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Chapter 4 - CAPÍTULO 2 — PRIMEIROS SINAIS DE GENIALIDADE

 CAPÍTULO 2 — PRIMEIROS SINAIS DE GENIALIDADE

O orfanato tinha um ritmo próprio.

Manhãs frias, tardes barulhentas, noites silenciosas demais.

Crianças choravam, riam, brigavam. Cresciam sem saber exatamente por quê.

Matheus… apenas observava.

Ele tinha dois anos quando percebeu algo que confirmou suas suspeitas.

Enquanto as outras crianças tropeçavam ao tentar andar, seu corpo já havia se adaptado. Não era força. Não era técnica.

Era controle.

— Este corpo aprende rápido… rápido demais.

Ele não forçava os músculos. Não corria. Não tentava se destacar.

Apenas sentia.

O chão sob os pés.

O ar tocando a pele.

O ritmo do próprio coração.

E, misturado a tudo isso, aquela sensação difusa no ambiente.

Mana.

Não concentrada.

Não agressiva.

Mas presente em tudo.

Matheus começou com algo simples: respiração.

Inspirar…

Segurar…

Soltar…

Sem tentar puxar mana para dentro.

Apenas deixando que ela circulasse ao redor do corpo.

Na vida passada, isso teria sido inútil.

Aqui, era essencial.

Na terceira semana repetindo esse exercício em silêncio, algo mudou.

Seu corpo ficou… quente.

Não febril.

Não doente.

Era como se o sangue fluísse melhor.

Como se os músculos respondessem com mais precisão.

— Interessante…

Naquela noite, ao tentar dormir, Matheus sentiu claramente.

A mana reagiu.

Não obedeceu.

Não se acumulou.

Mas respondeu à sua presença.

No dia seguinte, os primeiros comentários surgiram.

— "Ele anda firme demais para a idade."

— "Você viu? Não cai quase nunca."

— "Esse menino… olha como se entendesse tudo."

Matheus manteve o olhar vazio sempre que alguém se aproximava.

Aprendeu rápido que atenção demais era perigosa.

Aos três anos, veio o primeiro erro.

Durante uma tarde chuvosa, enquanto as outras crianças dormiam, Matheus tentou algo diferente. Um impulso antigo falou mais alto.

Ele tentou condensar mana.

Não muito.

Não como antes.

Apenas o suficiente para sentir.

O resultado foi imediato.

Uma dor aguda percorreu seu peito. O ar sumiu. Seu corpo caiu de joelhos, pequeno demais para suportar aquilo.

— Tsk…

Ele mordeu o lábio para não gritar.

Naquele instante, o colar aqueceu de forma clara pela primeira vez.

Não como aviso.

Como bloqueio.

A mana ao redor se dispersou, quase como se tivesse sido repelida à força.

Matheus caiu no chão, ofegante.

— Então você também limita…

Não ficou com raiva.

Ficou aliviado.

— Ótimo.

— Isso significa que ainda não é hora.

Aos quatro anos, o orfanato já o tratava como algo estranho.

Ele falava pouco.

Mas quando falava, usava palavras corretas demais.

Respondia perguntas antes mesmo de terminarem.

Uma cuidadora certa vez deixou cair uma bandeja. Antes que o metal tocasse o chão, Matheus estendeu a mão instintivamente.

A bandeja mudou de trajetória.

Não flutuou.

Não voou.

Apenas… caiu para o lado errado.

Silêncio.

Matheus congelou.

A cuidadora arregalou os olhos.

— "O que foi isso…?"

Ele deixou a bandeja cair e começou a chorar imediatamente — um choro ensaiado, alto, descontrolado.

Funcionou.

— "Ah… foi só impressão."

— "Crianças fazem coisas estranhas…"

Naquela noite, Matheus ficou acordado por horas.

— Isso foi perigoso.

— Meu controle ainda é instável.

Mas também confirmou algo essencial.

Mesmo selado…

Mesmo limitado…

Ele ainda era diferente.

Aos cinco anos, o orfanato já não conseguia ignorar.

Matheus aprendia tudo rápido demais.

Números.

Palavras.

Padrões.

Ele observava outras crianças brigando e entendia quem venceria antes do primeiro golpe.

Ouvia discussões de adultos e sabia quem estava mentindo.

Não por magia.

Por experiência.

— O mundo não muda tanto de uma vida para outra.

Às vezes, à noite, ele sentia algo estranho.

Como se… estivesse sendo observado.

Não por pessoas.

Não por criaturas.

Pelo próprio mundo.

O colar ficava frio nessas horas.

E Matheus fechava os olhos, reduzindo sua presença ao mínimo possível.

— Ainda não.

— Eu não estou pronto.

Mas uma verdade já estava clara.

Ele podia fingir ser uma criança comum.

Podia se conter.

Podia esperar.

Mas os sinais já existiam.

E cedo ou tarde…

o mundo perceberia.

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