Cherreads

Chapter 8 - A Tinta do Destino e a Torre Negra 

 O som das teclas da Smith Corona Classic havia mudado. Não era mais o ritmo frenético de uma fuga desesperada, mas a cadência pesada e triunfante de um martelo moldando o aço. Leo estava curvado sobre a máquina em seu quarto em Burbank, o suor escorrendo pelas têmporas enquanto ele datilografava as últimas três páginas de Love Story.

Boston estava coberta de neve em sua mente, enquanto o calor seco da Califórnia entrava pela fresta da janela. Ele escreveu o diálogo final no hospital, onde Oliver Barrett IV enfrenta o pai após a morte de Jenny.

"O amor significa nunca ter que pedir perdão."

Leo parou. Ele sabia que aquela frase, simples e quase banal para os críticos literários de 1965, se tornaria o epitáfio de uma geração. Ele puxou o papel do rolo da máquina com um som seco. Estava feito. Dois manuscritos completos. Duas bombas-relógio prontas para explodir o status quo de Hollywood.

Ele não se deu ao luxo de descansar. Em quatro horas, ele precisaria estar no Set 12 da Universal, limpando as marcas de giz do chão para o próximo plano de Shenandoah. Mas naquela manhã, a pedra de Sísifo parecia feita de papel sulfite pesado.

...

Às 11:00 da manhã, o ambiente mudou drasticamente. Leo não estava usando seu cinto de ferramentas ou carregando sacos de lixo. Norman Brokaw havia sido claro: "Venha como um autor, não como um operário".

Leo subiu pelo elevador da Torre Negra da MCA, o monólito de granito e vidro onde Lew Wasserman governava a Universal City. O ar-condicionado era tão frio que parecia vir de outra dimensão, um contraste violento com o mormaço do pátio lá embaixo.

Quando as portas se abriram no décimo quinto andar, Leo foi recebido pelo silêncio espesso de tapetes persas e secretárias que falavam em sussurros. Norman Brokaw já o esperava, impecável em um terno escuro, examinando a vista das colinas de Hollywood. Ele não disse uma palavra quando Leo se aproximou, mas seus olhos fizeram um rápido inventário: o jovem assistente de produção parecia ter envelhecido dez anos em uma semana. Não fisicamente, mas na maneira como ele ocupava o espaço.

— Ele está pronto — disse Norman, com uma neutralidade que escondia sua profunda inquietação.

Eles entraram no escritório de Lew Wasserman. O "Zeus" de Hollywood estava sentado atrás de uma mesa de carvalho perfeitamente limpa. Ele usava seus famosos óculos de aro preto e uma camisa branca tão engomada que parecia feita de porcelana. Wasserman não acreditava em desperdício — de dinheiro, de tempo ou de palavras.

Sobre a mesa, os dois manuscritos de Leo estavam abertos.

— Sr. Leo — disse Wasserman, sua voz sendo um sussurro autoritário que exigia atenção absoluta. — O Sr. Brokaw me disse que você limpa o meu estúdio durante o dia e escreve obras-primas à noite. Devo admitir que a primeira parte é mais fácil de acreditar do que a segunda.

Leo sentou-se, cruzando as pernas com uma calma que fez Norman Brokaw arquear uma sobrancelha. Norman continuava apenas observando Leo, em silêncio. Ele sentia que havia uma "estranheza" na postura do garoto, um desprendimento emocional que não pertencia a um jovem de 22 anos diante do homem mais poderoso da cidade.

— Eu não escrevo obras-primas, Sr. Wasserman — Leo respondeu, sua voz firme e sem o tremor da subserviência. — Eu escrevo o que o público vai pagar para ver.

Wasserman tocou no manuscrito de Jaws.

— Este aqui... é selvagem. É um suspense de uma eficiência técnica que eu raramente vi. E este outro, Love Story... — Wasserman fez uma pausa, olhando para as páginas. — É sentimental de uma forma que eu detesto, mas que minhas filhas adorariam. Norman me diz que você recusou a oferta da Doubleday.

— Mil dólares é o preço de um segredo, não de um império — Leo disse. — Eu quero um contrato de publicação com a Harper & Row, com lançamento coordenado para o Dia dos Namorados. E quero que a Universal Pictures compre a opção cinematográfica de ambos agora mesmo.

Wasserman deu um meio sorriso glacial.

— Você está pedindo muito para alguém que ainda tem o cheiro de óleo de máquina na pele.

