Cherreads

Chapter 3 - Capítulo 3 – Quando a lua chama

Lyria não dormiu.

Mesmo depois de se afastarem da ferraria, mesmo depois do silêncio voltar a dominar as ruas, o corpo dela continuava em alerta, como se algo estivesse prestes a acontecer a qualquer segundo.

Kael caminhava à frente, guiando o caminho por trilhas estreitas entre árvores baixas e tortas. A floresta começava logo depois do vilarejo, escura demais pra parecer segura. Mas, estranhamente, Lyria se sentia mais protegida ali do que em casa.

— Pra onde estamos indo? — ela perguntou, quebrando o silêncio.

— Longe o bastante — Kael respondeu. — Onde eles não costumam procurar.

Ela abraçou o próprio corpo, sentindo o frio da noite atravessar o manto. A lua ainda estava visível entre os galhos, menos vermelha agora, mas ainda intensa demais.

— Você não respondeu antes — Lyria disse. — Como você sabia da minha marca?

Kael parou de repente.

Ela quase bateu nele.

— Porque eu já vi outras — ele falou, sem se virar. — E porque a sua reagiu à lua vermelha. Isso não é comum.

— Nada disso é comum — ela retrucou. — Desde que nasci, tudo que eu faço parece errado.

Ele virou devagar, encarando-a com atenção.

— A marca dói quando pulsa? — perguntou.

Lyria hesitou.

— Às vezes… queima. Outras vezes é só um peso. Como se algo estivesse tentando sair.

Kael fechou os olhos por um instante.

— Então é pior do que eu pensei.

— O que isso quer dizer? — ela perguntou, a voz mais alta do que pretendia.

Antes que ele pudesse responder, a marca queimou de verdade.

Lyria levou a mão ao ombro, ofegante. Um calor intenso se espalhou pelo corpo, fazendo suas pernas fraquejarem.

— Ei — Kael segurou ela antes que caísse. — Olha pra mim. Respira.

— Tá doendo — ela sussurrou. — Eu não consigo… controlar.

A lua surgiu inteira entre as árvores, clara demais. O símbolo sob a pele dela começou a brilhar, atravessando o tecido do manto como luz líquida.

— Lyria — Kael chamou, sério agora. — Não luta contra isso. Só… sente.

— Eu não sei como — ela respondeu, quase chorando.

O chão sob os pés deles tremeu de leve. Nada forte, mas o suficiente pra assustar. As folhas ao redor começaram a se mover, mesmo sem vento.

Kael arregalou os olhos.

— Droga… — murmurou.

— O que foi? — Lyria perguntou.

— Você acabou de usar magia.

O coração dela parou.

— Não. Eu não sei fazer isso — disse rápido. — Eu nunca aprendi nada.

— Magia marcada não aprende — Kael respondeu. — Ela desperta.

A marca pulsou mais uma vez, depois começou a se acalmar, como se tivesse ouvido aquelas palavras.

Lyria respirava com dificuldade, tentando entender.

— Então… isso é só o começo? — perguntou.

Kael assentiu lentamente.

— Sim — disse. — E quando o Conselho descobrir, não vão parar até te caçar.

Ela engoliu em seco.

— E você? — Lyria perguntou. — Vai fugir quando isso ficar pior?

Kael demorou a responder.

— Não — disse por fim. — Porque se eu te deixar agora, você não sobrevive.

A lua observava, silenciosa.

E Lyria teve a sensação estranha de que, a partir daquele momento, ela não estava mais sozinha.

Mas isso não significava que estaria segura.

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