Os seis dias entre o duelo com Marcus e a partida para Costa Solar foram os mais intensos que Leo havia experimentado desde o mês infernal pós-UniCampos. Ainar não estava mais apenas treinando-os para sobreviver. Estava refinando-os para vencer.
A descoberta sobre , o Arcano do Papa, veio no terceiro dia.
Leo estava na Arena de Treinamento Privada, um espaço menor que a arena principal mas equipado com runas de contenção muito mais fortes, permitindo uso de magia de alto nível sem risco de destruir a estrutura. Ainar havia criado cinco golems de mana simultaneamente e ordenado que Leo os destruísse usando apenas Caramelo e seus Arcanos.
Era exercício de eficiência. Não vencer, mas vencer gastando o mínimo de recursos possível.
Leo estava no terceiro golem quando sentiu. Aquela presença que havia se manifestado durante o duelo com Marcus. O Hierofante. A Conexão.
Instintivamente, ele ativou o Arcano.
E Caramelo desapareceu.
Não se dissipou gradualmente como normalmente fazia quando Leo cancelava a invocação. Simplesmente deixou de existir ali, como se toda a substância do familiar tivesse sido sugada para outro lugar.
Para dentro de Leo.
A sensação era impossível de descrever adequadamente. Era como se outra consciência tivesse se fundido com a dele, não substituindo sua mente mas expandindo-a. Ele podia sentir o caos selvagem e instintivo de Caramelo fluindo através de suas veias como segundo sistema circulatório.
E então compreendeu. O Hierofante não era sobre invocar o familiar. Era sobre se tornar o familiar. União completa.
Leo olhou para sua katana e viu que a lâmina estava envolta em uma aura de energia caótica que pulsava irregularmente, como se a própria realidade ao redor do metal estivesse levemente instável.
Ele cortou o ar na direção do quarto golem.
O Corte Imbuído no Caos que saiu da lâmina não era como suas magias elementais normais. Não era fogo controlado ou raio direcionado. Era uma onda de pura distorção que viajou pelo ar e, ao atingir o golem, simplesmente o desfez. Não quebrou, não derreteu, não explodiu. Desfez, como se a magia que mantinha o golem coeso tivesse sido retroativamente cancelada.
O golem deixou de ter existido.
Mas o preço foi imediato e brutal. Leo sentiu sua reserva de mana drenar completamente em um único segundo. Não apenas a mana especial que ele usava para Caramelo e os Arcanos. Toda sua mana. A normal, a elemental, tudo.
Suas pernas falharam. Ele caiu de joelhos, a katana escapando de sua mão e batendo no chão com som metálico. Estava vazio. Completamente esgotado de uma forma que nunca havia experimentado antes.
Ainar estava ao seu lado instantaneamente, segurando-o antes que Leo desabasse completamente.
"Interessante," Ainar murmurou, seus olhos cinza-claros estudando Leo com aquela intensidade científica. "Muito interessante."
"Eu... não consigo sentir minha mana," Leo ofegou. "Nada. Está completamente vazia."
"Porque você queimou tudo. Não gastou, queimou." Ainar ajudou Leo a sentar-se encostado na parede. "O Hierofante fundiu você com seu familiar, e aquele ataque usou não apenas sua mana arcana, mas converteu toda sua mana normal em combustível para o caos. É... brutalmente ineficiente mas devastadoramente poderoso."
Leo tentou canalizar até mesmo uma faísca de fogo, o truque mais básico que qualquer mago aprendia. Nada aconteceu. Era como tentar acender um fósforo molhado.
"Quanto tempo até eu recuperar?"
"Com descanso normal? Seis a oito horas para mana normal. Doze a dezesseis para mana arcana." Ainar se sentou ao lado dele, pegando uma cantil de água e oferecendo. "E agora você entende por que eu falo tanto sobre economia de recursos. Aquele ataque único poderia matar um oponente Rank A. Mas depois você está completamente vulnerável."
Leo bebeu a água lentamente, sentindo a garganta seca. "Então é ataque de último recurso. Golpe final."
"Exatamente. Mas," Ainar levantou um dedo, "é também seu trunfo absoluto. Nos Jogos, se você enfrentar oponente que seus outros recursos não conseguem derrotar, você tem essa carta escondida. Só use quando tiver certeza de que vai funcionar, porque não terá segunda chance."
