CAPÍTULO 10 — ONDE O MUNDO OBSERVA
A viagem foi silenciosa.
A carruagem não tinha janelas abertas. Apenas pequenas frestas para o ar entrar. Dois guardas sentados à frente. Nenhuma conversa.
Eu não perguntei nada.
Perguntas são inúteis quando quem responde já decidiu o final.
Depois de horas, senti a mudança.
O chão deixou de ser irregular.
O ar ficou mais frio.
A mana… mais densa.
Não agressiva. Concentrada.
Quando a carruagem parou, uma porta pesada se abriu.
Não era uma prisão comum.
Era uma construção enterrada parcialmente na rocha. Pedra escura. Runas discretas gravadas nas paredes — não para atacar, mas para delimitar.
"Contenção, não punição…", pensei.
Fui conduzido por corredores longos, iluminados por cristais opacos. Cada passo ecoava demais.
Chegamos a uma sala simples.
Cama. Mesa. Uma estante vazia. Uma janela pequena demais para fuga, grande demais para conforto.
— Aqui você ficará — disse um dos guardas.
— Posso sair? — perguntei.
Ele hesitou.
— Quando autorizado.
A porta se fechou com um som definitivo.
Sozinho.
Pela primeira vez, completamente.
Sentei na cama.
Esperei.
Não demorou.
Passos.
A porta se abriu novamente.
Um homem entrou.
Não usava manto do reino. Nem armadura. Vestia roupas simples, mas seus olhos…
Afiados.
— Matheus — disse ele, sem perguntar. — Eu sou Elias.
Nenhum título.
Nenhuma ameaça.
Isso me deixou em alerta.
— Eu observo o que o reino prefere não entender.
Ele se sentou à minha frente, na mesma altura.
— Você sabe por que está aqui?
Inclinei a cabeça.
— Porque sou diferente.
Ele sorriu de leve.
— Não. Muitas crianças são diferentes. Você é… inconveniente.
Silêncio.
— Você não reage como esperado. Não cresce como esperado. Não pode ser medido corretamente.
Ele estendeu a mão.
— Posso?
Olhei para a mão.
Depois para o colar.
— Se tentar me atravessar — disse Elias calmamente —, ele vai bloquear. Já testamos artefatos parecidos.
"Já testaram…", pensei.
Assenti.
Ele não tocou em mim.
Tocou o ar ao meu redor.
Uma pressão suave se espalhou.
Não mana.
Não magia tradicional.
Era um campo de leitura passiva.
Senti o colar se tornar opaco outra vez.
Elias franziu o cenho.
— Fascinante… — murmurou.
— O quê? — perguntei.
— Você não está escondendo nada. Ainda assim… não posso ver quase nada.
Ele recuou.
— O reino quer saber se você é uma ameaça futura.
— Sou? — perguntei.
Elias me encarou longamente.
— Ainda não.
Essa resposta pesou mais do que qualquer acusação.
— E o que acontece agora? — perguntei.
— Agora… você vive aqui.
Ele apontou para a estante vazia.
— Livros virão. Exercícios simples. Observação constante.
— Por quanto tempo?
Ele suspirou.
— Até você se tornar previsível.
Eu sorri.
Não por desafio.
Por ironia.
— Então vou ficar aqui para sempre.
Elias não sorriu de volta.
— Veremos.
Quando ele saiu, sentei no chão.
Toquei o colar.
Ele estava quieto.
Mas algo havia mudado.
Não no mundo.
Em mim.
Eu não estava mais apenas evitando limites.
Agora eu estava dentro deles.
E isso… era uma oportunidade.
Porque lugares feitos para observar…
raramente percebem quando o observado aprende a observar de volta.
Fechei os olhos.
E comecei a planejar.
