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Chapter 19 - A ENTRADA NA FLORESTA E AS FERAS ESCONDIDAS

A manhã do primeiro dia dos Jogos amanheceu com névoa densa vinda do mar, cobrindo Costa Solar em manto branco que tornava tudo levemente irreal. Leo acordou antes do amanhecer, incapaz de dormir mais, e encontrou Luna e Bob já acordados também, sentados na varanda da pousada em silêncio contemplativo.

Não havia necessidade de palavras. Todos sabiam o que estava por vir.

Às oito da manhã, todas as vinte e sete equipes foram convocadas para os portões de entrada da Dungeon-Floresta. A área de preparação era organizada caos controlado. Oficiais da arena verificando Cristais de Vida, curandeiros em prontidão caso alguém precisasse de tratamento de última hora, e comentaristas mágicos flutuando em esferas de observação preparando-se para transmitir os eventos para as arquibancadas.

Leo observou as outras equipes se reunindo, e pela primeira vez teve visão completa da competição que enfrentariam.

A Távola Redonda estava impossível de não notar. Arthur Sulverde usava armadura polida que capturava a luz matinal como espelho, a Excalibur pendurada em sua cintura emanando leve brilho dourado. Ele estava cercado por nobres e admiradores que desejavam boa sorte, aceitando as atenções com sorriso gracioso mas claramente esperado. Merlin Gridel estava revisando pergaminhos de estratégia, ajustando seus óculos constantemente. Andril Corvene simplesmente estava parado com seu escudo, imóvel como estátua, já em modo de combate mental.

Próximo a eles estava equipe que Leo reconheceu dos emblemas como Lâmina da Maré da Baía dos Espelhos. Três figuras que pareciam ter saído diretamente dos cais e entrado acidentalmente em competição de elite.

O líder era jovem magro de talvez vinte anos, pele bronzeada de sol constante, cabelos negros cortados de forma prática, e olhos escuros que não piscavam quando observava algo. Ele carregava lâmina curva que parecia extensão de seu braço. Não havia ornamentação, nenhum brilho mágico. Apenas metal trabalhado e afiado até perfeição mortal. Rafael "Maré Baixa" Nogueira. Leo havia lido sobre ele, filho dos cais que havia lutado desde criança e ascendido por pura habilidade brutal.

Ao lado dele estava mulher de vinte e dois anos que emanava perigo silencioso. Cabelos castanho-escuros presos em trança militar, cicatriz fina no queixo, e olhos que analisavam tudo com frieza de assassina treinada. Lívia Espínola carregava adagas duplas em bainhas cruzadas nas costas, e mesmo parada, parecia pronta para matar em fração de segundo.

O terceiro membro era mais jovem, talvez dezenove anos, com aparência de alguém tentando provar algo. Caio "Reflexo" Valença, filho do Mestre da guilda, carregava peso de comparação constante. Ele usava lâmina leve e vários pequenos artefatos pendurados no cinto, postura de alguém que pensava três movimentos à frente.

"Eles parecem perigosos," Bob observou baixo.

"E são," Luna confirmou, consultando mentalmente suas anotações. "Duelistas. Especializados em finalizações rápidas e limpas. Sem magia chamativa, apenas técnica mortal."

Mais adiante, Leo viu equipe que brilhava literalmente. Aurora Dourada de Costa Solar, a equipe da casa. Três jovens vestidos em armaduras leves que refletiam luz solar de forma que quase doía olhar diretamente.

Ravi Solano, filho adotivo do Mestre Caetano, era carismático de forma natural. Cabelos castanhos claros, sorriso fácil, ele estava cumprimentando outras equipes com cordialidade genuína. Ao seu lado, Yara do Farol era seu oposto, quieta e observadora, cabelos negros presos rigidamente, olhos sempre em movimento. Mateus Alvorada, ex-acólito de templo solar, tinha aquela serenidade de verdadeiro crente.

"Time da casa sempre tem pressão extra," Luna comentou. "Eles precisam performar bem ou Lorde Kaleb fica constrangido."

