CAPÍTULO3 — A Primeira Noite de Treino
A noite no Continente Demoníaco não era escura.
Ela era vermelha mais profunda.
O céu parecia afundar, como se estivesse mais baixo, pressionando tudo que vivia sob ele. As sombras ficavam mais longas. Os sons, mais nítidos.
Matheus sentia isso na pele.
— Fique em pé direito.
A voz de Kharzak era fria.
Matheus tentou ajustar a postura, mas o corpo tremia. O cansaço do dia inteiro ainda pesava nos músculos pequenos.
— Assim você morre rápido. — Kharzak chutou o chão à frente dele. — De novo.
Matheus respirou fundo.
Endireitou as costas. Flexionou os joelhos. Baixou o centro de gravidade.
— Melhor. — disse o demônio. — Mas ainda pensa como humano.
Lina observava de perto.
Ela se movia com naturalidade demais para alguém de onze anos. Os pés quase não faziam barulho sobre as pedras. Os olhos nunca paravam.
— Ataca. — disse Kharzak, apontando para Lina.
Matheus arregalou os olhos.
— Agora?!
— Se hesitar, morreu. — respondeu ele.
Lina não esperou.
Ela avançou.
Rápida. Baixa. Direta.
Matheus sentiu o instinto gritar. Moveu-se por reflexo, desviando por pouco. Sentiu o vento da lâmina passar perto do abdômen.
— Muito lento. — Lina comentou, girando o corpo.
Ela golpeou de novo.
Matheus caiu para trás, rolando. Sentiu a pedra raspar nas costas. Levantou-se com dificuldade.
— Você pensa demais — ela disse. — Aqui isso mata.
Ele respirava pesado.
— Então… como você sobreviveu?
Lina hesitou por meio segundo.
— Aprendendo a cair sem morrer.
Ela atacou novamente.
Dessa vez, Matheus não recuou.
Avançou.
O choque foi desajeitado. O golpe não foi limpo. Mas ele conseguiu segurar o braço dela por um instante antes de ser jogado no chão.
Kharzak observava em silêncio.
— Chega. — disse por fim.
Lina parou imediatamente.
Matheus ficou deitado, o peito subindo e descendo rápido demais.
— Você não é forte — disse Kharzak. — Nem rápido. Nem resistente.
Matheus fechou os olhos.
— Mas aprende quando apanha. — completou o demônio.
Ele se aproximou.
— Isso é raro.
Silêncio.
Eles se sentaram próximos a uma formação rochosa. Lina ofereceu um pedaço de carne seca escura. Matheus hesitou… e aceitou.
O gosto era horrível.
Mas alimentava.
— Mestre… — Lina falou em voz baixa. — Por que você treina humanos?
Kharzak ficou quieto por alguns segundos.
Depois soltou um riso curto.
— Eu não treino humanos. — disse. — Eu treino descartes.
Matheus olhou para ele.
— Você disse que não mata crianças.
— Não. — Kharzak confirmou. — Mas isso não me torna bom.
O olhar dourado ficou distante.
— Eu já fui da Corte Demoníaca. — disse. — General de uma legião.
Lina parou de mastigar.
— Mestre…
— Eu ajudei a queimar cidades humanas. — continuou, sem emoção. — Matei adultos. Velhos. Crianças.
O silêncio ficou pesado.
— Até que um dia… — ele olhou para Lina. — Jogaram uma criança aqui.
Lina abaixou a cabeça.
— Uma oferta. — Kharzak continuou. — Um "teste".
— Eles queriam ver se ela sobreviveria.
— Eu a encontrei primeiro.
Matheus sentiu o estômago revirar.
— E eu traí minha raça. — disse Kharzak. — Ao não matá-la.
— Ao criá-la.
Ele fechou os punhos.
— Desde então, sou um traidor.
O vento vermelho soprou entre as pedras.
Matheus olhou para Lina.
Ela estava tremendo levemente.
Sem pensar, ele falou:
— Eu vou te tirar daqui.
Lina levantou a cabeça de repente.
— O quê?
— Um dia. — Matheus disse, sério. — Eu vou voltar para o mundo humano.
Ela riu.
— Humanos não sobrevivem aqui.
— Eu sobrevivo. — respondeu. — E quando eu puder… eu levo você comigo.
Lina ficou em silêncio.
Depois desviou o olhar.
— Você é estranho. — murmurou. — Mas… obrigado.
Kharzak observava os dois.
— Não façam promessas fáceis. — disse. — O inferno cobra todas.
Matheus apertou os punhos.
— Então eu pago.
O céu vermelho pulsou lentamente.
Naquela primeira noite de treino, três coisas ficaram claras:
Matheus não desistiria.
Lina não estava mais sozinha.
E Kharzak…
já não caminhava mais ao lado do inferno.
