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Chapter 20 - VITÓRIAS IMPERFEITAS E O PESO DA HESITAÇÃO

A segunda manhã na Dungeon-Floresta amanheceu com névoa densa que transformava as árvores em silhuetas fantasmagóricas. Leo havia dormido mal, revezandoa vigília com Luna e Bob em turnos de duas horas. Cada som na escuridão parecia uma ameaça potencial, cada movimento de folha poderia ser um inimigo se aproximando.

Mas nada havia acontecido. E isso, de certa forma, era pior que um ataque real.

"Dezessete equipes restantes," Luna disse enquanto comiam ração de campo fria que haviam trazido. "Cinquenta e um competidores. As equipes fracas já foram eliminadas. A partir de agora, cada encontro será contra competidores reais."

Bob estava esfregando os ombros, tentando aliviar a tensão acumulada. "Não podemos continuar apenas evitando combate. Eventualmente seremos forçados a lutar ou ficaremos encurralados."

Leo sabia que ambos estavam certos. A estratégia de sobrevivência passiva do primeiro dia havia funcionado, mas estava chegando ao limite. Eles precisavam começar a eliminar outras equipes ou arriscariam ser os últimos fracos em campo de predadores.

"Mudamos a tática," Leo decidiu, sentindo o peso da liderança. "Procuramos ativamente por equipe que possamos vencer. Preferencialmente uma que já tenha lutado e esteja enfraquecida."

"Caçadores em vez de presas," Bob aprovou com sorriso tenso.

Eles desmontaram o acampamento improvisado, apagando todos os rastros de sua presença, e começaram a se mover através da floresta com propósito diferente. Não mais fugindo, mas procurando.

Luna enviava suas sombras condensadas como batedores, pequenas formas que se pareciam com animais da floresta mas eram suas extensões sensoriais. Bob mantinha percepção elemental ativa, sentindo distúrbios no ar e terra. E Leo... Leo ativava sua Previsão em pulsos curtos, procurando por caminhos que levassem a confronto controlável.

Duas horas de busca metódica. Então Luna congelou.

"Contato. Nordeste, duzentos metros. Três figuras, movendo-se lentamente. Não detectaram a gente ainda."

"Identificação?" Leo perguntou.

Luna fechou os olhos, concentrando-se através de sua sombra exploradora. "Armaduras leves, arcos... arqueiros. Provavelmente Olhos da Araucária das Sentinelas do Pinheiro."

Leo lembrou do trio de meio-elfos. Especialistas em emboscadas e combate de longo alcance. Perigosos em terreno aberto, mas se pudessem fechar a distância rapidamente...

"Eles estão procurando algo," Luna continuou. "Movimento é de rastreamento, não patrulha."

"Vulneráveis," Bob observou. "Focados em outra coisa, não esperando ser caçados."

Leo ativou Previsão mais profundamente, sentindo os caminhos prováveis. Viu múltiplas possibilidades, mas uma se destacou. Se atacassem agora, com Luna anulando detecção deles e Bob criando distração, teriam vantagem crítica nos primeiros segundos.

"Fazemos isso," Leo decidiu. "Luna, você anula a presença deles. Bob, prepara o Rompante para abertura. Eu coordeno o ataque. Objetivo é eliminar pelo menos um nos primeiros cinco segundos, forçar os outros ao erro."

Eles se moveram como unidade treinada, anos de missões juntos tornando comunicação verbal quase desnecessária. Luna espalhou suas sombras em rede ao redor da área onde os Olhos da Araucária estavam, criando uma zona de escuridão sutil que não era óbvia mas que interferia com percepção aguçada dos arqueiros.

Bob canalizou seu Rompante Tri-Elemental, a energia de Vento, Água e Raio se entrelaçando em suas mãos em espiral instável de poder.

Leo convocou Caramelo, o familiar surgindo silenciosamente ao seu lado, energia caótica pulsando através do gato alaranjado.

"Agora," Leo sussurrou.

Bob liberou o Rompante. A explosão de energia tricolor cortou através da floresta como um relâmpago horizontal, atingindo a área onde os três arqueiros estavam.

A reação foi impressionantemente rápida. Lumiel Araupin rolou para o lado, arco já em mãos, flecha pronta. Lys Pinhalva sentiu o ataque através de vibrações no solo uma fração de segundo antes e se jogou atrás de uma árvore. Mas Torren Galho-Seco, que estava mais focado em estudar rastros no chão, levou o impacto direto.

O Cristal de Vida dele brilhou vermelho, barreira de proteção ativando instantaneamente e teletransportando-o para fora da arena. Primeira eliminação.

"EMBOSCADA!" Lumiel gritou, e a voz tinha sotaque élfico mas não pânico. Apenas informação tática.

Duas flechas foram disparadas em direção à origem do ataque de Bob em menos de dois segundos. Bob criou um escudo de Água, as flechas perfurando mas perdendo força suficiente para não causar dano sério.

Luna atacou enquanto eles estavam focados em Bob. Tentáculos de sombra condensada explodiram do chão ao redor de Lys, tentando prender a rastreadora.

