CAPÍTULO 9 — QUANDO O REINO RESPONDE
A decisão não veio rápido.
E isso foi o mais perturbador.
Durante dias, nada mudou — por fora.
As crianças brincavam. As cuidadoras cumpriam rotinas. As noites continuavam silenciosas.
Mas o ar… estava pesado.
Eu sentia fios invisíveis sendo esticados ao meu redor. Não mana. Não magia direta.
Autoridade.
O tipo que não pede permissão.
Na quinta noite após a inspeção, a diretora foi chamada ao escritório depois do jantar.
Ela voltou pálida.
Duas horas depois, fui acordado.
— Matheus… venha comigo.
A cuidadora mais velha evitava meu olhar.
Caminhamos pelos corredores escuros até uma sala que eu nunca havia entrado.
Lá dentro, apenas uma mesa. Três cadeiras. Um símbolo do reino gravado na parede.
Dois homens me esperavam.
Não eram os mesmos da inspeção.
Esses usavam mantos simples, mas carregavam algo pior que armas: certeza.
— Sente-se — disse um deles.
Obedeci.
Minhas pernas mal alcançavam o chão.
— Você foi avaliado — disse o outro. — E classificado como… incompatível com processos comuns.
"Isolamento", pensei.
Não adoção.
Não treinamento público.
Algo intermediário.
— Isso é ruim? — perguntei, com voz infantil suficiente para parecer inocente.
Eles trocaram um olhar rápido.
— Não — respondeu o primeiro. — É… necessário.
Ele deslizou um documento pela mesa. Não para eu ler. Para marcar o ato.
— O reino decidiu sua transferência.
Meu coração bateu firme.
"Transferência…", pensei.
"Não execução."
Ainda.
— Para onde? — perguntei.
O homem hesitou meio segundo.
— Para uma instalação de observação.
A palavra foi escolhida com cuidado.
Não prisão.
Não escola.
Observação.
— Lá você ficará… protegido.
Protegido do mundo.
Ou o mundo protegido de mim.
— Vou poder voltar? — perguntei.
Silêncio.
Resposta suficiente.
— Quando? — minha voz saiu calma demais.
— Amanhã, antes do amanhecer.
Rápido.
Sem despedidas longas.
Sem apego.
Do jeito que o reino prefere.
Quando saí da sala, a cuidadora mais velha me esperava no corredor.
Ela se ajoelhou e segurou meus ombros.
— Escute… — sua voz falhou. — Seja obediente. Não tente entender tudo agora.
Olhei para ela.
— Eles têm medo de mim?
Ela engoliu seco.
— Eles têm medo… do que você pode se tornar.
Ela me abraçou.
Foi rápido. Contido. Como se soubesse que prolongar doeria mais.
Naquela noite, não dormi.
Fiquei deitado, olhando o teto conhecido pela última vez.
Lucas me observava da outra cama.
Não com medo.
Com alívio.
Eu entendia.
O perigo estava indo embora.
Toquei o colar.
Ele estava estável.
Nem quente.
Nem frio.
Preparado.
"Então essa é a escolha…", pensei.
Não liberdade.
Não morte.
Mas contenção.
Ao amanhecer, uma carruagem sem insígnias parou atrás do orfanato.
Fui levado sem alarde.
Sem testemunhas.
Sem registro público.
Quando as portas se fecharam, senti algo novo.
Não medo.
Expectativa.
Porque o reino havia cometido um erro clássico.
Eles decidiram isolar o resultado…
em vez de entender a causa.
A estrada começou a se mover.
E com ela, minha infância terminou.
