei.
Medo sem agressão.
No dia seguinte, ninguém quis sentar perto de mim.
Não houve ordem.
Não houve aviso.
Foi instinto coletivo.
Crianças evitam o que não entendem.
E eu… não me encaixava.
Uma das menores começou a chorar quando me aproximei demais.
Outra mudou de lugar quando sentei ao lado.
Lucas não me encarava mais.
Ele me evitava como se eu fosse algo que não deveria estar ali.
E talvez… ele estivesse certo.
A cuidadora mais velha percebeu.
Ela se ajoelhou à minha frente certa vez.
— Você não precisa ficar sozinho, sabia?
Olhei para ela.
Inclinei a cabeça, fingindo não entender totalmente as palavras.
Mas dentro de mim, a resposta já existia.
"Não é escolha", pensei.
"É consequência."
Naquela noite, sonhei novamente.
Desta vez, eu não estava sozinho.
Havia outras figuras pequenas ao redor.
Mas todas estavam viradas para longe de mim.
No centro do sonho, Lucas.
Ele me olhava com medo.
E atrás dele… algo maior, sem forma definida, observava através dele.
Acordei com o coração calmo.
Não havia culpa.
Apenas confirmação.
Eu não seria odiado.
Não seria atacado.
Eu seria evitado.
E isso era muito mais seguro.
Porque quem é evitado…
tem tempo para crescer.
Fechei os olhos outra vez.
E aceitei meu lugar.
Não como líder.
Não como vítima.
Mas como a criança que ninguém entende —
e que ninguém quer provocar.
