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Chapter 14 - A TEIA DA PRINCESA E O CONSELHO DA GUERRA

O Salão do Conselho Real estava diferente desta vez. As cadeiras vazias haviam sido preenchidas, e a atmosfera carregada de tensão política agora incluía a presença mais importante e ausente de todas as reuniões anteriores: o próprio Rei Thalien Bragallien Árvanyur.

Ele estava sentado na cabeceira da mesa oval de jacarandá negro, uma figura que deveria emanar autoridade absoluta mas que, para olhos treinados, mostrava sinais sutis de deterioração. Aos quarenta e sete anos, Thalien ainda mantinha a beleza élfica de sua linhagem materna, com traços delicados e olhos verde-dourados que haviam sido descritos em poemas como "o brilho da floresta ao amanhecer". Mas agora havia algo apagado naqueles olhos, como se uma luz interna estivesse sendo lentamente sufocada.

Seus cabelos loiro-acinzentados estavam perfeitamente penteados, sua túnica real de veludo azul-marinho impecável, sua coroa de platina e esmeraldas posicionada corretamente. Mas suas mãos tremiam levemente quando não estavam apoiadas na mesa, e havia uma palidez em sua pele que não era característica de meio-elfos saudáveis.

À direita do Rei, em uma posição que tecnicamente era de menor importância mas que permitia visão perfeita de todos os presentes, estava Princesa Seraphina Yllari Bragallien Árvanyur.

Ela estava deslumbrante de uma forma que era quase arma. Aos dezenove anos, Seraphina havia herdado a beleza élfica em sua forma mais pura através da avó materna, mas temperada com uma presença humana que a tornava mais acessível, mais... perigosa. Seus cabelos loiro-platinados com reflexos prateados estavam presos em um penteado elaborado que deixava seu pescoço exposto, mostrando a pele pálida sem mácula. Ela usava um vestido de seda cor de ametista que combinava perfeitamente com seus olhos violeta profundo, e um colar simples de pérolas que havia pertencido à sua mãe.

Mas era sua postura que revelava a verdade para quem soubesse observar. Ela não estava sentada relaxada como uma jovem princesa em uma reunião política tediosa. Estava atenta como um falcão observando presas, cada micro-expressão dos conselheiros sendo registrada e catalogada para uso futuro.

Ao redor da mesa, os oito membros do Conselho Real estavam todos presentes pela primeira vez em meses.

Caelestis Drummond, o Chanceler, um homem humano de quarenta e oito anos com barba grisalha perfeitamente aparada e roupas sempre impecáveis, estava folheando documentos com eficiência burocrática.

Elarion Valtharën, o Mestre das Sombras, permanecia em seu canto habitual de penumbra, seus duzentos e dezessete anos de experiência em espionagem fazendo-o praticamente invisível até quando estava em plena vista.

Ugrí Martelgranito, o anão robusto de cento e sessenta anos que servia como Conselheiro de Guerra, estava batendo os dedos impacientes em sua machadinha cerimonial, claramente ansioso para chegar aos assuntos militares.

Aelion Bragallien Árvanyur, meio-elfo de cinquenta e dois anos e irmão mais velho do Rei, ocupava seu posto como Ministro das Finanças com a expressão perpetuamente preocupada de alguém que via os números e não gostava do que eles diziam.

Garron Maverdin, conhecido como "Trovão de Saia" por razões que ninguém na corte tinha coragem de perguntar diretamente, era o Senhor das Guildas. Aos cinquenta e dois anos, o humano corpulento tinha a aparência de alguém que havia passado mais tempo em tavernas de aventureiros do que em salões nobres, mas seus olhos afiados não perdiam nada.

Aldebaran Luccalyon, o Arquimago Supremo de cento e dezoito anos e linhagem híbrida tão complexa que nem ele conseguia traçar completamente, estava meditando com os olhos fechados, sua longa barba prateada caindo sobre robes cobertos de runas que brilhavam suavemente.

Lyraen Selvestra, a Representante da Amazônia, era uma elfa de trezentos e quarenta anos cuja presença sempre trazia o cheiro sutil de floresta selvagem mesmo nos salões de pedra da capital. Ela observava tudo com o distanciamento de quem havia visto impérios subirem e caírem.

E finalmente, Aurélius Venthor, o Sumo Sacerdote de sessenta e cinco anos, estava sentado com suas mãos entrelaçadas sobre a mesa, o símbolo solar de platina em seu pescoço capturando a luz das velas de forma que parecia brilhar com luminosidade própria.