Leo assentiu, ainda processando o que havia descoberto. O Hierofante, União. Fundir-se com Caramelo, ganhar acesso ao poder do caos em forma pura, mas ao custo de tudo.
"Ainar," Leo disse depois de alguns minutos de silêncio. "Por que só algumas pessoas conseguem usar esse tipo de magia? A magia arcana?"
Ainar olhou para ele com surpresa genuína. "Ninguém te explicou isso na Academia Legacy?"
"Nunca entrou em detalhes. Só disseram que algumas pessoas tinham afinidade especial."
Ainar suspirou, então se acomodou em postura de professor prestes a dar aula.
"Existem dois tipos de magia, Leo. Magia Normal e Magia Arcana. A maioria dos magos, provavelmente 95% deles, usa apenas Magia Normal. É a magia que flui naturalmente do mundo. Fogo, água, vento, raio, terra, gelo. Cura, reforço físico, ilusões básicas. Tudo isso é Magia Normal. É confiável, pode ser ensinada, e qualquer pessoa com mana suficiente e treinamento adequado pode aprender."
Ele desenhou símbolos no ar com o dedo, deixando traços de mana brilhante.
"Magia Arcana é diferente. Ela não vem do mundo. Ela vem de... outra coisa. Alguns chamam de Plano Arcano, outros de Verdade Oculta, tem mil nomes dependendo da tradição. Mas essencialmente, Magia Arcana é acessar conceitos puros em vez de elementos naturais."
"Conceitos puros," Leo repetiu, tentando entender.
"Seu Caramelo não é um gato de fogo ou um gato de água. É Caos manifestado. Isso é conceito puro. Minha capacidade de manipular Ordem Fundamental, como você viu quando destruí Morvath, não é magia elemental. É conceito puro." Ainar pausou. "Draven pode manipular Gravidade em nível conceitual. Não apenas fazer coisas pesarem mais ou menos, mas alterar a própria relação entre massa e espaço."
Leo sentiu um arrepio. Esse tipo de poder estava além do que ele havia imaginado.
"Quantas pessoas conseguem usar Magia Arcana?"
"No Reino inteiro? Talvez duzentas, trezentas. É extremamente raro. E na maioria dos casos, a pessoa tem acesso apenas a um conceito específico. Você tem acesso a múltiplos Arcanos, o que é ainda mais raro. Eu conheço talvez dez pessoas vivas que têm isso."
"E artefatos arcanos?"
Ainar sorriu. "Ah, sim. Objetos que foram imbuídos com Magia Arcana. São ainda mais raros que usuários vivos, porque requerem não apenas um mago arcano poderoso, mas também artífice com habilidade de vincular conceitos a matéria física. A maioria dos artefatos arcanos conhecidos tem centenas de anos. Alguns milhares."
Ele se levantou, oferecendo a mão para ajudar Leo.
"Você provavelmente vai encontrar alguns nos Jogos. Times de guildas elite frequentemente têm acesso a pelo menos um artefato menor. Nada no nível de Excalibur ou outras lendas, mas talvez uma lâmina que nunca cega, ou armadura que se regenera. Fique atento."
Leo se levantou com ajuda, ainda fraco mas começando a sentir os primeiros fiapos de mana retornando.
"Descanse hoje. Amanhã treinaremos Luna e Bob em cenários específicos de floresta. E depois de amanhã," Ainar sorriu, "partimos para Costa Solar."
A viagem até Costa Solar levou dois dias de trem, mas desta vez não viajaram apenas o Time Master X e Ainar. A Master X estava enviando também seu time veterano, como todas as guildas faziam.
O time veterano era o Colosso Verdejar, e Leo entendeu imediatamente por que tinham esse nome.
Caelum Ardorin, o líder, era meio-elfo de aparência despretensiosa se não fosse pela intensidade absoluta em seus olhos verde-musgo. Cabelos castanho-escuros presos em rabo baixo, roupas práticas de viagem, mas havia algo nele que fazia o ar parecer mais pesado. Ele era Rank S, Mago Terrano, e havia rumores de que era Escolhido de um espírito antigo da terra.
Myra Vellaris era humana de vinte e poucos anos, cabelos azul-escuros com penas decorativas entrelaçadas, olhos âmbar que pareciam estar sempre calculando algo. Invocadora de Criaturas Aladas, Rank A mas claramente em ascensão. Ela tinha sorriso sarcástico permanente que sugeria que achava a maioria das coisas levemente divertidas.
