Lyria não dormiu.
Mesmo depois de se afastarem da ferraria, mesmo depois do silêncio voltar a dominar as ruas, o corpo dela continuava em alerta, como se algo estivesse prestes a acontecer a qualquer segundo.
Kael caminhava à frente, guiando o caminho por trilhas estreitas entre árvores baixas e tortas. A floresta começava logo depois do vilarejo, escura demais pra parecer segura. Mas, estranhamente, Lyria se sentia mais protegida ali do que em casa.
— Pra onde estamos indo? — ela perguntou, quebrando o silêncio.
— Longe o bastante — Kael respondeu. — Onde eles não costumam procurar.
Ela abraçou o próprio corpo, sentindo o frio da noite atravessar o manto. A lua ainda estava visível entre os galhos, menos vermelha agora, mas ainda intensa demais.
— Você não respondeu antes — Lyria disse. — Como você sabia da minha marca?
Kael parou de repente.
Ela quase bateu nele.
— Porque eu já vi outras — ele falou, sem se virar. — E porque a sua reagiu à lua vermelha. Isso não é comum.
— Nada disso é comum — ela retrucou. — Desde que nasci, tudo que eu faço parece errado.
Ele virou devagar, encarando-a com atenção.
— A marca dói quando pulsa? — perguntou.
Lyria hesitou.
— Às vezes… queima. Outras vezes é só um peso. Como se algo estivesse tentando sair.
Kael fechou os olhos por um instante.
— Então é pior do que eu pensei.
— O que isso quer dizer? — ela perguntou, a voz mais alta do que pretendia.
Antes que ele pudesse responder, a marca queimou de verdade.
Lyria levou a mão ao ombro, ofegante. Um calor intenso se espalhou pelo corpo, fazendo suas pernas fraquejarem.
— Ei — Kael segurou ela antes que caísse. — Olha pra mim. Respira.
— Tá doendo — ela sussurrou. — Eu não consigo… controlar.
A lua surgiu inteira entre as árvores, clara demais. O símbolo sob a pele dela começou a brilhar, atravessando o tecido do manto como luz líquida.
— Lyria — Kael chamou, sério agora. — Não luta contra isso. Só… sente.
— Eu não sei como — ela respondeu, quase chorando.
O chão sob os pés deles tremeu de leve. Nada forte, mas o suficiente pra assustar. As folhas ao redor começaram a se mover, mesmo sem vento.
Kael arregalou os olhos.
— Droga… — murmurou.
— O que foi? — Lyria perguntou.
— Você acabou de usar magia.
O coração dela parou.
— Não. Eu não sei fazer isso — disse rápido. — Eu nunca aprendi nada.
— Magia marcada não aprende — Kael respondeu. — Ela desperta.
A marca pulsou mais uma vez, depois começou a se acalmar, como se tivesse ouvido aquelas palavras.
Lyria respirava com dificuldade, tentando entender.
— Então… isso é só o começo? — perguntou.
Kael assentiu lentamente.
— Sim — disse. — E quando o Conselho descobrir, não vão parar até te caçar.
Ela engoliu em seco.
— E você? — Lyria perguntou. — Vai fugir quando isso ficar pior?
Kael demorou a responder.
— Não — disse por fim. — Porque se eu te deixar agora, você não sobrevive.
A lua observava, silenciosa.
E Lyria teve a sensação estranha de que, a partir daquele momento, ela não estava mais sozinha.
Mas isso não significava que estaria segura.
