CAPÍTULO 0.1 — O CONTINENTE QUE LEMBRA
O Continente Verde — Eldenfall — não era governado.
Ele era respeitado.
Enquanto impérios humanos se erguiam e caíam, Eldenfall permanecia. Suas florestas não cresciam para cima, mas para dentro do mundo, enraizadas em eras que precediam o próprio conceito de reinos.
Ali, a mana não era hostil.
Era antiga.
E não respondia a ordens. Respondia a memórias.
No coração do continente erguia-se o Reino Élfico de Lóthirëa, um domínio sem muralhas. As árvores eram palácios. As raízes, estradas. A luz filtrada pelas copas carregava ecos de canções que nenhum humano jamais compreendeu por completo.
Os elfos não viviam sob reis absolutos.
Viviam sob Círculos.
O mais alto deles, o Círculo de Raízes Eternas, reunia-se apenas quando o próprio continente sussurrava perigo.
E naquela noite… ele sussurrou.
— O mundo foi ferido — disse Aelthirion, o mais antigo dos druidas-elfos, tocando o tronco de uma árvore viva. — Algo caiu fora do curso natural.
As folhas estremeceram.
— Não foi morte — respondeu Silmaë, Guardiã das Fontes Verdes. — Foi deslocamento.
Um espelho de água clara refletiu um céu que não pertencia a Eldenfall.
Vermelho.
— Neth'Rak… — murmurou alguém.
O nome não era pronunciado havia séculos.
— O Abismo não recebe sem motivo — disse Thalanor, lâmina viva do reino. — Se algo sobrevive lá… então não é comum.
O Círculo silenciou.
Então, as raízes da Grande Árvore reagiram.
Não com pânico.
Com reconhecimento.
Uma runa natural surgiu na casca antiga, brilhando suavemente:
☉
O Sol Partido.
Os elfos recuaram um passo.
— Um símbolo humano… — disse Silmaë. — Mas ferido.
— Não — corrigiu Aelthirion. — Exilado.
As florestas de Eldenfall se agitaram levemente, como se o continente respirasse fundo.
— O equilíbrio foi tocado — declarou o druida. — Um herdeiro sem trono caminha onde não deveria.
— E o que Eldenfall fará? — perguntou Thalanor.
Aelthirion fechou os olhos.
— Nada… ainda.
As árvores não avançariam contra o Abismo.
Mas também não se esconderiam.
— Quando o mundo esquece um nome — concluiu ele —, a floresta lembra.
E, em silêncio absoluto, o Continente Verde começou a observar.
