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O Domínio da Cura
O caos das últimas semanas parecia ter sido apenas um ruído passageiro na grande sinfonia de poder de Mauro Magnus.
Foco num monitor de alta definição.
Infográficos giram em 3D, mostrando a estrutura molecular do novo Soro EXUS (a versão "limpa" e comercial do Gênesis).
O design é lindo, clean, futurista.
NARRADOR
" O caos é barulhento, mas o verdadeiro poder é silencioso. Enquanto o submundo sangrava, Mauro Magnus vencia a guerra à luz do dia.
A ciência combinada da Dra. Herika não criou apenas monstros; criou o produto perfeito.
Mauro Magnus vibrava com suas ações na Bovespa."
CANAL DE NOTÍCIAS (REDE NEWS ECONOMIA).
Um gráfico de ações verde neon sobe verticalmente, rasgando a tela.
O logo da MAGNUS FARMA engole os logos da concorrência (Bayer, Pfizer, etc.).
ÂNCORA DA TV
— Breaking News: Ações da Magnus Farma disparam 400% na abertura. O conglomerado brasileiro se torna, oficialmente, o maior player farmacêutico da América Latina.
NARRADOR
"Estabilidade molecular. Eficiência clínica. A tsunami comercial que afoga quem não sabe nadar com os tubarões a Magnus Farma A nova religião nacional."
A cena muda para a estética saturada e perfeita de um comercial de TV.
Uma família brasileira "de margarina" (pai, mãe, filhos sorridentes) num parque ensolarado (talvez o Ibirapuera ou Aterro do Flamengo), artificialmente feliz.
TV (V.O. - LOCUTOR): Chega de receita caseira, gente. O Brasil não pode parar por causa de um espirro, né?
TV (V.O. - LOCUTOR): Chegou Magnu-Grip.
A tecnologia genética blindando sua família. Adeus, virose. Olá, futuro.
Corte rápido para outro comercial, agora com estética esportiva, suor dourado, câmera lenta.
Um atleta olímpico rompendo a faixa de chegada.
TV (V.O. - ATLETA): Meu corpo é meu templo. E meu templo não aceita dor.
TV (V.O. - LOCUTOR): Dor-Zero Ultra. Ação anti-inflamatória dez vezes mais potente. Liberte o monstro... quer dizer, o potencial dentro de você.
Corte para mais um comercial, agora com estética tranquila e serena, tom mais leve.
Um ambiente clínico, tons de azul e branco. Uma mulher dorme tranquilamente, sono de bebe
TV (V.O. - LOCUTOR): NOVO SONO-REM EM CÁPSULAS. Ansiedade? Depressão? Dor crônica ?
TV (V.O. - LOCUTOR): Com a nova linha psiquiátrica Magnus, o sofrimento é opcional. E finalmente, conquistamos a sua mente.
NARRADOR
" Primeiro, compraram nossos corpos. Depois, alugaram nosso alívio. Antidepressivos, calmantes... a droga mais viciante que existe é a paz de espírito engarrafada."
COLETIVA DE IMPRENSA - BRASÍLIA.
Flashes estouram como relâmpagos.
No palco, Mauro Magnus (terno italiano impecável) aperta a mão do Ministro da Saúde (um senhor calvo e suado).
O sorriso de Mauro é predatório.
Ele olha para a câmera, quebrando a quarta parede. Ele sabe que é dono do país.
MINISTRO DA SAÚDE suando levemente sob as luzes, levanta a mão de Mauro como se fosse um campeão de boxe.
Atrás deles, o logo da MAGNUS FARMA se funde visualmente com a bandeira do Brasil no telão.
— É com orgulho que anuncio: a Magnus Farma será, a partir de hoje, a fornecedora exclusiva do SUS para medicamentos de alta complexidade.
MAURO MAGNUS:
- É uma honra, Ministro.
- O setor privado e o Estado... finalmente falando a mesma língua.