Mas Lys, com seus sentidos de vibração, havia detectado a aproximação. Ela se moveu com graça élfica, escapando por centímetros, mas o movimento forçou ela a uma posição exposta.

Leo não hesitou desta vez. Caramelo se lançou como projétil vivo, energia caótica cortando o ar. O familiar atingiu Lys no torso, explosão de mana caótica fazendo ela gritar e ser arremessada contra árvore.

Seu Cristal de Vida brilhou vermelho. Segunda eliminação.

Lumiel estava sozinho agora, e sabia. Mas em vez de render-se ou fugir, ele fez algo inesperado.

Disparou três flechas em sequência rápida, mas não visando o Time Master X. Ele atirou nas árvores ao redor, e as flechas explodiram em nuvem de fumaça espessa que cobriu a área inteira.

"Cobertura!" Leo ordenou, mas Lumiel já estava se movendo. Através da percepção elemental de Bob, podiam sentir o arqueiro recuando em velocidade impressionante, usando árvores como pontos de balanço, ganhando distância.

"Eu vou atrás!" Bob começou a correr.

E então Leo teve que tomar uma decisão.

Deixar Lumiel escapar significava ele poderia se reagrupar com outra equipe, compartilhar informações táticas sobre Master X. Mas perseguir significava entrar em terreno desconhecido, possivelmente direto em uma armadilha, e gastar recursos perseguindo único sobrevivente.

Leo abriu a boca para ordenar perseguição. A palavra estava formada. Mas algo o fez parar. Previsão mostrava múltiplos caminhos, alguns levando a vitória fácil, outros a emboscada devastadora. Ele não conseguia distinguir qual era qual com certeza.

Os segundos passaram. Dois. Três. Quatro.

"Leo?" Luna pressionou, olhando para ele. "A decisão?"

"Deixa ir," Leo finalmente disse. "Não vale o risco."

Bob parou, mas havia algo em sua expressão. Não discordância aberta, mas questionamento. E Luna... Luna simplesmente assentiu, mas seus olhos lilases estudaram Leo por momento extra.

A fumaça se dissipou. Lumiel havia desaparecido completamente.

"Duas eliminações," Bob disse, quebrando o silêncio tenso. "Não é mal."

"Poderia ter sido três," Luna observou neutralmente, mas o peso das palavras estava lá.

Leo sentiu algo apertar em seu peito. Ela estava certa. Ele havia hesitado. E aquela hesitação havia permitido que arqueiro de elite escapasse.

"Vamos nos mover," Leo disse, a voz mais dura que pretendia. "Antes que outras equipes sejam atraídas pelos sons de combate."

Eles se retiraram da área rapidamente, mas a vitória tinha sabor amargo. Não por terem vencido mal, mas porque Leo sabia que havia falhado em algo fundamental. Liderança exigia decisões instantâneas e confiantes.

E ele havia congelado.

Enquanto o Time Master X lidava com consequências de sua vitória imperfeita, em parte diferente da floresta, algo muito diferente estava acontecendo.

A Távola Redonda estava sendo testada.

Arthur estava de pé em pequena clareira, Excalibur na mão emanando brilho dourado constante, cercado pelos restos de combate que havia durado menos de três minutos.

Sua oposição havia sido trio da guilda Presas do Pantanal, especialistas em xamanismo e invocação de bestas. Eles haviam sido competentes, coordenados, perigosos.

E Arthur os havia destruído com eficiência que beirava o cirúrgico.

O primeiro havia caído quando Arthur cortou através da invocação de serpente espiritual que o xamã havia conjurado, a Excalibur simplesmente dispersando a magia como se não existisse, e então atingindo o xamã com flat da lâmina com força suficiente para ativar o Cristal de Vida.

O segundo havia tentado flanquear usando bestas menores como distração. Merlin havia detectado o movimento, criado barreira de luz condensada que capturou todas as bestas simultaneamente, e então reforçou a armadura de Arthur permitindo que ele tanqueasse ataque direto e contra-atacasse com precisão matemática.

O terceiro, o tanque do time inimigo, havia durado mais tempo. Mas Andril havia simplesmente segurado a linha, seu Escudo de Balin absorvendo cada golpe sem arranhar, enquanto Arthur e Merlin trabalhavam em perfeita sincronia para sobrepujar o oponente.

Três eliminações. Zero ferimentos. Consumo mínimo de mana.

"Eficiente," Merlin comentou, limpando seus óculos calmamente como se não tivessem acabado de eliminar equipe inteira.

"Como deveria ser," Arthur respondeu, guardando Excalibur. "Eles eram competentes mas não excepcionais. A Távola Redonda representa excelência. Qualquer coisa menos que a vitória limpa seria vergonhoso."

Andril não disse nada, apenas verificou seu escudo por danos que sabia que não encontraria.

Mas havia algo na cena toda que era... perturbador. Não a violência, isso era esperado. Era a perfeição. A luta havia sido tão unilateral que mal parecia competição. Parecia execução coreografada.

E em camarote real nas arquibancadas externas, observando através de espelho mágico de transmissão, Princesa Seraphina estava assistindo com interesse que ia além de entretenimento casual.

