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Chapter 25 - CAPÍTULO 2 — O Demônio que Não Mata Criança

CAPÍTULO 2 — O Demônio que Não Mata Criança

O cheiro de sangue ainda estava no ar.

Matheus caminhava devagar entre as rochas negras, o corpo pedindo descanso, a mente se recusando a ceder. Cada passo era calculado. Cada respiração, controlada.

O Continente Demoníaco não perdoava descuido.

Foi então que a pressão mudou.

Não foi súbita.

Não foi violenta.

Foi pesada.

O ar ficou mais denso. O instinto de sobrevivência gritou antes mesmo da mente entender.

Matheus parou.

— … — engoliu em seco.

Algo estava ali.

Não uma criatura menor.

Não um predador comum.

Aquilo era… consciência.

Passos ecoaram à frente.

Pesados. Calmos. Confiantes.

Das sombras, uma figura alta surgiu.

Pele escura como obsidiana.

Chifres longos curvados para trás.

Olhos dourados, frios, atentos.

Ele não carregava armas.

Não precisava.

Matheus sentiu o corpo inteiro travar.

"Esse… se quiser… me mata agora."

O demônio parou a alguns metros dele.

Observou.

Não considerava Matheus uma ameaça.

Nem uma presa imediata.

— Hm… — a voz era grave, arrastada, carregada de tédio. — Uma criança humana.

Silêncio.

Matheus não se mexeu.

— Sobreviveu à queda. — continuou o demônio. — E matou um dos meus filhotes de caça.

Matheus apertou os punhos.

— Eu não tive escolha — disse, a voz firme apesar do medo.

O demônio o encarou por alguns segundos longos demais.

Então… riu.

Um riso curto.

— Coragem. — disse. — Ou ignorância.

Ele deu um passo à frente.

Matheus sentiu o peso esmagar o peito.

— Meu nome é Kharzak.

O nome parecia arranhar o ar.

— E eu não mato crianças.

Matheus piscou.

— …o quê?

— Crianças não escolhem cair aqui. — respondeu Kharzak. — São jogadas.

Silêncio novamente.

Foi então que Matheus ouviu outro som.

Passos leves.

Rápidos.

De trás de uma rocha, uma menina surgiu.

Cabelo escuro, curto, bagunçado.

Olhos atentos demais para alguém tão nova.

O corpo magro carregava marcas antigas.

Ela segurava uma lâmina curva pequena — mas afiada.

— Mestre. — disse ela, sem tirar os olhos de Matheus.

Mestre.

Matheus olhou para ela.

— Quem…? — murmurou.

— Lina. — respondeu Kharzak. — Onze anos.

A menina o encarou.

— Você é humano — disse, direta. — E não está chorando.

Matheus não soube o que responder.

Kharzak continuou:

— Ela foi deixada aqui. — disse, como se fosse algo comum. — Um erro. Um descarte.

— Sobreviveu.

— Eu a encontrei… e ela não morreu.

Lina levantou o queixo.

— Ele me ensinou a não morrer — disse. — E a matar quando preciso.

Matheus sentiu algo apertar no peito.

Onze anos.

"Mais nova que eu…"

Ele respirou fundo.

Então fez algo que nem ele sabia se era coragem ou loucura.

Deu um passo à frente.

— Me treine também.

Lina arregalou levemente os olhos.

Kharzak franziu a testa.

— Não. — respondeu sem hesitar.

A palavra caiu como pedra.

— Humanos crescem fracos. — continuou. — Morrem rápido.

— Crianças humanas ainda mais.

Matheus apertou os dentes.

— Eu não quero vencer — disse. — Só quero sobreviver.

Kharzak virou o rosto, entediado.

— Palavras vazias.

Matheus hesitou.

Então levou a mão ao peito.

Segurou o colar.

O metal rachado refletiu a luz vermelha do céu.

No instante em que o colar ficou visível…

O ar reagiu.

Não explodiu.

Não brilhou.

Mas algo profundo se moveu.

Kharzak congelou.

O sorriso desapareceu.

Ele se aproximou lentamente, os olhos dourados fixos no colar.

— Isso… — murmurou. — Onde você conseguiu isso?

Matheus engoliu em seco.

— Nasci com ele.

Silêncio absoluto.

Lina sentiu também.

— Mestre…? — chamou, inquieta.

Kharzak se endireitou.

O olhar agora não era de tédio.

Era de interesse.

— Hm… — soltou um meio sorriso. — Então talvez consideremos.

Matheus levantou o olhar.

— Considerar o quê?

Kharzak se virou, caminhando de volta para as sombras.

— Se você sobreviver mais alguns dias… — disse. — Eu decido.

Ele parou por um instante.

— Não porque você pediu.

— Mas porque esse colar… não deveria existir aqui.

Lina se aproximou de Matheus.

— Se você morrer — disse ela, séria — eu fico com suas coisas.

Matheus soltou um riso curto, cansado.

— Justo.

No céu vermelho, algo observava.

O demônio que não mata crianças havia feito uma exceção.

E o inferno…

acabava de aceitar

mais um aprendiz.

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