Um grupo que chamou atenção de Leo por razões completamente diferentes estava reunido próximo à borda da área de preparação, deliberadamente separado das outras equipes. Três figuras humanoides mas claramente não completamente humanas.

Golems. A Trinca da Fratura da guilda rebelde Quebra-Correntes.

O primeiro era masculino de constituição média, mas seu corpo tinha característica única que fazia Leo estremecer. Sua pele tinha textura de pedra rachada, fissuras profundas correndo por braços e torso de onde ocasionalmente surgiam estruturas que pareciam ossos mas brilhavam com mana arcana. Rhazek da Ossatura Viva olhava para as outras equipes com expressão difícil de ler, algo entre curiosidade e resignação.

Ao lado dele estava figura feminina com pele de tonalidade clara que tinha textura quase arenosa, e onde humanos teriam cabelo, ela tinha estruturas finas que pareciam folhas secas em movimento constante. Sahri das Dunas Presas mantinha distância das outras equipes, claramente acostumada a rejeição.

E o terceiro, Lioren da Flor Interna, tinha rachadura mais fina que os outros, mas do topo de sua cabeça crescia flor viva de pétalas azuis que brilhavam suavemente. Ele estava tentando fazer contato visual amigável com outras equipes, mas maioria desviava o olhar rapidamente.

"Golems," Bob murmurou, fascinação e desconforto misturados em sua voz. "Nunca vi um de perto."

"A Princesa Seraphina forçou sua inclusão no Reino através de decreto real," Luna explicou baixo. " Uma tentativa de integração política. Mas maioria das pessoas ainda os vê como... aberrações, rebeldes."

Leo observou a Trinca da Fratura sendo deliberadamente ignorada por quase todas as outras equipes e sentiu algo desagradável no estômago. Eles não haviam escolhido ser o que eram.

Próximo aos Golems, quase como se estivessem fazendo ponto de não evitá-los, estava trio de elfos da Floresta Eterna. Presas de Anhangá do Coração da Selva eram visualmente impressionantes.

kael Luar-Verde tinha aquela beleza élfica afiada mas havia algo selvagem nele que os outros elfos não tinham. Olhos amarelo-dourados que pareciam mais lupinos que élficos, músculos mais definidos que a graça élfica normal sugeria, e inquietação em seus movimentos. Rumores diziam que ele era lobisomem, mas Leo não sabia se acreditar.

Ishara Raiz-Dourada era mais tradicionalmente élfica, serena e maternal, cabelos longos entrelaçados com vinhas vivas. E Thalen Espírito-do-Rio parecia poder desaparecer se ficasse parado tempo suficiente, sua presença tão sutil que era fácil esquecer que estava ali.

Havia outro grupo que Leo notou por pura intensidade energética. Clamor do Uiraçu das Terras do Trovão eram trio de humanos que pareciam estar constantemente carregados de eletricidade estática.

Iramar Quebra-Nuvens era impossível de ignorar, não por tamanho mas por presença. Seus braços tinham placas metálicas implantadas sob a pele que ocasionalmente crepitavam com faíscas elétricas. Maíra Ventofenda se movia como dançarina mesmo parada, e Rauk Tormenta-Cinza tinha olhar de quem via o mundo através de lentes de pura energia.

E finalmente, quase escondidos na sombra de árvore próxima, estava trio de meio-elfos que pareciam extensões da própria floresta. Olhos da Araucária das Sentinelas do Pinheiro eram arqueiros, e Leo podia ver isso pela forma como constantemente avaliavam distâncias e ângulos mesmo em conversa casual.

Lumiel Araupin tinha arco de madeira viva que ainda tinha folhas crescendo nele. Lys Pinhalva parecia estar sentindo vibrações que ninguém mais percebia. E Torren Galho-Seco estava mentalmente já posicionando armadilhas, seus olhos mapeando terreno que ainda não haviam entrado.

"Vinte e sete equipes," Leo murmurou. "E cada uma parece que poderia nos matar."

