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Chapter 4 - Capítulo 4 – O preço de ser marcada

O amanhecer chegou sem aviso.

A luz fraca do sol atravessava as árvores quando Lyria percebeu que tinham parado. O corpo doía, não só pelo cansaço, mas pelo peso estranho que ainda sentia no ombro, como se a marca não tivesse terminado de falar.

Kael se ajoelhou perto de um riacho raso, lavando as mãos e o rosto. Parecia tranquilo demais pra alguém que tinha acabado de ver magia despertar do nada.

— A gente não pode continuar andando — ele disse. — Você precisa descansar.

— Descansar? — Lyria soltou uma risada curta, sem humor. — Depois do que aconteceu?

— Principalmente por causa disso.

Ela se sentou numa pedra, abraçando os joelhos. Observava o reflexo da água tremendo, como se ainda estivesse ligada àquela sensação da noite anterior.

— Quantas pessoas como eu existem? — perguntou de repente.

Kael demorou a responder.

— Poucas. Menos do que o Conselho admite.

— E o que acontece com elas?

Ele fechou o punho.

— Algumas desaparecem. Outras… são usadas.

Lyria sentiu um arrepio.

— Usadas como o quê?

— Como fonte — Kael respondeu. — Como chave. Como arma, às vezes.

Ela engoliu em seco, o estômago revirando.

— Então eu sou só isso? Uma coisa?

Kael se levantou rápido demais.

— Não — disse firme. — Você não é uma coisa.

O tom dele a surpreendeu.

— Mas é assim que eles veem — ela insistiu. — Uma marca. Um problema pra ser resolvido.

O silêncio se estendeu entre os dois, quebrado apenas pelo som da água correndo.

— O preço de ser marcada — Kael falou por fim — é nunca poder ser só uma pessoa comum.

Lyria abaixou o olhar.

— Eu nunca quis isso.

— Eu sei.

Ela encarou ele de novo, confusa.

— Como você pode saber?

Kael desviou o rosto, como se tivesse falado demais.

— Porque ninguém escolhe nascer assim.

Lyria puxou o manto de leve, revelando um pedaço da marca ainda apagada. Mesmo assim, ela sentia que estava ali, atenta.

— E você? — perguntou. — Por que ajuda alguém como eu?

Kael ficou em silêncio por alguns segundos longos demais.

— Porque eu já falhei antes — respondeu. — E não pretendo repetir isso.

Antes que ela pudesse perguntar o que ele queria dizer, um estalo ecoou pela floresta.

Seco. Próximo.

Kael levou a mão à espada no mesmo instante.

— Não estamos sozinhos — murmurou.

Lyria sentiu a marca reagir, um calor leve se espalhando pelo corpo.

Entre as árvores, sombras se moveram.

E, pela primeira vez, ela percebeu que fugir talvez não fosse o bastante.

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