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Chapter 31 - CAPÍTULO 1.2 — O LIMIAR QUE NÃO DEVERIA SER CRUZADO

CAPÍTULO 1.2 — O LIMIAR QUE NÃO DEVERIA SER CRUZADO

O Limite Verde não era uma fronteira comum.

Não havia muralhas.

Não havia guardas.

Havia apenas uma mudança no peso do mundo.

Raina sentiu isso no instante em que deu o primeiro passo além das raízes antigas de Eldenfall. O ar tornou-se menos gentil. A mana, antes fluida e acolhedora, passou a exigir intenção.

Ela não parou.

O Círculo não havia autorizado aquela jornada. Oficialmente, a princesa dos elfos permanecia no coração do reino.

Mas a floresta sabia.

E, em silêncio, permitiu.

— Estou atravessando — murmurou Raina, tocando o pingente élfico em seu peito. — Não por curiosidade… mas por equilíbrio.

O Caminho Verde se abriu apenas o suficiente para não rasgar o mundo. Um erro mínimo ali poderia atrair coisas que não deveriam perceber Eldenfall.

Mesmo assim, algo percebeu.

Do outro lado do véu, Neth'Rak respondeu.

Não com violência.

Com atenção.

Raina sentiu um arrepio percorrer sua espinha quando a visão se sobrepôs à realidade.

Pedras negras novamente.

Fendas incandescentes.

E o garoto.

Ele estava vivo.

Mais do que isso… estava mudando.

A mana demoníaca não o corroía como deveria. Ela circulava ao redor de seu corpo como um rio testando novas margens. Cada respiração dele deixava o ambiente levemente instável.

— Isso é impossível… — sussurrou Raina.

Então, algo se moveu.

Não perto dele.

Abaixo.

Uma presença vasta demais para ser vista por completo. Antiga demais para ser chamada de criatura.

Raina sentiu o peso de um olhar indireto.

— Não… — sua voz falhou. — Alguém já o viu.

O Caminho Verde tremeu.

Runas naturais começaram a se apagar uma a uma. Não por falha… mas por interferência externa.

Raina recuou um passo.

Tarde demais.

Por um único instante, algo do Abismo tocou o limite do ritual.

Não atravessou.

Mas deixou uma marca.

O símbolo do Sol Partido distorceu-se na visão, como se estivesse sendo registrado por algo que não esquecia.

O Caminho se fechou abruptamente.

Raina caiu de joelhos na relva de Eldenfall, ofegante.

As árvores ao redor estavam silenciosas demais.

— Ele não está sozinho… — murmurou.

E então compreendeu.

Não era apenas uma missão de observação.

Não era apenas compaixão.

Se aquele garoto sobrevivesse…

O mundo teria que se reposicionar.

Raina levantou-se lentamente.

Seus olhos, antes serenos, agora carregavam decisão.

— Se o Abismo o reconheceu… — disse ao vento — então alguém precisa chegar até ele antes que seja tarde.

No fundo de Neth'Rak, uma consciência antiga arquivou uma nova informação:

Uma testemunha verde.

Não hostil.

Ainda.

E, pela primeira vez desde a queda, o destino de Matheus deixou de ser uma linha solitária.

Dois caminhos agora avançavam.

E ambos levavam ao mesmo ponto.

O encontro que nenhum continente poderia impedir.

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