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Chapter 11 - Os Reis da Sucata e os Deuses do Amanhã 

A viagem de Los Angeles para a Costa Leste foi um borrão de asfalto e postos de gasolina, mas Leo não se importou. O Ford Mustang prata 1965 devorava as milhas com a eficiência de um predador, e Leo sentia que cada quilômetro o afastava do "cara do café" e o aproximava do "dono do mundo". No banco de trás, Norman Brokaw permanecia em silêncio, observando a nuca do seu cliente mais enigmático. O agente ainda não entendia por que um autor com dois sucessos garantidos na Universal queria cruzar o país para visitar uma gráfica decadente em Derby, Connecticut.

Quando o Mustang finalmente parou diante da sede da Charlton Publications, o cenário era o oposto do glamour de Beverly Hills. O prédio era um complexo industrial cinzento, onde o ar vibrava com o som rítmico e ensurdecedor de máquinas pesadas. Não havia tapetes persas aqui; apenas o cheiro acre de tinta fresca, solventes químicos e o odor metálico de metal batendo contra metal.

— Você tem certeza disso, Leo? — Norman finalmente falou, ajeitando seu terno caro enquanto olhava para as poças de óleo no chão. — A Charlton é conhecida como a "Reia da Sucata". Eles imprimem quadrinhos em prensas de segunda mão que costumavam fazer caixas de cereais. Eles pagam os piores salários da indústria.

Leo desligou o motor e olhou para o monólito industrial com um sorriso que Norman já aprendera a temer.

— Exatamente, Norman. Eles são autossuficientes. Eles possuem a gráfica, possuem a frota de caminhões e não precisam pedir permissão para ninguém para distribuir o que imprimem. — Leo bateu no volante. — Eu não quero uma editora que tenha prestígio. Eu quero uma que tenha controle. E em Hollywood, controle é a única moeda que não desvaloriza.

...

Dentro do escritório, o ambiente era carregado pela fumaça de charutos baratos. John Santangelo e Ed Levy, os fundadores que se conheceram na prisão décadas atrás, olhavam para Leo com uma mistura de suspeita e cansaço. Ed Levy estava pronto para se aposentar, e a Charlton estava lutando contra a maré crescente da Marvel e da DC.

— Um cheque de cinquenta mil dólares por metade da empresa? — John Santangelo repetiu, a voz rouca. — Você é o garoto que escreveu o livro do tubarão que todo mundo está comentando, não é? O que você quer com revistinhas de dez centavos?

Leo sentou-se na cadeira de madeira rangente e abriu sua pasta de couro.

— Eu não quero fazer "revistinhas", Sr. Santangelo. Eu quero construir mitos. O senhor tem as máquinas, mas não tem as histórias. O senhor está preso desenhando cowboys e soldados de infantaria enquanto o mundo quer ver o impossível. — Leo deslizou um papel sobre a mesa. — Eu compro a parte do Sr. Levy e injeto o capital necessário para modernizar as prensas. Em troca, eu comando o departamento editorial. Sem interferência.

John Santangelo olhou para o cheque, depois para Norman Brokaw. Ver o agente das estrelas ali, parado como um guarda-costas silencioso, dava a Leo uma credibilidade que nenhum outro jovem de 22 anos teria

— Mostre-me o que você tem — disse Santangelo.

Leo puxou as primeiras artes conceituais que ele mesmo rascunhara durante as madrugadas em Burbank.

— Primeiro: "Atomic 10". — Leo mostrou o desenho de um relógio de pulso pesado, com uma estética militar da Guerra Fria, cheio de engrenagens visíveis e um mostrador luminoso de rádio. — Não é um relógio comum. É um protótipo alienígena. Um garoto o encontra e pode se transformar em dez criaturas diferentes. Mas esqueçam heróis de capa. Eu quero monstros. Quero o terror da Universal misturado com a ficção científica moderna.

Santangelo franziu a testa, mas Leo não parou. Ele deslizou a segunda prancha.