O Rei Thalien bateu levemente na mesa com um anel de sinete, o sinal tradicional de início de conselho.

"Meus conselheiros," sua voz saiu mais fraca do que deveria, e ele limpou a garganta antes de continuar. "Agradeço a presença de todos. Temos assuntos críticos a tratar hoje. Chanceler Drummond, o primeiro relatório, por favor."

Caelestis Drummond se levantou com a precisão de um relógio mecânico.

"Vossa Majestade, senhores conselheiros. O primeiro assunto é o incidente de UniCampos. Há quatro dias, uma operação da Guilda Master X para investigar desaparecimentos na cidade universitária resultou em descoberta de experimentação proibida em seres sencientes, criação de Homúnculos de nível Rank A, e subsequente falha de missão de uma equipe liderada pela Mestra Lyris Nereval."

Um murmúrio percorreu a mesa. Lyris Nereval era conhecida por nunca falhar.

Seraphina observou a reação de cada conselheiro. Ugrí parecia interessado militarmente. Aelion parecia preocupado com custos. Garron estava franzindo a testa. Aldebaran havia aberto os olhos. Lyraen permanecia impassível. Elarion estava... impossível de ler, como sempre. E Aurélius tinha uma expressão de satisfação mal disfarçada que apenas Seraphina pareceu notar.

Drummond continuou. "A Guilda ativou Protocolo Executor. Grandes Mestres Ainar Stellarion, Fiára Ignisborne e Rhaegor Mallik foram enviados. O Reitor Orin Vallas e três dos quatro Homúnculos fugiram. Um Homúnculo foi eliminado por Ainar Stellarion. A instalação foi destruída."

Rei Thalien se inclinou para frente, e Seraphina notou como o movimento fez ele apertar discretamente o braço da cadeira para manter equilíbrio.

"A Master X falhou?" o Rei perguntou, e havia genuína surpresa em sua voz. "Essa... essa é a guilda mais elite do Reino. Como uma equipe liderada por um Rank S falha contra um cientista louco?"

Garron Maverdin respondeu, sua voz grave. "Majestade, pelos relatórios preliminares, não foi falha de competência. Foi encontro com tecnologia completamente nova. Os Homúnculos demonstraram capacidades que contradizem nosso entendimento atual de magia de criação. Um deles era literalmente Anti-Magia ambulante."

Aldebaran Luccalyon abriu os olhos completamente pela primeira vez, e havia alarme genuíno neles.

"Anti-Magia incorporada em forma viva? Isso é... teoricamente possível, mas os custos em vidas e recursos para pesquisa seriam..." o Arquimago fez cálculos mentais rápidos, "...centenas de sujeitos experimentais. Talvez milhares."

"Exatamente," Drummond confirmou sombriamente. "A estimativa preliminar é que Vallas conduziu experimentação em pelo menos duzentas pessoas ao longo de cinco anos. Muitas eram criminosos condenados e doentes terminais cujas famílias foram pagas, mas os métodos eram... atrozes."

Seraphina escolheu este momento para falar pela primeira vez, sua voz suave mas clara.

"Pai, se posso sugerir?" Ela esperou o aceno permissivo do Rei antes de continuar. "A Master X demonstrou que mesmo suas melhores forças podem ser surpreendidas por ameaças não-convencionais. Talvez seria prudente convocar o executor responsável, este Ainar Stellarion, para relatar pessoalmente. E..."

Ela pausou delicadamente, como se a ideia acabasse de ocorrer a ela.

"...talvez também seus aprendizes. Aqueles que participaram da missão inicial e sobreviveram ao encontro com os Homúnculos. Perspectivas múltiplas forneceriam melhor análise tática."

Ugrí bateu na mesa com aprovação. "A princesa tem razão! Relatórios escritos são secos. Quero olhar nos olhos dos que lutaram contra essas coisas."

Rei Thalien considerou, e Seraphina viu o momento exato em que sua sugestão foi aceita. Ela havia aprendido a ler as micro-expressões do pai como um livro aberto após meses de manipulação cuidadosa.

"Concordo. Chanceler, envie convocação oficial para Ainar Stellarion e seus três aprendizes diretos. Quero eles aqui em uma semana para audiência real." O Rei pausou, então acrescentou, "E Seraphina estará presente na audiência como observadora. Ela demonstra interesse apropriado em assuntos de defesa do Reino."

