CAPÍTULO 11 — O QUE NÃO DEVERIA SER POSSÍVEL
Os meses passaram sem que eu percebesse quando começaram.
Na instalação, o tempo não era marcado por dias —
mas por testes.
Eles começaram simples.
Blocos de formas.
Problemas de lógica disfarçados de jogos.
Perguntas feitas como brincadeiras.
— Qual peça falta aqui?
— O que acontece se trocarmos isso por aquilo?
— Por que essa torre cai e essa não?
Eu errava.
De propósito.
O suficiente para parecer inteligente.
Nunca o suficiente para parecer impossível.
Elias estava sempre presente.
Nunca anotando à minha frente.
Nunca reagindo no momento.
Mas observando.
— Você aprende rápido — disse ele certa vez, enquanto recolhia peças do chão.
— Eu gosto de puzzles — respondi.
— Não. Você prevê — corrigiu. — Isso é diferente.
Silêncio.
Nossa relação se construiu assim.
Sem afeto excessivo.
Sem crueldade.
Ele não me tratava como arma.
Nem como criança comum.
Ele me tratava como variável.
E isso era raro.
Com o tempo, os testes mudaram.
Não mais objetos.
Corpo.
— Caminhe até aquela marca — disse Elias.
Eu caminhei.
— Pare.
Parei.
— Feche os olhos.
Obedeci.
Senti.
Não mana direta.
Mas pressão ambiental.
Runas na sala reagiram.
O ar ficou mais pesado em um ponto específico.
— O que você sente? — ele perguntou.
"Uma armadilha mal calibrada", pensei.
— Está… estranho — respondi.
Ele anotou.
— Interessante.
Os testes se repetiram.
Sempre dentro de limites seguros.
Sempre sem ativar completamente a mana.
Mas então… algo falhou.
Não de forma dramática.
Não com alarmes.
Foi quase elegante demais para ser um erro.
Durante um teste de concentração — apenas respiração controlada, nada mais — senti algo que não sentia desde o orfanato.
A mana… não desviou.
Ela se aproximou.
Instintivamente, abri os olhos.
As runas nas paredes estavam estáticas.
Nenhuma reação.
O colar permaneceu frio.
"O campo falhou…", pensei.
Não totalmente.
Mas o suficiente.
Um fio de mana tocou minha pele.
Não doeu.
Não queimou.
Ele apenas… se encaixou.
Meu corpo reagiu.
O coração acelerou — mas não entrou em caos.
A respiração ajustou sozinha.
Pela primeira vez… não houve rejeição.
Elias percebeu.
— Pare — disse imediatamente.
Eu obedeci.
A mana se dispersou.
O silêncio na sala ficou pesado demais.
Elias me encarou.
Não com medo.
Com algo pior.
Com confirmação.
— Isso não deveria ter acontecido — murmurou.
— O quê? — perguntei, com voz infantil perfeita.
Ele respirou fundo.
— As runas não falharam. Elas… permitiram.
Ele se ajoelhou à minha frente.
— Você sentiu alguma dor?
Balancei a cabeça negativamente.
— Alguma pressão?
— Não.
Ele fechou os olhos por um instante.
Quando abriu… havia decisão ali.
— A instalação não foi feita para crescer junto com você — disse em voz baixa. — Foi feita para conter um estado fixo.
Silêncio.
— E você… não é fixo.
Ele se levantou.
— A partir de agora, alguns testes serão suspensos.
— Por quê? — perguntei.
Ele me encarou.
— Porque o reino ainda acha que está observando.
Mas não percebeu…
Ele parou na porta.
— …que você começou a interagir com o sistema.
A porta se fechou.
Fiquei sozinho.
Sentei no chão.
Meu corpo estava calmo.
Estável.
"Então é isso…", pensei.
Não era que a contenção estivesse fraca.
Era que eu estava finalmente me tornando compatível.
E quando isso acontecesse por completo…
O reino teria um problema.
Não hoje.
Não amanhã.
Mas inevitavelmente.
Fechei os olhos.
E, pela primeira vez desde que renasci…
Sorri.
Não de alegria.
Mas de certeza.
