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Chapter 10 - CAPÍTULO 8 — OLHOS DE FORA

CAPÍTULO 8 — OLHOS DE FORA

A rotina do orfanato foi quebrada sem aviso.

Não por gritos.

Não por emergência.

Mas por silêncio excessivo.

As cuidadoras estavam tensas demais. Os passos eram rápidos. As vozes, baixas.

Alguém importante viria.

Eu percebi antes de ouvir.

O ar mudou.

Não a mana — as intenções.

Havia expectativa misturada com cautela. E algo mais perigoso: avaliação.

— Arrumem as crianças. Todas — disse a diretora.

Isso não acontecia com frequência.

Quando acontecia, significava três coisas possíveis:

Doações.

Adoções.

Inspeção.

Nenhuma era boa para mim.

Fui lavado, penteado, vestido com roupas melhores do que o normal. Nada de luxo. Apenas o suficiente para parecer… apresentável.

"Eles querem vender uma imagem", pensei.

As crianças foram alinhadas na sala principal.

Sentei onde me colocaram. Postura relaxada. Olhar neutro. Nada de curioso demais.

Então eles chegaram.

Dois homens e uma mulher.

Roupas discretas, mas de corte refinado. Não eram nobres ostensivos — eram algo mais perigoso.

Funcionários do reino.

A mulher tinha um broche prateado preso ao peito.

Símbolo de avaliação mágica.

Meu coração bateu uma fração de segundo mais rápido.

"Então é isso…", pensei.

"Eles medem potencial."

Ela caminhava devagar entre as crianças.

Não usava feitiços visíveis. Apenas observava.

Mas eu sentia.

Aquele broche… reagia.

Quando passou por uma criança comum, nada.

Quando passou por outra com leve afinidade, um brilho mínimo.

Quando chegou perto de mim…

O ar ficou denso.

Não houve brilho.

Houve resistência.

O broche esfriou.

A mulher franziu o cenho.

— Estranho… — murmurou.

Um dos homens se aproximou.

— O quê?

Ela não respondeu de imediato. Olhou para mim.

— Qual o nome dele?

— Matheus — respondeu a diretora, rápida demais.

A mulher se ajoelhou à minha frente.

— Quantos anos você tem?

Inclinei a cabeça. Mostrei três dedos.

Ela assentiu lentamente.

— Você se sente… cansado às vezes?

"Pergunta errada", pensei.

Crianças cansam.

Mas não do jeito que ela queria dizer.

Balancei a cabeça negativamente.

Ela tocou o broche.

Por um instante, senti algo tentar me atravessar.

Não mana.

Não feitiço direto.

Era uma tentativa de leitura estrutural.

O colar reagiu.

Não com força.

Com opacidade.

O contato foi cortado como se algo tivesse sido recusado.

A mulher recuou um passo.

Seus olhos se estreitaram.

— Ele é… fechado.

— Fechado? — o homem perguntou.

— Como uma porta que ainda não existe — respondeu ela.

Silêncio.

A diretora riu nervosa.

— Ele é quieto. Sempre foi.

A avaliadora se levantou.

— Quieto não explica isso.

Ela deu mais um olhar para mim.

Não hostil.

Não gentil.

Cauteloso.

— Anotem o nome. Não para adoção comum.

Meu estômago se contraiu.

"Isso é ruim…", pensei.

Não ser adotado significava mais tempo aqui.

Mas também significava interesse futuro.

Eles continuaram a inspeção.

Mas eu senti.

Algo havia sido marcado.

Não em papel.

No fluxo do mundo.

Quando eles se foram, a rotina não voltou ao normal.

A cuidadora mais velha se aproximou de mim à noite.

— Você… não fez nada de errado.

Olhei para ela.

Ela suspirou.

— Às vezes, isso é o problema.

Naquela noite, o colar estava quente.

Não avisando.

Não punindo.

Preparando.

Sonhei com uma estrada.

Longa.

Sem placas.

E ao longe… uma bifurcação.

Uma direção levava à permanência.

A outra… à retirada.

Acordei sabendo:

O mundo já tinha me visto.

E quando o mundo vê algo que não entende…

ele não esquece.

Se quiser, no próximo passo posso:

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