Aurélius sorriu levemente, e seus olhos encontraram os de Seraphina por uma fração de segundo. Era reconhecimento. Ela havia acabado de garantir acesso direto a informações sobre a força real da Master X, e havia feito parecer que era ideia do Conselho, não dela.

"O segundo assunto," Drummond continuou, sua voz ficando ainda mais grave, "são os relatórios militares das fronteiras. Conselheiro Ugrí?"

O anão se levantou, e havia fogo em seus olhos de guerreiro veterano.

"Majestade, a situação nas Estepes Áridas se deteriorou significativamente. Os clãs Orcs, que historicamente passavam mais tempo lutando entre si do que ameaçando nossas fronteiras, estão demonstrando níveis sem precedentes de cooperação. Nossos rastreadores confirmaram reuniões entre pelo menos sete grandes clãs sob bandeira de trégua."

Ele desenrolou um mapa militar na mesa, apontando para as regiões ao leste.

"Pior ainda, há rumores não confirmados mas preocupantes de contato entre líderes Orcs e tribos Goblin organizadas. Se isso for verdade, estamos vendo a formação potencial de uma aliança que não existe há duzentos anos."

Aelion, o Ministro das Finanças, gemeu audivelmente. "Uma mobilização militar em larga escala custaria..."

"Mais do que podemos pagar, eu sei," Ugrí cortou impaciente. "Mas custa menos que reconstruir cidades queimadas."

Lyraen Selvestra, a representante élfica, falou pela primeira vez com sua voz que parecia sussurro de folhas.

"Os Orcs se unificando não é sem precedente histórico. Sempre há um catalisador. Um líder carismático, uma ameaça externa, ou..." ela pausou significativamente, "...um patrocinador com recursos."

Elarion Valtharën emergiu levemente das sombras, sua voz suave mas carregando peso.

"Minha rede de informantes confirma movimentação de ouro e armas de origem desconhecida nas rotas comerciais que levam às Estepes. Alguém está financiando essa unificação."

O Rei Thalien estava pálido agora, a pressão dos múltiplos problemas claramente afetando-o. Seraphina observou e calculou. Seu pai estava fraco. Perfeito.

"Há mais," Drummond disse, e seu tom indicava que o pior ainda estava por vir. "Três dias atrás, a vila de Ponta do Orvalho, na fronteira das Terras do Trovão com a Floresta Eterna, foi atacada. Vinte e três mortos, incluindo mulheres e crianças. A vila foi queimada."

Silêncio absoluto caiu sobre a mesa.

"E os atacantes?" Rei Thalien perguntou, voz tensa.

"Segundo testemunhas sobreviventes e o próprio Lorde Torvan Trovoaris que investigou pessoalmente... eram elfos."

A explosão de vozes foi imediata. Lyraen se levantou tão bruscamente que sua cadeira quase tombou.

"IMPOSSÍVEL! A Floresta Eterna não autoriza incursões em território humano há séculos! Isso é mentira ou armação!"

Ugrí bateu na mesa. "Temos testemunhas! Pessoas viram orelhas pontudas e ouviram a língua élfica!"

"Qualquer um pode fingir sotaque!" Lyraen contra-atacou, seus trezentos e quarenta anos de paciência élfica sendo testados. "Meu povo não massacra crianças!"

Aurélius levantou a mão, sua voz de sacerdote treinada para acalmar multidões funcionando até mesmo aqui.

"Paz, conselheiros. uma Investigação apropriada está sendo conduzida. O próprio Lorde Torvan Trovoaris enviou um relatório detalhado. Ele solicitou permissão para comparecer ao Conselho e apresentar evidências pessoalmente."

Seraphina forçou-se a não sorrir. Perfeito. Tudo estava correndo conforme o plano.

Rei Thalien, claramente sobrecarregado, olhou para Aurélius como um homem se afogando olha para uma tábua flutuante.

"Sumo Sacerdote, sua recomendação?"

"Cautela, Majestade. Não devemos acusar nossos aliados élficos sem prova irrefutável. Mas também não podemos ignorar mortes de cidadãos do Reino. Sugiro que convoquemos Lorde Torvan para apresentar seu caso, e simultaneamente enviemos emissário diplomático para a Floresta Eterna para investigação conjunta."

Era razoável. Era equilibrado. Era exatamente o que Seraphina e Aurélius haviam planejado. Manter a tensão alta sem resolver nada, criando atmosfera de paranoia que favoreceria consolidação de poder militar e religioso.

