CAPÍTULO EXTRA II — AQUELE QUE OUVE NOMES
Neth'Rak não tinha reis.
Tinha predadores antigos.
Muito abaixo da superfície ardente, além das cidades demoníacas e dos campos de batalha esquecidos, existia uma região onde até os demônios evitavam caminhar.
Ali, a mana não fluía.
Ela se ajoelhava.
No centro daquele abismo sem forma, algo despertou.
Não abriu os olhos.
Não respirou.
Apenas reconheceu.
Um pulso atravessou o continente demoníaco.
Não como energia.
Como significado.
As entidades sensíveis ao conceito de identidade estremeceram. Pactos antigos vibraram. Contratos demoníacos perderam uma linha inteira de texto.
— …um nome…? — murmurou a criatura.
Ela não tinha corpo fixo. Apenas uma silhueta sugerida por ausência de luz.
Era conhecida entre os mais antigos como:
O Archivista do Abismo.
Ele não caçava carne.
Não disputava territórios.
Ele colecionava nomes verdadeiros.
E havia sentido um… incompleto.
— Selado… — disse a criatura. — Rachado… mas não apagado.
O Abismo respondeu com ecos distantes.
— Um nome imperial… — continuou o Archivista. — Mas fora da autoridade que o criou.
Silêncio.
Então, interesse.
— Isto não é uma alma comum — concluiu. — É uma linha de sucessão quebrada.
Ele estendeu algo que não era uma mão.
Símbolos antigos flutuaram no vazio, girando em torno de um único conceito:
☉
O Sol Partido.
— Aurelion… — murmurou.
Mas o nome verdadeiro não veio.
Algo bloqueava.
Algo aprendendo.
A criatura inclinou-se.
— Inteligente — disse, com algo próximo de aprovação. — Mesmo inconsciente, você se protege.
O Archivista recuou para a escuridão.
— Não vou tomar seu nome — declarou. — Ainda.
— Um nome que resiste a um continente inteiro… — a voz ecoou — merece crescer.
O Abismo se fechou.
Mas não esqueceu.
E em algum lugar da superfície de Neth'Rak, um garoto inconsciente respirou fundo pela primeira vez desde a queda.
O colar rachado pulsou.
Não como alerta.
Mas como resposta.
