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Chapter 7 - A Dança dos Tubarões no Polo Lounge 

O Polo Lounge, no Beverly Hills Hotel, era um santuário de luz difusa e carpetes tão espessos que abafavam o som da ambição. aquele era o lugar onde os deuses de terno e óculos de aro de tartaruga decidiam quem o mundo amaria na próxima temporada. Leo entrou carregando o peso de duas vidas, mas com a postura de quem não tinha nada a perder. Seu terno cinza era barato, mas seus olhos possuíam uma autoridade que o Polo Lounge não costumava ver em jovens de vinte e poucos anos.

Sentado em uma cabine de couro verde-escuro, Norman Brokaw parecia parte da arquitetura. O homem que gerenciava as carreiras de Marilyn Monroe e Elvis Presley não precisava de introduções; sua simples presença exalava o tipo de calma que só vem com o poder absoluto. Diante dele, sobre a mesa de linho branco, estavam as páginas datilografadas de Jaws.

— Sente-se, Leo — disse Brokaw. Sua voz era um barítono suave, treinado para acalmar egos e dobrar vontades. Ele não estendeu a mão. Em vez disso, seus olhos estudavam o rosto de Leo com uma curiosidade quase clínica.

Leo sentou-se, recusando o cardápio que o garçom lhe ofereceu com um gesto curto.

— Norman.

O agente tamborilou os dedos no manuscrito. O som do papel sulfite batendo na mesa era o único ruído entre eles por longos dez segundos. Norman Brokaw estava acostumado a ver o medo nos olhos dos novatos. Ele esperava que Leo estivesse suando, que estivesse ansioso para agradar, que perguntasse se ele havia gostado da história. Mas Leo apenas o olhava de volta, com uma paciência glacial que beirava o desrespeito.

— Eu li suas páginas — Norman finalmente quebrou o silêncio. — Li três vezes. E vou lhe dizer uma coisa que não digo a um autor há dez anos: eu não sei o que estou olhando.

Ele inclinou-se para a frente, a luz do jardim refletindo em seus óculos.

— Este livro... ele é estranho. A estrutura é curta demais. O ritmo é... violento. Não há as descrições floridas que a Doubleday ou a Viking esperam de um romance sério. Você escreve como se estivesse com pressa de chegar ao próximo susto. É quase como se você não estivesse escrevendo um livro, mas transcrevendo algo que já viu acontecer em uma tela.

Leo manteve a expressão impassível. Por dentro, ele sabia que Norman estava sentindo a "gramática do futuro" — o ritmo acelerado que o público de décadas à frente exigiria.

— O público está cansado de esperar, Norman — Leo disse com simplicidade. — Eles não querem saber a cor das cortinas da casa do xerife Brody. Eles querem sentir o tremor na superfície da água. Eles querem o medo puro.

Norman ficou em silêncio novamente. Ele sentia algo naquele garoto que não conseguia rotular. Havia uma "densidade" em Leo. A maioria dos assistentes de produção da Universal — os "gophers" que Norman via correndo pelo pátio — eram como rascunhos de pessoas. Leo, porém, parecia uma obra finalizada. Havia um distanciamento em seu olhar, como se ele estivesse olhando para Norman através de uma lente histórica, e não como um subordinado diante de um gigante da indústria.

— Você fala como se já tivesse assistido ao fim desta década, Leo. — Norman não era um homem de misticismos, mas a intuição que o tornara rico estava gritando. — De onde veio essa ideia? Frank Mundus capturou um tubarão em Montauk no ano passado, sim, mas ninguém pensou em transformar isso em um pesadelo metafísico sobre a burocracia de uma cidade pequena.

— As melhores histórias estão sempre debaixo do nosso nariz, Norman. Só é preciso saber onde a luz está falhando no set para ver o que está na sombra — Leo respondeu, usando o jargão da produção para desviar o foco de si mesmo.