"Podem," Luna concordou sem emoção. "Por isso não vamos lutar todas simultaneamente. Estratégia é evitar, observar, escolher batalhas cuidadosamente."

Um sino mágico reverberou pela área de preparação. Silêncio instantâneo caiu.

Lorde Kaleb Solcândido apareceu em plataforma elevada, sua voz amplificada magicamente.

"Competidores! Em cinco minutos, os portais abrirão. Vocês serão distribuídos aleatoriamente pela Dungeon-Floresta em pontos equidistantes. A partir do momento que entrarem, estão em competição ativa. Cristais de Vida os protegerão de morte permanente, mas dor é real. Lesões são reais. Derrota é real."

Ele pausou dramaticamente.

"A ultima equipe com pelo menos um membro ativo vence. Não há limite de tempo. Não há áreas proibidas. Alianças são permitidas mas temporárias. A traição é esperada. Que os melhores vençam!"

Os portais começaram a se abrir, vinte e sete círculos de energia azul pulsante organizados em semicírculo. Cada equipe foi direcionada a um portal específico por oficiais.

Master X foi designado para Portal Dezessete.

Enquanto se aproximavam, Ainar apareceu ao lado deles. Ele não devia estar ali, a área era apenas para competidores, mas ninguém ia discutir com ele.

"Lembrem-se," Ainar disse baixo, apenas para eles ouvirem. "O objetivo primário não é vencer cada luta. É sobreviver tempo suficiente para que outros se eliminem. Deixem times os fortes se destruírem mutuamente. Escolham batalhas contra os fracos e exaustos."

"Isso é covarde," Bob disse, mas sem convicção real.

"Isso é inteligente," Ainar corrigiu. "Arthur vai tentar ser herói, lutando honoravelmente contra todos. Isso vai esgotá-lo. Vocês vão ser lobos pacientes esperando o momento certo."

Leo assentiu, mas havia algo incomodando ele. Algo sobre toda a situação que sua previsão estava tentando avisar mas ele não conseguia definir exatamente o quê.

"E Leo," Ainar adicionou, olhando diretamente para ele com aquela intensidade. "Se precisar tomar decisão difícil, tome. Não hesite. Hesitação mata mais que inimigos."

Antes que Leo pudesse responder, o sino tocou novamente.

"COMPETIDORES, ENTREM NOS PORTAIS!"

Leo, Luna e Bob se entreolharam uma última vez. Não houve palavras grandiosas ou promessas dramáticas. Apenas confirmação silenciosa.

Eles entraram no portal juntos.

A transição foi instantânea e desorientadora. Um momento estavam na área de preparação iluminada pelo sol. No próximo, estavam em floresta densa onde luz solar mal penetrava através do dossel espesso.

O ar era diferente aqui. Mais pesado, carregado de umidade e algo mais, mana concentrada que fazia a pele formigar. O chão era coberto de musgo e folhas decompostas que abafavam sons. Árvores gigantescas se erguiam em todas as direções, troncos tão largos que três pessoas não conseguiriam abraçar.

E estava silencioso. Silencioso demais.

"Localização," Leo ordenou imediatamente, caindo em protocolo de missão.

Luna fechou os olhos, estendendo sua percepção de Magia das Trevas. "Sombras ao redor são naturais. Nenhuma presença mágica detectável em raio de cinquenta metros. Estamos sozinhos por enquanto."

Bob ajoelhou-se, tocando o chão, sentindo através de sua percepção elemental. "A terra está estável. Sem armadilhas óbvias. Vento vem do nordeste, carregando cheiro de... água. Deve haver rio ou lago naquela direção."

Leo ativou sua previsão brevemente, sentindo os caminhos prováveis se desdobrando. "Precisamos de um ponto elevado para orientação. E abrigo defensável antes que comecem as eliminações sérias."

Eles começaram a se mover, formação triangular com Luna na frente usando suas sombras para detectar emboscadas, Bob cobrindo retaguarda com sensores elementais, e Leo no centro coordenando.

