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Chapter 12 - CAPÍTULO 10 — ONDE O MUNDO OBSERVA

CAPÍTULO 10 — ONDE O MUNDO OBSERVA

A viagem foi silenciosa.

A carruagem não tinha janelas abertas. Apenas pequenas frestas para o ar entrar. Dois guardas sentados à frente. Nenhuma conversa.

Eu não perguntei nada.

Perguntas são inúteis quando quem responde já decidiu o final.

Depois de horas, senti a mudança.

O chão deixou de ser irregular.

O ar ficou mais frio.

A mana… mais densa.

Não agressiva. Concentrada.

Quando a carruagem parou, uma porta pesada se abriu.

Não era uma prisão comum.

Era uma construção enterrada parcialmente na rocha. Pedra escura. Runas discretas gravadas nas paredes — não para atacar, mas para delimitar.

"Contenção, não punição…", pensei.

Fui conduzido por corredores longos, iluminados por cristais opacos. Cada passo ecoava demais.

Chegamos a uma sala simples.

Cama. Mesa. Uma estante vazia. Uma janela pequena demais para fuga, grande demais para conforto.

— Aqui você ficará — disse um dos guardas.

— Posso sair? — perguntei.

Ele hesitou.

— Quando autorizado.

A porta se fechou com um som definitivo.

Sozinho.

Pela primeira vez, completamente.

Sentei na cama.

Esperei.

Não demorou.

Passos.

A porta se abriu novamente.

Um homem entrou.

Não usava manto do reino. Nem armadura. Vestia roupas simples, mas seus olhos…

Afiados.

— Matheus — disse ele, sem perguntar. — Eu sou Elias.

Nenhum título.

Nenhuma ameaça.

Isso me deixou em alerta.

— Eu observo o que o reino prefere não entender.

Ele se sentou à minha frente, na mesma altura.

— Você sabe por que está aqui?

Inclinei a cabeça.

— Porque sou diferente.

Ele sorriu de leve.

— Não. Muitas crianças são diferentes. Você é… inconveniente.

Silêncio.

— Você não reage como esperado. Não cresce como esperado. Não pode ser medido corretamente.

Ele estendeu a mão.

— Posso?

Olhei para a mão.

Depois para o colar.

— Se tentar me atravessar — disse Elias calmamente —, ele vai bloquear. Já testamos artefatos parecidos.

"Já testaram…", pensei.

Assenti.

Ele não tocou em mim.

Tocou o ar ao meu redor.

Uma pressão suave se espalhou.

Não mana.

Não magia tradicional.

Era um campo de leitura passiva.

Senti o colar se tornar opaco outra vez.

Elias franziu o cenho.

— Fascinante… — murmurou.

— O quê? — perguntei.

— Você não está escondendo nada. Ainda assim… não posso ver quase nada.

Ele recuou.

— O reino quer saber se você é uma ameaça futura.

— Sou? — perguntei.

Elias me encarou longamente.

— Ainda não.

Essa resposta pesou mais do que qualquer acusação.

— E o que acontece agora? — perguntei.

— Agora… você vive aqui.

Ele apontou para a estante vazia.

— Livros virão. Exercícios simples. Observação constante.

— Por quanto tempo?

Ele suspirou.

— Até você se tornar previsível.

Eu sorri.

Não por desafio.

Por ironia.

— Então vou ficar aqui para sempre.

Elias não sorriu de volta.

— Veremos.

Quando ele saiu, sentei no chão.

Toquei o colar.

Ele estava quieto.

Mas algo havia mudado.

Não no mundo.

Em mim.

Eu não estava mais apenas evitando limites.

Agora eu estava dentro deles.

E isso… era uma oportunidade.

Porque lugares feitos para observar…

raramente percebem quando o observado aprende a observar de volta.

Fechei os olhos.

E comecei a planejar.

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