Norman Brokaw não se deixou convencer, mas decidiu não pressionar. Ele viu o manuscrito de Love Story que Leo ainda mantinha dentro da pasta.

— Mostre-me o outro — ordenou o agente.

Leo deslizou as primeiras vinte páginas de Love Story sobre a mesa. Norman as pegou com um ceticismo visível. Ele acabara de ler sobre um monstro devorador de homens; o que aquele jovem assistente sujo de graxa poderia saber sobre o amor?

Ele leu a primeira frase: "O que se pode dizer de uma moça de vinte e cinco anos que morreu?"

Leo observou a mandíbula de Norman travar. O agente continuou lendo, virando as páginas com uma velocidade que ele raramente demonstrava. O barulho do Polo Lounge — o tilintar dos talheres, as risadas de agentes da William Morris e executivos da Fox — pareceu desaparecer. Norman estava imerso.

Cinco minutos depois, Norman largou os papéis. Ele parecia... perturbado.

— Isso é um roteiro disfarçado de prosa — sussurrou Norman, limpando a garganta. — É simples. É sentimental. E vai destruir o coração de cada mulher na América. — Ele olhou para Leo, e desta vez, havia um brilho de cautela em seus olhos. — Você escreveu isso? As duas coisas?

— Sim.

— São opostos absolutos. O tubarão é a força bruta, o horror da natureza. Isso aqui é o melodrama mais puro que eu já li. Como a mesma mente produz essas duas coisas simultaneamente?

— Porque eu sei o que o público vai querer amanhã, Norman. E amanhã eles vão querer os dois. O susto e a lágrima.

Norman recostou-se na cabine, seu olhar fixo em Leo. Ele não disse "eu sinto que você é de outro tempo", mas sua postura mudou. Ele parou de tratar Leo como um autor iniciante e começou a tratá-lo como um rival perigoso ou um parceiro indispensável. Aquele garoto de 22 anos não estava ali para pedir um favor; ele estava ali para ditar os termos.

— A Doubleday ofereceria mil dólares de adiantamento por Jaws — disse Norman, testando o terreno.

— Recuse — Leo respondeu imediatamente. — Eu não quero mil dólares. Eu quero um contrato de "Packaging".

Norman arqueou uma sobrancelha. Packaging era o modelo que Lew Wasserman estava usando para dominar a indústria: a agência fornecia o livro, o roteiro, o diretor e as estrelas em um único pacote fechado para o estúdio.

— Você é um assistente de produção, Leo. Quer jogar o jogo dos grandes?

— Eu já estou no jogo, Norman. Você apenas não percebeu ainda. Eu quero que você leve esses dois manuscritos para o Sr. Wasserman. Diga a ele que o autor é um funcionário dele que conhece os segredos da Universal melhor do que os contadores da Torre Negra. — Leo levantou-se, fechando a pasta de couro. — E diga a ele que, se a Universal não comprar a opção cinematográfica de Jaws e Love Story nas próximas 48 horas, eu vou atravessar a rua e falar com o Robert Evans na Paramount.

Norman Brokaw não se moveu. Ele apenas ficou ali, observando Leo se afastar. Ele viu a maneira como Leo caminhava — não com a pressa de um jovem, mas com a economia de movimentos de alguém que já havia percorrido aquele caminho mil vezes.

"Quem é você, Leo?", pensou Norman, acendendo um Lucky Strike.

Ele não sabia a resposta, e algo lhe dizia que nunca saberia. Mas ele sabia de uma coisa: naquele momento, o equilíbrio de poder em Hollywood acabara de mudar de mãos, e o dono das novas regras estava usando botas de trabalho sujas de lama e um terno de brechó.

Norman pegou o telefone da mesa e ligou para a Torre Negra da MCA.

— Lew? É o Norman. Eu tenho algo que você precisa ver. E não, não é o novo filme do Hitchcock. É algo... novo. Realmente novo.

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