"Três artefatos lendários trabalhando em perfeita harmonia," ela observou para sua guarda-costas, a maga de robes cinzas que permanecia constantemente ao seu lado. "É impressionante. Quase... artificialmente impressionante."

"Minha princesa?" a guarda-costas perguntou, não entendendo.

"Nada," Seraphina sorriu, mas era um sorriso de alguém que acabara de confirmar uma suspeita. "Apenas admirando a excelência da Távola Redonda."

Mas mentalmente, ela estava anotando. Arthur era forte, mas sua força era previsível. Dependente de artefatos. E artefatos, por mais lendários que fossem, tinham limitações.

De volta à floresta, o dia continuou com sua progressão brutal.

Anúncio mágico reverberou pela floresta ao meio-dia.

"ATUALIZAÇÃO: TREZE EQUIPES RESTANTES. TRINTA E NOVE COMPETIDORES ATIVOS."

Quatro equipes eliminadas só na manhã. O ritmo estava acelerando.

Master X se moveu cautelosamente, evitando áreas onde podiam ouvir combate. Eles encontraram evidências de luta particularmente brutal, árvores queimadas e terra fundida sugerindo confronto entre magos de fogo poderosos.

Ao fim da tarde, encontraram outra oportunidade.

Um dos competidores do Aurora Dourada, o time da casa, estava sozinho. Mateus Alvorada, o ex-acólito, estava apoiado contra árvore, claramente ferido. Seu uniforme estava rasgado e manchado de sangue, e ele respirava com dificuldade.

"Está sozinho," Bob confirmou através de sensores elementais. "Sem emboscada detectável."

"Ferido," Luna adicionou. "A eliminação seria trivial."

Leo ativou Previsão. Os caminhos mostravam vitória fácil. Mateus não tinha como resistir em seu estado.

Mas algo mais apareceu na visão de Leo. Mateus não estava apenas ferido, estava deliberadamente exposto. Como se estivesse sendo usado como isca.

"É uma armadilha," Leo disse imediatamente. "Os outros dois do time dele estão escondidos, esperando que alguém ataque."

"Tem certeza?" Bob perguntou.

E foi aí que Leo percebeu. Não, ele não tinha certeza. Era possibilidade que sua Previsão mostrava, mas não era única possibilidade. Mateus podia genuinamente estar sozinho e vulnerável.

"Eu... acho que sim," Leo disse, e odiou como sua voz soou insegura.

Luna olhou para ele, depois para Mateus, depois de volta para Leo. "Recuamos ou atacamos?"

Outro momento de hesitação. Outro segundo onde Leo deveria ter decidido instantaneamente mas ficou preso em análise.

"Recuamos," ele finalmente disse. "Não vale o risco."

Eles se retiraram, deixando Mateus para trás. Cinco minutos depois, através da percepção estendida de Luna, viram Ravi e Yara emergirem das sombras próximo a Mateus, ajudando-o a se levantar.

Havia sido uma armadilha. Leo estava certo.

Mas Bob não disse nada. Luna não disse nada. E o silêncio deles era mais alto que qualquer crítica.

Porque mesmo estando certo, Leo havia soado inseguro. E líderes inseguros matam times tão eficientemente quanto lâminas inimigas.

O segundo dia terminou sem mais combates para Master X. Dois eliminações no total. Tecnicamente um sucesso.

Mas quando o anúncio da noite veio, a realidade era sombria.

"FIM DO SEGUNDO DIA. ONZE EQUIPES RESTANTES. TRINTA E TRÊS COMPETIDORES ATIVOS."

Onze equipes. Master X, Távola Redonda, Lâmina da Maré, Aurora Dourada, Presas de Anhangá, Trinca da Fratura, Clamor do Uiraçu, e outras quatro que Leo não tinha certeza da identidade.

Os fracos haviam sido eliminados. Apenas os predadores permaneciam.

E enquanto faziam acampamento para a noite, Leo viu Bob e Luna trocarem olhar. Um olhar que não precisava de palavras.

Eles estavam começando a questionar sua liderança.

E o pior era que Leo estava começando a questionar também.

Ele tinha dois Arcanos que ainda não dominava completamente. Tinha a Previsão que mostrava possibilidades mas não certezas. Tinha responsabilidade por dois companheiros que confiavam nele para mantê-los vivos.

E tinha medo. Medo de tomar a decisão errada. Medo de custar a vida de seus amigos. Medo de falhar.

Aquele medo, Leo estava começando a perceber, era mais perigoso que qualquer inimigo na floresta.

Porque inimigos você podia lutar.

Mas como você luta contra suas próprias dúvidas?

Leo não sabia a resposta.

E enquanto a noite caía sobre a Dungeon-Floresta, com sons distantes de mais eliminações ecoando através das árvores, Leo Veyndril enfrentava a possibilidade aterrorizante de que talvez não fosse o líder que seu time precisava.

Que talvez nunca tivesse sido.

A semente da grande falha que estava por vir já havia sido plantada.

Agora só precisava de um momento certo para florescer.

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