CAPÍTULO 4 — O QUE UMA CRIANÇA NÃO DEVERIA SABER
Ninguém percebeu no início.
E isso foi um erro.
Aprendi a sentar antes do tempo esperado.
Depois a engatinhar.
Depois a ficar em pé.
Nada disso era extraordinário isoladamente — o orfanato já tinha visto crianças "adiantadas". O problema era o intervalo entre cada passo.
Curto demais.
Enquanto outras crianças caíam, choravam e desistiam, eu apenas… ajustava.
Caía uma vez.
Corrigia o equilíbrio.
Não caía de novo.
As cuidadoras comentavam em voz baixa.
— Esse aí aprende rápido…
— Não dá trabalho nenhum.
Elas não sabiam.
Eu não estava aprendendo.
Eu estava lembrando como aprender.
Meu corpo ainda era limitado. Pequeno. Frágil.
Mas minha mente já conhecia conceitos que não deveriam existir ali.
Espaço.
Peso.
Fluxo.
Quando segurava um brinquedo de madeira, não via apenas um objeto.
Via alavancas. Centro de massa. Resistência do material.
Quando uma criança me empurrava, eu não reagia por impulso.
Eu observava o ângulo.
Aos poucos, comecei a testar algo perigoso.
Não a mana em si — isso eu já havia aprendido a respeitar.
Mas o corpo.
Durante a noite, enquanto todos dormiam, eu tensionava os músculos em padrões específicos. Não força. Repetição.
Contraía.
Relaxava.
Respirava.
Como na vida passada… antes do QI.
O efeito foi lento. Quase imperceptível.
Mas real.
Meu corpo respondia.
Os músculos se definiam de forma estranha para uma criança. Meus reflexos ficavam mais rápidos. Meus olhos acompanhavam movimentos com clareza desconfortável.
Certa vez, uma bola caiu da prateleira.
Antes que o som tocasse o chão, minha mão já estava no ar.
Peguei.
O silêncio durou meio segundo a mais do que deveria.
— …Você viu isso? — uma cuidadora murmurou.
Outra riu.
— Sorte.
Eu baixei o braço lentamente.
"Sorte…", pensei.
"Claro."
Passei a evitar reações rápidas demais.
Genialidade chama atenção.
Atenção chama destino.
E destino é apenas outra palavra para perda de controle.
Mesmo assim, nem tudo podia ser escondido.
Aos dois anos, eu já entendia palavras demais.
Não apenas reconhecia sons — compreendia intenção.
Ordens. Mentiras. Cansaço.
Quando uma cuidadora dizia "já volto", eu sabia quando era verdade… e quando não.
Quando uma criança chorava, eu sabia se era dor ou apenas medo.
Isso me isolava.
As outras crianças eram barulhentas, impulsivas. Viviam o agora.
Eu vivia alguns segundos à frente.
E isso cria distância.
Uma noite, ouvi algo que não deveria entender.
Duas cuidadoras conversavam perto da porta.
— Esse menino… o Matheus…
— O quieto?
— É. Ele me dá arrepios. Ele olha como adulto.
Eu continuei brincando no chão.
"Não olhe para mim", pensei.
"Não pense em mim."
Mas algo quebrou naquele instante.
O colar em meu pescoço reagiu.
Levemente.
Um frio súbito percorreu o ar. Não vento. Não mana.
Intuição.
As mulheres se calaram.
Uma delas engoliu seco.
— …Deixa pra lá.
Elas foram embora.
Eu fiquei parado, segurando um bloco de madeira.
"O colar…", pensei.
"Você interfere quando eu chamo atenção demais?"
Não houve resposta.
Mas entendi o aviso.
Naquela noite, sonhei.
Não com o trono.
Não com guerras.
Sonhei com um campo vazio.
Sem céu.
Sem chão.
E uma sensação esmagadora de que, se eu desse um passo à frente antes da hora… algo viria me impedir.
Acordei suando.
"Então é assim agora…", pensei.
Este mundo não me odeia.
Ele me observa.
E observa com expectativa.
Aos três anos, eu já sabia:
Eu era um gênio.
Mas um gênio que não podia se dar ao luxo de ser visto como tal.
Porque nesta vida…
Ser excepcional cedo demais
era apenas outra forma de morrer.