E então havia Deimos Thoryn.
Humano, provavelmente trinta anos, corpo coberto de cicatrizes de batalhas reais, cabelo preto raspado nas laterais, olhos que ficavam vermelhos quando ele estava irritado, o que parecia ser frequente. Ele era Guardião Feral, Rank S, e carregava escudo e lança como se fossem extensões de seu corpo.
E estava absolutamente furioso.
"BABÁ!" Deimos rugiu pela terceira vez desde que haviam embarcado no trem. "Estamos indo como BABÁ de novatos!"
Myra revirou os olhos. "Deimos, já discutimos isso."
"NÃO ME IMPORTO! Os Jogos têm categoria veterana também! Deveríamos estar competindo, provando que a Master X é a melhor em TODAS as categorias, não ficando de lado assistindo crianças brincarem de aventureiros!"
Caelum, que estava meditando em um canto do vagão, abriu um olho. "Protocolo da guilda. Times veteranos acompanham novatos para proteção em trânsito e suporte em emergências. Não podemos competir."
"PROTOCOLO IDIOTA!"
Leo, Luna e Bob estavam em outro canto do vagão, tentando parecer invisíveis. Ainar, claro, estava completamente confortável, lendo um livro e ocasionalmente sorrindo para as explosões de Deimos.
"Ele sempre é assim?" Bob sussurrou.
"Deimos tem Fúria Crescente," Myra explicou, tendo ouvido o sussurro. "Poder dele aumenta quanto mais ele luta. E ele acumula parte disso entre lutas. Então ele está literalmente sempre procurando por mais combate para ficar mais forte. Não poder lutar nos Jogos é tortura para ele."
"E vocês simplesmente... deixam ele gritar?" Luna perguntou.
"Ele precisa desabafar. Daqui a dez minutos ele vai estar fazendo flexões ou algo assim para queimar energia." Myra piscou. "Vocês vão se acostumar. Deimos é leal até a morte e o melhor tanque que vocês já verão. Só é... intenso."
Como previsto, Deimos eventualmente parou de gritar e começou a fazer flexões. No chão do vagão em movimento. Com Myra sentada em suas costas adicionando peso. Ele fez duzentas antes de finalmente parecer mais calmo.
Costa Solar apareceu no horizonte ao pôr do sol do segundo dia, e até mesmo Deimos parou de reclamar para observar.
A cidade era deslumbrante de uma forma completamente diferente de Brasíbis. Onde a capital era mármore branco e organização geométrica, Costa Solar era cor, curvas e vida.
A cidade se espalhava ao longo de uma baía ampla de águas azul-turquesa cristalinas. Praias de areia branca se estendiam por quilômetros, pontilhadas por coqueiros e palmeiras que balançavam na brisa constante. Os prédios eram pintados em cores vibrantes, amarelos solares, laranjas vivos, azuis profundos, verdes tropicais, criando um mosaico visual que parecia celebrar a própria luz.
A arquitetura era diferente do resto do Reino. Telhados de barro vermelho em vez de ardósia. Varandas abertas em vez de janelas pequenas. Mercados abertos em vez de lojas fechadas. Havia música vindo de várias direções, ritmos que Leo nunca havia ouvido, instrumentos de percussão e cordas criando melodias que faziam o corpo querer se mover.
E o cheiro. Sal do mar misturado com algo doce e picante de comida sendo preparada em todas as esquinas. Peixe fresco grelhado, algum tipo de ensopado aromático, frutas que Leo não reconhecia sendo cortadas e vendidas.
"É... alegre," Bob observou, claramente sem palavras melhores.
"Costa Solar é conhecida como a Joia do Nordeste," Myra explicou. "Lorde Kaleb Solcândido controla as rotas comerciais marítimas do norte. A cidade é rica, festiva, e politicamente importante."
Leo notou o tom ligeiramente mais sério quando ela mencionou política. Fazia sentido. Kaleb era um dos conspiradores de Seraphina. Esta era território inimigo disfarçado de paraíso.
Eles foram alojados em uma pousada de luxo perto da praia, reservada especificamente para delegações das guildas. Cada time tinha suíte própria com vista para o mar.
Ainar os reuniu antes de liberá-los para explorar.