O Rei assentiu, exausto. "Aprovado. Chanceler, faça os arranjos. Algum outro assunto?"

"Apenas relatórios econômicos de rotina, Majestade, mas podem esperar para próxima sessão."

"Então este Conselho está encerrado." Thalien se levantou com esforço visível. "Seraphina, acompanhe-me."

A princesa se levantou graciosamente, mas por dentro estava calculando. Seu pai querendo conversa privada não estava no planejamento.

Eles caminharam pelos corredores do palácio em silêncio até chegarem aos aposentos privados do Rei. Assim que a porta fechou, Thalien praticamente desabou em uma poltrona, todo o peso de manter aparências caindo dele como um manto pesado.

"Você manipulou o Conselho," ele disse, mas não havia acusação em sua voz. Apenas cansaço.

Seraphina se ajoelhou ao lado da poltrona, pegando a mão do pai entre as suas, o retrato perfeito de filha devotada.

"Pai, eu apenas sugeri perspectiva tática sobre a Master X. O Reino precisa entender suas próprias defesas."

"Você sugeriu exatamente o que eles já queriam fazer, fazendo parecer ideia deles," Thalien corrigiu com um fantasma de sorriso triste. "Você tem o dom de sua mãe para política. Isadora faria o mesmo."

A menção da a Rainha Isadora, morta há cinco anos de doença repentina, fez algo genuíno passar pelo rosto de Seraphina. Dor real, brevemente desmascarada.

"A mãe me ensinou que servir o Reino às vezes significa guiar aqueles no poder sem que percebam que estão sendo guiados."

"E você está me guiando agora?" Thalien perguntou, seus olhos verde-dourados encontrando os olhos violeta da filha.

Seraphina manteve o olhar, e quando falou, havia verdade misturada com mentira de forma tão perfeita que era impossível separar.

"Estou tentando protegê-lo. Você está doente, pai. Eu vejo. Todo o palácio finge não ver, mas eu vejo. Você precisa de força ao seu redor, e se eu puder fornecer essa força através de sutileza em vez de confronto, farei."

Thalien fechou os olhos. "Os médicos dizem que é apenas fadiga. Estresse da coroa."

"E você acredita neles?"

Silêncio.

"Descanse, pai. Eu cuidarei do que for necessário."

Seraphina beijou a testa do pai e saiu silenciosamente, deixando o Rei sozinho com seus pensamentos e sua doença misteriosa que os melhores curandeiros do Reino não conseguiam identificar.

No corredor, ela permitiu-se um sorriso pequeno e frio. A doença não era misteriosa para ela. Ela sabia exatamente o que era, porque ela mesma a havia encomendado através de Aurélius. Um veneno élfico raro, de ação lenta, que imitava perfeitamente fadiga natural. Indetectável. Incurável sem conhecer a fonte.

E a fonte era um segredo que apenas três pessoas no Reino conheciam: Seraphina, Aurélius, e o alquimista que a havia criado e que agora estava convenientemente morto em um acidente de laboratório.

Ela seguiu pelos corredores até uma sala privada de reuniões que raramente era usada. Dentro, esperando na penumbra com uma taça de vinho, estava Lorde Torvan Trovoaris.

Ele tinha quarenta e três anos, humano puro de linhagem nobre antiga das Terras do Trovão. Alto, de ombros largos, com cabelos negros começando a grisalhar nas têmporas e olhos cor de tempestade que haviam visto batalha real. Ele usava roupas de viagem ainda sujas de estrada, tendo aparentemente acabado de chegar.

"Princesa," ele se curvou com respeito genuíno. "O Conselho aceitou meu relatório?"

"Como previsto," Seraphina confirmou, servindo-se de vinho. "Aurélius apresentou exatamente como planejamos. Tensão com os elfos estabelecida sem declaração aberta de guerra. Perfeito."

Torvan tomou um longo gole de vinho. "Executar o ataque foi... desagradável. Eram pessoas inocentes."

"Eram variáveis necessárias," Seraphina corrigiu friamente. "Vinte e três mortos para justificar mobilização militar que fortalecerá nossa posição. Quando o Rei eventualmente... falecer... e meu irmão Aethon assumir o trono, ele será cercado por conselheiros militares que devem lealdade a nós, não a ele."

"E os elfos falsos? Os mercenários que eu contratei?"

"Mortos antes que pudessem falar, como ordenado?"

"Sim. Fiz parecer que fugiram de volta para a Floresta."

