O silêncio do quarto de hotel em Burbank era quebrado apenas pelo som rítmico do papel sendo dobrado. Leo estava diante de sua obra-prima, Jaws, mas ela não era um arquivo digital protegido por criptografia; eram trezentas páginas de papel sulfite pesado, manchadas de fuligem de carbono e suor. No mundo de 1965, a propriedade intelectual era uma fera física que precisava ser alimentada com selos, registros e coragem.
Leo contou o dinheiro sobre a mesa bamba. Ele tinha trinta e dois dólares. Era o que sobrava após o aluguel do hotel e as refeições básicas de bife com molho Thousand Island no refeitório da Universal.
— Dez dólares para o registro no Escritório de Direitos Autorais em Washington D.C. — murmurou ele, separando duas notas de cinco. — Mais o custo do envio por Media Mail. Isso vai me deixar com menos de quinze dólares para passar a quinzena.
Em 1965, dez dólares era uma quantia considerável para um assistente de produção ("gofer"), o equivalente a sacrificar uma semana de jantares decentes e vários maços de Lucky Strike. Mas Leo não tinha escolha. Ele sabia que, sem o registro oficial do U.S. Copyright Office, qualquer produtor tubarão poderia devorar sua ideia e deixá-lo com nada além de um agradecimento nos créditos secundários.
Ele pegou um envelope pardo grande, reforçado com fita gomada. Escreveu o endereço com uma caneta Parker de ponta fina: Register of Copyrights, Library of Congress, Washington, D.C. Dentro, ele colocou o formulário datilografado e uma das três cópias completas do manuscrito. De acordo com a lei da época, ele precisava depositar cópias para garantir a proteção total.
...
Às 6:30 da manhã, o sol de Los Angeles começava a lamber as fachadas da Universal Pictures, mas Leo já estava no Set 12, carregando uma escada de madeira maciça. O calor da película Technicolor exigia uma iluminação tão intensa que o set parecia um forno industrial mesmo antes do meio-dia.
— Leo! Pegue o caminhão de transporte e vá buscar as latas de película de 35mm no laboratório de revelação! — gritou o AD Miller. — E não ouse parar para tomar café no caminho. Se essas latas esquentarem no sol, eu te revelo vivo!
— Sim, senhor — Leo respondeu, limpando a graxa das mãos na calça de sarja.
Ele usou o trajeto para o laboratório como um desvio estratégico. Em vez de seguir direto, ele manobrou o caminhão pesado da Universal em direção ao centro de Los Angeles, estacionando precariamente em frente ao Terminal Annex, o imponente correio central na 900 North Alameda Street.
Ao entrar no lobby, Leo parou por um segundo, mesmo com o cronômetro do set correndo em sua mente. O teto era cavernoso, sustentado por vigas que ecoavam o som de centenas de passos. As paredes eram adornadas com os famosos murais de Boris Deutsch, retratando as contribuições culturais das Américas. O cheiro ali era uma mistura nostálgica de papel velho, cola de selo e poeira acumulada. Era o centro nervoso da comunicação americana antes da era digital — um lugar onde quatro milhões de peças de correio passavam diariamente.
Leo entrou na fila. Diante dele, um homem de terno cinza enviava amostras de tecidos; atrás, uma mulher despachava cartas para o front no Vietnã. A tensão era palpável. Se ele perdesse muito tempo, o AD Miller notaria o atraso no odômetro do caminhão.
— Próximo! — gritou o funcionário atrás do guichê de carvalho.
Leo deslizou o envelope de direitos autorais e o segundo pacote: o manuscrito que ele enviaria para um editor. Mas para quem?
Ele sabia que, em 1974, Peter Benchley publicaria Jaws pela Doubleday sob a edição de Thomas Congdon. Mas em 1965, Congdon ainda era um jovem editor promissor no Saturday Evening Post. Leo sabia que enviar para uma editora gigante como a Doubleday agora seria suicídio literário; o livro cairia no "slush pile", a montanha de manuscritos não solicitados lidos por estagiários entediados que rejeitavam 99% do que recebiam.
Ele precisava de um "furo". Ele enviou uma carta de consulta, breve e afiada como o dente de um tubarão, para um agente literário que ele sabia ser ambicioso: Norman Brokaw, da William Morris Agency.
— Media Mail para Washington e correio prioritário para Nova York — Leo disse ao funcionário.
O homem pesou os envelopes.
— São cinco centavos pela primeira onça, mais três por cada adicional... — o funcionário fez os cálculos rapidamente em um papel. — No total, com as taxas de registro e o selo, são doze dólares e sessenta centavos.
Leo entregou as notas, sentindo o peso da fome futura em seu estômago. O funcionário carimbou os envelopes com um som seco de autoridade. PUM. PUM.
Estava feito. O futuro estava no correio.
...
O restante do dia na Universal foi um exercício de tortura física. Leo passou a tarde carregando cabos de alimentação de 220 volts para o Set 14, onde filmavam cenas de interiores de um drama de espionagem. Seus ombros latejavam, e a umidade sob a camiseta branca era sufocante.
Durante o intervalo das luzes ("relighting"), ele sentou-se em um caixote de maçãs ("apple box") nas sombras, longe dos olhos dos supervisores. Ele observava o diretor Andrew McLaglen discutindo com o cinegrafista sobre a saturação das cores. Eles estavam preocupados com a transição do Technicolor para o Eastmancolor, um processo mais barato que estava começando a dominar a indústria, mas que muitos puristas odiavam.
Leo sorriu ironicamente. Eles estavam brigando por tons de emulsão enquanto ele acabara de lançar uma bomba que mudaria a definição de "sucesso comercial".
— Ei, gopher! — Alguém o chamou.
Era o mestre eletricista ("gaffer"), um homem durão que estava na indústria desde a era do cinema mudo.
— O Sr. McLaglen quer um Maxwell House agora. E garanta que não tenha gosto de água de batata desta vez.
Leo se levantou, a dor nas costas o lembrando de seu ataque cardíaco em 2026. Ele caminhou até a estação de café, mas seus olhos foram atraídos para um grupo de homens de terno escuro que atravessava o pátio. No centro deles, com seus óculos de aro preto e postura de monarca, estava Lew Wasserman, o "Zeus" da MCA-Universal.
Wasserman era o homem que introduziu a participação nos lucros e os "pacotes" de talentos. Ele era o futuro, mas ainda não sabia que um assistente de produção sujo de graxa acabara de registrar a propriedade intelectual que daria à Universal seu primeiro bilhão de dólares dez anos antes do previsto.
Leo serviu o café, sentindo uma calma glacial. Ele não se importava mais com as humilhações de Miller ou com o peso das escadas. Ele estava jogando um jogo de xadrez onde suas peças já estavam no tabuleiro, protegidas por carimbos postais e leis federais.
Naquela noite, de volta ao hotel, Leo não jantou. Bebeu apenas água da torneira e fumou um último Lucky Strike que guardara como prêmio. Ele se sentou diante da Smith Corona. O papel carbono estava quase gasto, mas ele ainda tinha uma história para contar.
"Oliver Barrett IV e Jenny Cavilleri..." ele começou a datilografar as primeiras linhas de Love Story.
Se Jaws era a força bruta para abrir a porta, Love Story seria a canção que faria Hollywood se ajoelhar. Ele sabia que Erich Segal só escreveria aquilo em 1969 a pedido da Paramount para promover o filme. Leo ia inverter a ordem. Ele ia criar o hype literário primeiro, forçando os estúdios a uma guerra de lances que faria a compra dos direitos de O Padrinho por Robert Evans parecer um negócio de moedas.
