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Chapter 24 - CAPÍTULO 1 — A Criança que Caiu no Inferno

CAPÍTULO 1 — A Criança que Caiu no Inferno

O mundo não acabou.

Ele se rasgou.

Matheus sentiu antes mesmo de entender.

O ar sumiu dos pulmões.

O corpo foi puxado em direções erradas.

O coração falhou uma batida.

Depois outra.

Não houve tempo para gritar.

Quando caiu, não encontrou chão.

Encontrou calor.

O impacto o fez rolar por pedras negras e afiadas. A pele rasgou. Os braços pequenos não conseguiram amortecer a queda. O corpo parou apenas quando já não obedecia mais.

Respirar doía.

Não era calor comum.

O ar queimava como se estivesse vivo — hostil, agressivo, rejeitando sua presença.

Matheus abriu os olhos com esforço.

O céu era vermelho.

Não um vermelho bonito.

Era escuro, pesado, sufocante.

Sem sol. Sem nuvens. Sem esperança.

— … — tentou falar.

Nenhuma palavra saiu.

O colar em seu peito estava quente.

Não brilhava.

Não reagia.

Estava rachado.

Não quebrado.

Rachado.

Aquilo era pior.

"Então… deu errado."

A consciência começou a escapar, mas Matheus forçou os olhos a permanecerem abertos.

Ele já tinha morrido uma vez.

Não faria isso de novo tão fácil.

Foi então que sentiu.

Presenças.

Não uma.

Várias.

Não havia curiosidade.

Não havia emoção.

Apenas fome.

Sombras se moviam entre as rochas distantes. Criaturas baixas, tortas, com olhos brilhando em tons carmesim e violeta.

Demônios menores.

Não inteligentes.

Não estratégicos.

Mas rápidos.

Matheus engoliu em seco.

Seu corpo era pequeno demais.

Leve demais.

Frágil demais.

Doze anos.

Ele apertou os dentes.

"Não entra em pânico."

A mente ainda funcionava.

Ele avaliou o próprio estado, como fazia na vida passada — mas agora sem arrogância.

Mana: instável

QI: apenas percepção

Reforço corporal: impossível

Se lutasse de frente… morreria.

Uma das criaturas avançou.

Rápida demais para um humano comum.

Matheus não recuou.

Ele se moveu para o lado no último instante. A garra passou a centímetros do rosto. O corpo doeu, mas respondeu.

Ele caiu, rolou, sentiu a pele rasgar no cotovelo.

A mão tocou algo no chão.

Uma pedra.

Pequena.

Afiada em uma ponta.

Servia.

Quando a criatura atacou de novo, Matheus não foi mais rápido.

Ele foi paciente.

Esperou.

O erro veio na pressa.

No salto, o pescoço ficou exposto.

Matheus cravou a pedra com toda a força que um corpo infantil podia produzir.

O golpe foi feio.

Imperfeito.

Mas suficiente.

A criatura caiu, se contorcendo, e logo se desfez em fumaça negra.

Silêncio.

As outras sombras pararam.

Não por medo.

Por confusão.

Algo tão pequeno…

não deveria estar vivo ali.

Matheus caiu de joelhos.

Respirar doía.

O peito queimava.

A visão escurecia nas bordas.

— Entendi… — murmurou, a voz fraca. — Aqui…

Ele levantou os olhos para o horizonte vermelho.

— …sobreviver é mais importante do que vencer.

Não havia cidades.

Não havia ajuda.

Não havia caminho de volta.

Apenas um mundo que queria vê-lo morto.

Matheus fechou os dedos em torno do colar rachado.

— Tudo bem… — sussurrou. — Eu já sobrevivi ao topo uma vez.

Com esforço, se levantou.

As pernas tremiam.

Mas ele deu um passo.

Depois outro.

— Se este mundo me rejeita… — disse em voz baixa, como uma promessa. — Então eu vou aprender a viver sem depender dele.

No céu vermelho, algo se moveu lentamente.

Como se o próprio continente tivesse tomado nota de sua existência.

O Continente Demoníaco não sabia ainda.

Mas acabara de receber

uma criança que não pretendia morrer.

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