"Excelente." Seraphina olhou pela janela para a cidade iluminada abaixo. "Quanto aos outros?"

"Lady Morgana Maris Silversea enviou mensagem confirmando apoio total. A Baía dos Espelhos está conosco. Ela controla as rotas marítimas comerciais."

"E Kaleb?"

"Lorde Kaleb Solcândido da Costa Solar também confirmou. Ele era mais relutante, mas a promessa de contratos militares para seus estaleiros o convenceu."

Seraphina contou mentalmente. Torvan nas Terras do Trovão, metade da população meio-elfo sob seu controle. Morgana controlando comércio marítimo. Kaleb controlando produção naval e parte da costa. E ela mesma tinha Aurélius e a influência religiosa.

Quatro peças no tabuleiro. Não era maioria, mas era base suficiente.

"O Rei enfraquece a cada semana," Seraphina disse suavemente. "O veneno garante isso. Quando ele morrer, Aethon herdará um reino à beira de múltiplas guerras: Orcs ao leste, possível conflito com elfos ao norte, instabilidade nas guildas. Ele será forçado a delegar poder para lidar com tudo."

"E você estará lá para ajudar o irmão desesperado," Torvan completou.

"Exatamente. E gradualmente, o poder real fluirá para onde deve estar. Não com um herdeiro fraco que nunca quis a coroa. Mas com aqueles que têm força para empunhá-la."

Torvan olhou para a princesa de dezenove anos que falava de fratricídio político com a frieza de general veterano.

"Você sabe que está condenando seu próprio pai à morte. E possivelmente seu irmão também."

Seraphina virou-se para ele, e seus olhos violeta eram absolutamente vazios de remorso.

"Meu pai é fraco. Sempre foi. Ele permitiu que o Reino estagnasse enquanto ameaças cresciam. Meu irmão é pior, um sonhador que prefere poesia a política. E meu irmão caçula Cael é criança demais para importar."

Ela se aproximou de Torvan, e havia algo hipnótico em sua presença.

"Eu amo meu pai. Genuinamente. E é por amor que faço isso. Melhor que morra em paz pensando que o Reino está seguro, do que viva para ver tudo desmoronar porque era fraco demais para fazer o necessário."

Era lógica pervertida, mas era lógica. Torvan acenou em concordância silenciosa.

"Mantenha sua narrativa sobre o ataque élfico," Seraphina instruiu. "Apresente ao Conselho quando convocado. Eu garantirei que Aurélius apoie cada palavra. E continue monitorando qualquer movimentação real dos Orcs. Ironicamente, a ameaça Orc que estamos usando como justificativa pode se tornar real."

"E quanto à Master X? Você pediu que convocassem esse Ainar."

"Curiosidade," Seraphina admitiu. "A Master X é a maior força militar independente do Reino. Eventualmente, precisaremos neutralizar sua independência ou conquistar sua lealdade. Conhecer seus líderes pessoalmente é primeiro passo."

Torvan terminou seu vinho e se levantou. "Então continuamos como planejado. Eu retorno às Terras do Trovão e aguardo convocação oficial."

"Sim. E Torvan?" Seraphina o parou na porta. "Obrigada. Sei que isso pesa em sua consciência. Mas você está servindo o futuro do Reino."

"Espero que esteja certa, Princesa. Por todos nós."

Ele saiu, deixando Seraphina sozinha.

Ela olhou para seu reflexo na janela escura. Cabelos platinados perfeitamente arranjados. Vestido de seda cara. Jóias que custavam mais que uma vila inteira produzia em um ano. Ela parecia uma princesa de conto de fadas.

Mas por baixo do vestido, invisíveis para todos, as tatuagens mágicas proibidas brilhavam muito fracamente. Marcas de poder que ela havia aprendido de grimórios antigos que a Igreja queimaria se soubesse que existiam.

O sangue élfico precisa de fogo humano, ela havia sussurrado para si mesma no santuário.

E ela seria esse fogo.

Não importava quantos precisassem morrer para que ela queimasse suficientemente brilhante para purificar o Reino de sua própria fraqueza.

A teia estava tecida. As peças estavam movendo. E no centro de tudo, uma princesa de dezenove anos manipulava reis, lordes e sacerdotes como um grande mestre manipula peças de xadrez.

A guerra estava vindo. De todas as direções.

E Seraphina Yllari Bragallien Árvanyur planejava estar no único lugar que importava quando a fumaça se dissipasse: no trono.

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