Quinze minutos de movimento cauteloso através da floresta. Nenhum sinal de outras equipes, mas Leo podia sentir a tensão aumentando. Em algum lugar nesta floresta, oitenta e um competidores estavam se movendo, procurando, caçando.

E então, distante mas inconfundível, veio o som.

Explosão de magia. Gritos. Combate.

"Nordeste," Luna identificou. "Aproximadamente um quilômetro."

"Primeira eliminação," Bob disse sombriamente.

Leo tomou decisão. "Evitamos. Seguimos para oeste, procurando terreno elevado."

Eles mudaram direção, aumentando velocidade mas mantendo cautela. A floresta era labirinto tridimensional, galhos baixos e raízes expostas tornando movimento rápido perigoso.

Outro som de combate, desta vez mais próximo. Sudeste. Então outro, distante ao norte.

A floresta estava se transformando em uma zona de guerra.

Eles encontraram pequeno riacho e seguiram contra a corrente, usando água para mascarar sons. Bob estava constantemente checando ao redor, sua percepção elemental aprimorada detectando mudanças sutis.

"Pare," Bob sussurrou de repente. " Há eletricidade no ar. Alguém usou magia de raio há menos de cinco minutos. Próximo."

Eles congelaram, cada um procurando por ameaça. Luna enviou tentáculo de sombra condensada para explorar à frente, a forma semi-sólida deslizando silenciosamente através da vegetação.

"Encontrei," Luna sussurrou. "Trinta metros à frente. Três figuras. Não estão se movendo."

Eles se aproximaram com extrema cautela, usando árvores como cobertura. E então viram.

Três corpos inconscientes no chão da floresta, Cristais de Vida brilhando vermelho indicando eliminação. Seus uniformes identificavam como sendo da guilda Lanças do Vento. E ao redor deles, sinais de luta brutal, terra queimada, galhos partidos.

"Quem fez isso?" Bob perguntou.

"E estão ainda por perto?" Luna adicionou, sombras já se preparando para defesa.

Leo ativou previsão, procurando por ameaça iminente. Sentiu múltiplos caminhos, mas nenhum mostrava ataque imediato.

"Partiram. Mas recente. Menos de três minutos."

Eles continuaram movendo, agora ainda mais cautelosos. A primeira eliminação que viram pessoalmente tornou tudo muito mais real.

O dia passou em tensão constante. Eles encontraram ponto elevado, pequeno afloramento rochoso que oferecia visão de área ao redor, e estabeleceram posição defensiva temporária. De lá, podiam ver ocasionalmente flashes de magia na distância, ouvir sons de combate ecoando pela floresta.

Ao pôr do sol, anúncio mágico reverberou pela floresta inteira, voz de Lorde Kaleb chegando de toda direção simultaneamente.

"FIM DO PRIMEIRO DIA. ELIMINAÇÕES CONFIRMADAS: DEZ EQUIPES. DEZESSETE PERMANECEM."

Dez equipes. Trinta competidores eliminados em um único dia.

"Um ritmo alto," Luna observou. "Se continuar assim, acabará em três dias no máximo."

"As equipes fortes estão eliminando as fracas rapidamente," Bob analisou. "Logo só restarão os perigosos."

Leo assentiu, mas algo ainda o incomodava. Eles haviam passado dia inteiro evitando combate, escolhendo sobrevivência sobre glória. Era tático, era inteligente, era o que Ainar havia instruído.

Mas era também passivo. Reativo em vez de proativo.

E uma parte de Leo, a parte que havia derrotado Marcus em duelo, que havia sobrevivido a Orcs, que carregava os Arcanos, questionava se sobreviver era suficiente.

Se esconder fazia deles espertos ou apenas adiava o inevitável.

Mas por agora, enquanto escuridão caía sobre a floresta e sons distantes de combate continuavam ecoando, Leo forçou essas dúvidas para o fundo de sua mente.

Sobrevivam primeiro. Vençam depois.

Essa era a estratégia.

Ele apenas esperava que estivesse certa.

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