CAPÍTULO 1.1 — RAINA, A QUE OUVE AS RAÍZES
(Prólogo — antes do encontro)
Raina nasceu sob folhas em movimento.
Não houve coroas.
Não houve profecias declaradas.
Apenas o sussurro das árvores mudando de direção no instante em que ela respirou pela primeira vez.
No Reino Élfico de Lóthirëa, isso era suficiente.
Desde pequena, Raina ouvia coisas que outros elfos ignoravam.
Não vozes.
Ritmos.
O pulsar da mana antiga. O fluxo lento da seiva do mundo. As pausas entre um batimento e outro da floresta.
Enquanto outras crianças aprendiam arco e canto, Raina aprendia a escutar o que não pedia atenção.
— Você se afasta demais — dizia sua mãe, a Rainha Aelwyn.
— A floresta fala baixo — Raina respondia. — Gritar atrapalha.
Ela cresceu entre raízes gigantes e lagos de vidro natural. Sua mana não era abundante, mas era precisa. Onde outros forçavam, ela ajustava.
Era por isso que o Círculo a observava.
Aos quarenta ciclos — ainda jovem para um elfo — Raina foi aceita como Guardião do Limite Verde, posição rara, reservada àqueles que caminhavam nas bordas do continente.
— Eldenfall está inquieto — disse Aelthirion no dia de sua nomeação. — E você… não tem medo disso.
Raina não respondeu.
Ela sentia.
Naquela mesma noite, sozinha em uma clareira antiga, Raina percebeu algo errado.
A floresta hesitou.
Não como diante de fogo ou lâmina.
Mas como diante de uma memória que não pertencia àquele lugar.
O lago à sua frente refletiu um céu que não existia.
Vermelho escuro.
Calor distante.
Dor.
Raina caiu de joelhos.
— Isso não é um espírito… — murmurou. — É alguém.
O colar élfico em seu pescoço vibrou levemente, ecoando uma sensação estranha:
queda.
Ela respirou fundo, estabilizando-se.
— Alguém foi lançado para fora do mundo — concluiu.
Nos dias seguintes, os presságios se acumularam.
Animais mudavam de rota.
Raízes se entrelaçavam onde não deveriam.
Fontes antigas turvavam sem motivo.
E sempre… o mesmo eco distante.
Uma presença jovem demais para carregar tanto peso.
Numa madrugada silenciosa, Raina fez algo proibido.
Ela abriu um Caminho Verde.
Não para viajar.
Para ver.
O ritual mostrou apenas um instante:
Pedras negras.
Mana hostil.
Um corpo pequeno, imóvel, respirando por insistência.
E um colar rachado com um símbolo que ela reconheceu dos registros antigos:
☉
O Sol Partido.
Raina cortou o ritual imediatamente.
Suas mãos tremiam.
— Um herdeiro humano… — sussurrou. — No Abismo.
A floresta reagiu.
Não com rejeição.
Com luto contido.
Raina levantou-se.
Pela primeira vez, ela escolheu um futuro que não era élfico.
— Espere — disse ao vento, sem saber se ele ouviria. — Não porque você seja importante…
Ela fechou os olhos.
— …mas porque ninguém deveria cair sozinho.
Muito longe dali, em Neth'Rak, algo respirou com dificuldade.
E a princesa dos elfos começou a caminhar para fora da floresta.
Sem saber que, quando finalmente o encontrasse…
Seria ela quem precisaria ser salva.
