CAPÍTULO 12.2 — O FILHO QUE O IMPÉRIO ESCONDEU
PRÓLOGO — ANTES DO NASCIMENTO DE MATHEUS
O Império de Aurelion celebrava.
Sinos ecoavam pelas torres douradas. Sacerdotes entoavam bênçãos antigas. O Senado Arcano permaneceu reunido por três dias seguidos.
A razão era simples.
Depois de anos sem herdeiros, a Imperatriz Seraphina Aurelion estava grávida.
— Um sinal dos céus — disseram os templos.
— Um equilíbrio restaurado — disseram os magos.
— Um futuro garantido — disse o povo.
Mas nem todos sorriram.
Nos corredores fechados do palácio, profecias proibidas foram abertas. Artefatos antigos reagiram. Oráculos perderam a visão por uma noite inteira.
Uma frase se repetiu em registros selados:
"O filho do Sol não caminhará sob sua luz."
O Imperador Aurelius IX, senhor de Aurelion, ignorou os avisos.
— Meu filho nascerá como herdeiro — declarou. — Nada mais.
Ele estava errado.
O NASCIMENTO
O parto não foi celebrado.
Foi silencioso.
Quando a criança nasceu, não chorou.
Abriu os olhos.
E o símbolo imperial na sala — o Sol Partido — rachou.
Os magos congelaram.
— Alteza… — sussurrou um deles. — Precisamos agir agora.
A criança foi envolta em panos imperiais. Um único artefato foi colocado em seu pescoço às pressas:
Um colar com o símbolo de Aurelion.
Não como proteção.
Mas como âncora.
Naquela mesma noite, uma decisão foi tomada sem registro oficial.
O herdeiro do Império…
não poderia crescer no Império.
O DESAPARECIMENTO
Antes do amanhecer, uma carruagem sem brasão deixou o palácio.
Dentro, o bebê dormia.
Não houve anúncio.
Não houve funeral político.
Não houve explicações públicas.
Apenas um decreto falso:
"O herdeiro nasceu morto."
Quando a Imperatriz ouviu…
seu mundo terminou.
Ela não gritou.
Não chorou.
Ela definhou.
Dias viraram semanas.
Semanas viraram doença.
— Onde está meu filho…? — repetia, fraca.
Ninguém respondeu.
O Império seguiu.
A Imperatriz caiu na cama.
E nunca mais se levantou completamente.
O ORFANATO
Anos antes de Matheus ser chamado assim…
Uma mulher encapuzada chegou a um orfanato distante, fora das rotas nobres.
Era noite.
Ela deixou um bebê na porta.
Nenhuma despedida.
Apenas um papel amassado, quase rasgado, preso às roupas simples da criança.
Nele, poucas palavras escritas às pressas:
Nome: Matheus
Origem: desconhecida
Cuidem dele
Mentira.
O nome original nunca foi escrito.
Porque nomes verdadeiros…
podem ser encontrados.
A cuidadora suspirou.
— Mais um…
Ela não percebeu o colar.
Ou fingiu não perceber.
Naquele instante, o bebê abriu os olhos.
O DESPERTAR
Não houve dor.
Não houve luz.
A consciência simplesmente… voltou.
Não havia lembrança do nascimento.
Não havia rosto de mãe.
Não havia voz de pai.
Apenas memória anterior.
Outra vida.
Outro fim.
E um colar.
Pequeno. Frio. Pesado demais para um recém-nascido.
O símbolo gravado nele era claro.
Mesmo sem palavras, o bebê sabia.
— Império… — pensou, sem som.
Ele não sabia quem era.
Mas sabia de onde vinha.
E isso bastou para que o mundo estremecesse pela primeira vez.
No palácio, a Imperatriz virou o rosto na cama, sentindo uma dor inexplicável no peito.
No orfanato, um bebê fechou os olhos.
E o Império de Aurelion…
condenou a si mesmo sem perceber.
