O amanhecer chegou sem aviso.
A luz fraca do sol atravessava as árvores quando Lyria percebeu que tinham parado. O corpo doía, não só pelo cansaço, mas pelo peso estranho que ainda sentia no ombro, como se a marca não tivesse terminado de falar.
Kael se ajoelhou perto de um riacho raso, lavando as mãos e o rosto. Parecia tranquilo demais pra alguém que tinha acabado de ver magia despertar do nada.
— A gente não pode continuar andando — ele disse. — Você precisa descansar.
— Descansar? — Lyria soltou uma risada curta, sem humor. — Depois do que aconteceu?
— Principalmente por causa disso.
Ela se sentou numa pedra, abraçando os joelhos. Observava o reflexo da água tremendo, como se ainda estivesse ligada àquela sensação da noite anterior.
— Quantas pessoas como eu existem? — perguntou de repente.
Kael demorou a responder.
— Poucas. Menos do que o Conselho admite.
— E o que acontece com elas?
Ele fechou o punho.
— Algumas desaparecem. Outras… são usadas.
Lyria sentiu um arrepio.
— Usadas como o quê?
— Como fonte — Kael respondeu. — Como chave. Como arma, às vezes.
Ela engoliu em seco, o estômago revirando.
— Então eu sou só isso? Uma coisa?
Kael se levantou rápido demais.
— Não — disse firme. — Você não é uma coisa.
O tom dele a surpreendeu.
— Mas é assim que eles veem — ela insistiu. — Uma marca. Um problema pra ser resolvido.
O silêncio se estendeu entre os dois, quebrado apenas pelo som da água correndo.
— O preço de ser marcada — Kael falou por fim — é nunca poder ser só uma pessoa comum.
Lyria abaixou o olhar.
— Eu nunca quis isso.
— Eu sei.
Ela encarou ele de novo, confusa.
— Como você pode saber?
Kael desviou o rosto, como se tivesse falado demais.
— Porque ninguém escolhe nascer assim.
Lyria puxou o manto de leve, revelando um pedaço da marca ainda apagada. Mesmo assim, ela sentia que estava ali, atenta.
— E você? — perguntou. — Por que ajuda alguém como eu?
Kael ficou em silêncio por alguns segundos longos demais.
— Porque eu já falhei antes — respondeu. — E não pretendo repetir isso.
Antes que ela pudesse perguntar o que ele queria dizer, um estalo ecoou pela floresta.
Seco. Próximo.
Kael levou a mão à espada no mesmo instante.
— Não estamos sozinhos — murmurou.
Lyria sentiu a marca reagir, um calor leve se espalhando pelo corpo.
Entre as árvores, sombras se moveram.
E, pela primeira vez, ela percebeu que fugir talvez não fosse o bastante.