"Vocês têm três dias antes dos Jogos começarem. Primeiro dia é chegada de todas as guildas. Segundo é cerimônia de abertura. Terceiro são os jogos. Usem estes dias para descansar, mas também para observar. Outras guildas estarão aqui. Estudem seus oponentes discretamente."
"E quanto a nós?" Deimos perguntou, ainda resmungando.
"Vocês garantem que nada aconteça com eles fora da arena. E ficam de olho em qualquer coisa estranha politicamente. Kaleb é anfitrião, mas isso não significa que podemos confiar nele."
Depois do briefing, Ainar simplesmente liberou todos. "Vão. Comam, bebam, aproveitem. Amanhã começamos observação tática."
Leo, Luna e Bob saíram para explorar a cidade ao anoitecer. As ruas de Costa Solar ficavam ainda mais vivas à noite. Lanternas de papel colorido penduradas entre os prédios criavam galáxias artificiais de luz. Músicos tocavam em esquinas. Dançarinos performavam em praças.
Eles encontraram um restaurante aberto recomendado por um dos guardas locais. Era estabelecimento pequeno, familiar, com mesas de madeira gastas e cheiro absolutamente maravilhoso vindo da cozinha.
"O que vocês recomendam?" Leo perguntou ao garçom, um homem mais velho com sorriso largo e sotaque musical.
"Moqueca, jovem! Especialidade da casa! Peixe fresco, leite de coco, dendê, pimentas, servido com arroz e farofa. Vai mudar sua vida!"
Eles pediram três porções e uma jarra de algo que o garçom chamou de "suco de maracujá com toque especial".
Quando a comida chegou, Leo entendeu por que o homem estava tão orgulhoso. O ensopado era cremoso mas não pesado, picante mas não insuportável, com sabores que dançavam na língua de formas que comida da capital nunca fazia. O peixe derretia, o arroz absorvia o molho perfeitamente, e a farofa adicionava textura crocante.
"Isso é," Bob disse com a boca cheia, completamente esquecendo etiqueta, "a melhor coisa que já comi na vida."
Luna, normalmente reservada, estava comendo com velocidade que sugeria concordância total.
Leo tomou um gole do suco e sentiu a acidez refrescante do maracujá misturada com algo levemente alcoólico e doce. "O que tem nesse suco?"
O garçom piscou. "Segredo da casa! Mas posso dizer que tem um toquezinho de cachaça boa. Só um toquezinho!"
Eles comeram até não conseguirem mais, pagaram generosamente, e saíram para caminhar pela praia e digerir.
A praia à noite era mágica. A lua cheia refletia no mar calmo criando caminho de prata sobre a água. Pequenas fogueiras pontilhavam a areia onde grupos de pessoas conversavam, cantavam, simplesmente existiam.
Leo olhou para Luna e Bob, seus companheiros de equipe que haviam se tornado algo mais. Não exatamente família, porque todos eles tinham famílias complicadas. Mas algo próximo disso. Pessoas que haviam sangrado juntos, quase morrido juntos, crescido juntos.
"Vocês acham que conseguimos?" Leo perguntou de repente. "Contra vinte e seis outras guildas?"
Luna considerou a pergunta seriamente antes de responder. "Isoladamente, há times que provavelmente são mais fortes que nós. Mas juntos, com nossa sincronia, nossa experiência em situações impossíveis..." ela sorriu levemente, "sim. Podemos vencer."
"Vamos vencer," Bob corrigiu com sua confiança característica. "Não viemos até aqui para perder."
Leo olhou para o mar, sentindo a brisa salgada no rosto, e permitiu-se um momento de paz. Amanhã começaria a observação tática. Depois de amanhã seria cerimônia de abertura. E então a guerra.
Mas esta noite, nesta praia, com comida boa no estômago e amigos ao lado, Leo podia simplesmente ser um jovem de dezenove anos admirando o oceano.
A tempestade viria. Mas por agora, havia calma.
E Leo aprendeu algo importante naquele momento, algo que Ainar nunca havia ensinado explicitamente mas que era fundamental: guerreiros que nunca descansam não duram.
Ele respirou fundo, saboreou o sal no ar, e deixou a tranquilidade da Costa do Sol preparar seu espírito para a batalha que estava por vir.
Amanhã, seriam competidores. Esta noite, eram apenas três jovens aventureiros descobrindo que o mundo tinha beleza mesmo em meio ao caos.
E essa beleza valia a pena lutar para proteger.