— Segundo: "transformes". — A imagem mostrava um Pontiac GTO 1965 e um Ford Mustang se transformando em gigantes de metal com engrenagens expostas e pistões hidráulicos. — Eles são robôs sencientes disfarçados de máquinas americanas. A luta pela liberdade contra o controle totalitário. Em um mundo obcecado pela cultura dos carros e pela tecnologia de espionagem, isso vai vender mais que pão quente.

O silêncio na sala foi quebrado apenas pelo som das prensas no andar de baixo. Santangelo e Levy trocaram olhares. Eles nunca tinham visto nada parecido. A estética era bruta, técnica e... estranhamente avançada.

— E o que é isso aqui no canto? — perguntou Levy, apontando para um esboço de garotos em uma quadra de basquete urbana e outro de carros em alta velocidade em estradas sinuosas.

— Isso é para o futuro próximo — Leo disse, referindo-se a Slam Dunk e Initial D. — Eu chamo de "Realismo Cinematográfico". Histórias sobre jovens delinquentes encontrando redenção no esporte e na velocidade. Drama humano real, com o suor e a fumaça das ruas. Nada de superpoderes, apenas determinação e técnica.

Norman Brokaw, que observava Leo o tempo todo, sentiu aquele arrepio familiar. Ele notou que Leo não descrevia essas histórias como ideias novas; ele as descrevia como se estivesse recitando fatos históricos. Leo sabia o nome das peças do motor que o robô Mustang teria. Ele sabia como o relógio "Atomic" deveria soar ao girar o dial.

— Você fala dessas coisas como se elas já estivessem prontas, garoto — murmurou Santangelo, acendendo um charuto novo. — Como você sabe que as crianças vão querer ver carros se transformando em máquinas de guerra?

— Porque a imaginação não tem freio, Sr. Santangelo. E eu já vi o que acontece quando você dá ao público o que eles ainda nem sabem que desejam.

Ed Levy deu um suspiro de alívio e pegou a caneta.

— Eu aceito. Cinquenta mil dólares me garantem uma aposentadoria tranquila na Flórida. Mas aviso: o sindicato dos artistas não vai gostar de mudar o estilo. Eles estão acostumados com o traço simples.

— Eu não preciso de artistas que façam o simples — Leo respondeu, levantando-se. — Eu quero o Steve Ditko. Eu sei que ele está insatisfeito na Marvel e que ele começou aqui. Eu quero trazê-lo de volta e dar a ele a liberdade que o Stan Lee nunca deu.

Norman Brokaw arregalou levemente os olhos. Como diabos Leo sabia sobre as tensões internas na Marvel Comics entre Stan Lee e Ditko? Aquilo era segredo de bastidor em Nova York, e Leo nunca tinha saído de um set de filmagem na Califórnia.

...

Duas horas depois, o contrato estava assinado. Leo agora era sócio-proprietário da Charlton Comics. Ele caminhou até o pátio da fábrica e olhou para os caminhões de distribuição. Eles eram velhos, mas eram dele.

— Norman — disse Leo, enquanto voltavam para o Mustang. — Ligue para o Sr. Wasserman. Diga a ele que a Universal agora tem uma divisão de quadrinhos. Mas não conte os detalhes. Eu quero que o primeiro exemplar de Auto-Phantoms chegue na mesa dele como uma bomba.

Norman Brokaw apenas assentiu. Ele sentia que estava testemunhando o nascimento de algo que ia muito além do cinema ou da literatura.

— Leo... — Norman parou com a mão na porta do carro. — Onde isso termina? Você tem o livro mais vendido do país, um filme em produção e agora uma editora de quadrinhos. O que vem depois?

Leo olhou para o céu cinzento de Connecticut, mas em sua mente, ele via as telas de cinema de 2026, os parques temáticos e as franquias multimilionárias.

— Isso não termina, Norman — Leo respondeu, ligando o Mustang. — Isso está apenas começando. Amanhã, nós voltamos para Los Angeles. Eu tenho um tubarão mecânico para construir e um carro assassino chamado Christine para apresentar ao mundo.

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