— Eu estou oferecendo o que ninguém mais nesta cidade tem: visão — Leo inclinou-se para a frente. — O senhor está preocupado com a televisão matando o cinema. Eu estou lhe dando o motivo para as pessoas voltarem às salas. Eu não quero apenas um adiantamento. Eu quero pontos na bilheteria.

Norman Brokaw quase se engasgou. Pedir participação nos lucros era uma inovação que o próprio Wasserman havia introduzido para James Stewart, mas para um autor desconhecido? Era suicídio contratual.

Wasserman, porém, não pareceu ofendido. Ele estava estudando Leo. Havia algo naqueles olhos... uma clareza que o incomodava. Leo não falava como um sonhador; ele falava como um historiador descrevendo o passado.

— Norman — disse Wasserman, sem desviar o olhar de Leo. — O que você acha?

Norman Brokaw limpou a garganta.

— Há algo neste material, Lew. Eu não consigo explicar, mas ele parece... testado. Como se já tivesse passado por mil revisões antes de chegar à primeira versão. Eu sinto que, se não assinarmos hoje, a Paramount fará isso amanhã.

Wasserman ficou em silêncio por um minuto eterno. O único som era o tique-taque de um relógio de mesa caro.

— Dez mil dólares de adiantamento pela opção cinematográfica de cada livro — declarou Wasserman. — Mais um contrato de publicação através da nossa rede com royalties de 12.5%. Mas sem pontos na bilheteria por enquanto. Você tem que provar que o tubarão morde primeiro.

Leo sabia que, vinte mil dólares era uma fortuna. Daria para comprar cinco casas em Burbank. Mas ele não cedeu.

— Aceito os dez mil por livro. Mas quero a cláusula de "Talent Packaging". Eu quero ter voz na escolha do diretor e dos protagonistas. — Leo fez uma pausa estratégica. — E quero os pontos. 2% da bilheteria líquida. Ou eu levo o tubarão para o Robert Evans na Paramount.

A menção a Evans foi o golpe final. Wasserman odiava perder, especialmente para os "novatos" de bronzeado artificial. Ele puxou uma caneta de ouro do suporte.

— Você é um garoto estranho, Leo. Fala como se soubesse exatamente onde o raio vai cair. — Wasserman assinou os documentos de intenção e os deslizou para Leo. — Assine. Mas saiba de uma coisa: se esses livros não forem o que você prometeu, eu vou garantir que você nunca mais limpe um set nesta cidade. Você vai estar fora, permanentemente.

Leo pegou a caneta. O metal estava quente. Ele assinou seu nome com uma caligrafia decidida. O papel carbono transferiu sua assinatura para as cópias, selando o futuro nas linhas do passado.

Norman Brokaw observou a cena, mantendo-se em seu papel de observador silencioso. Ele notou que a mão de Leo não tremeu. Nem por um milímetro. O garoto não parecia aliviado; ele parecia apenas satisfeito, como alguém que acaba de completar uma tarefa rotineira.

...

Leo saiu da Torre Negra com um cheque de cinco mil dólares no bolso — a primeira parcela do adiantamento — e uma pasta cheia de contratos assinados. Ele caminhou pelo pátio da Universal e viu o AD Miller gritando com um novo assistente perto dos trailers.

— Ei, Leo! — Miller gritou, ao vê-lo. — Onde você estava? Vá buscar o café do Sr. McLaglen! Ele quer agora!

Leo parou. Ele olhou para o cheque, depois para o sol saturado em Technicolor que banhava o estúdio. Ele sentiu o peso da pedra de Sísifo se dissipar no ar refrigerado que ainda carregava na pele.

— Miller — disse Leo, com um sorriso leve e perigoso. — Peça o café você mesmo. Eu acabo de me aposentar da limpeza.

Leo continuou caminhando em direção ao portão principal, ignorando os gritos confusos de Miller. Ele viu o jovem Steven Spielberg sentado em um caixote ao longe, ainda segurando sua câmera de 16mm. Leo acenou para ele.

O Ciclo de Sísifo havia sido quebrado. A pedra não estava mais sendo empurrada para cima; ela havia começado a rolar ladeira abaixo, e nada seria capaz de pará-la.

Naquela noite, Leo não foi para o hotel barato. Ele jantou no Chasen's, pediu o bife mais caro do cardápio e, pela primeira vez em duas vidas, dormiu sem o som de uma máquina de escrever ecoando em sua mente. Ele havia conquistado a praia. Agora, era hora de chamar o tubarão para a água.

More Chapters