- A língua do progresso.
- Remédio de ponta, para todo o povo brasileiro.
NARRADOR
O sorriso do Mauro não é de felicidade. É de propriedade ele acabou de comprar o país. E nem precisou de recibo.
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O Surto da Redação
A transmissão da coletiva de imprensa ecoava pela redação da Rede News, a voz polida do Ministro da Saúde preenchendo cada cubículo.
Foco na TV da mesa da Vanessa. A voz do Ministro sai clara.
TV: "...a Magnus Farma será, a partir de hoje..."
Mãos de Vanessa, trêmulas de raiva, agarram as bordas do monitor LCD. Os dedos ficam brancos de tanta força.
[SPLASH PAGE: A FÚRIA DE VANESSA]
Com um grito primal que misturava ódio, frustração e impotência, Vanessa arrancou o monitor de sua mesa gira o corpo e o arremessa contra a parede de vidro do escritório.
SFX: KRA-SHAAAAASH!
A tela explodiu numa chuva de plástico e faíscas. A última imagem a piscar antes da morte do aparelho foi o rosto sorridente e vitorioso de Mauro Magnus, agora distorcido e quebrado, como ela desejava que ele estivesse na vida real.
A redação lá fora para.
Silêncio total.
Cabeças de estagiários e redatores se levantam dos cubículos, assustadas.
Vanessa está de pé, no meio dos cacos, ofegante. O cabelo desgrenhado, os olhos injetados.
Ela aponta para os restos do monitor como se estivesse sentenciando alguém à morte.
— ESCROTO!
— MALDITO! CRETINO!
Close no rosto dela, gritando para o teto, para o mundo, para Deus.
— ARROMBADO!
— FILHO DA PUTA!
Narrador
"Não era profissionalismo. Era ódio puro. O tipo de ódio que queima pontes e quebra monitores."
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A Dor da Impotência
A porta da sala abre com violência. Gabi entra, pronta pra briga, segurando um grampeador como arma improvisada.
GABI
— Quem morreu?! Onde tá o fogo?!
— Vanessa?!
Em vez disso, encontrou apenas Vanessa parada no meio do escritório, cercada por destroços eletrônicos, o peito subindo e descendo num ritmo de quase hiperventilação.
GABI
— Caralho, Ruiva... Que zona é essa?
— Tu surtou legal, hein? Cê tá bem, mulher?
A fúria de Vanessa se desfez como fumaça ao vento, dando lugar a um soluço úmido de puro desespero.
As pernas cederam, e ela desabou em sua cadeira, escondendo o rosto entre as mãos trêmulas.
— Seis meses, Gabi... Seis meses da minha vida jogados no lixo.
— Eu me infiltrei naquele inferno, eu vi coisas que me dão pesadelo até hoje... E pra quê?
Ela levantou o rosto, as lágrimas riscando a maquiagem, os olhos negros apagados de tristeza.
— Eles queimaram minhas anotações, destruíram meu celular...
— E a única prova física... a única chance de prender aquele monstro... um imbecil de torcida organizada fez o garoto engolir!
Com um dedo trêmulo, ela apontou para o monitor estilhaçado no chão, onde o fantasma do sorriso de Magnus ainda parecia zombar dela.
O choro deu lugar a um ódio frio e lúcido.
— E agora isso. "Parceria com o Governo Federal".
— O Magnus virou sócio do país, Gabi. Ele comprou a imunidade dele em rede nacional.
Ela encarou a amiga, a desesperança tomando conta de cada traço de seu rosto.
— O Magnus se tornou intocável, Gabi. Intocável.
Vanessa segura as mãos de Gabi, implorando por uma resposta que não existe.
— O que a gente vai fazer, amiga? Me diz...
— Como é que a gente luta contra isso?
O silêncio tomou conta da sala, quebrado apenas pelos soluços de Vanessa.
Gabi não tentou dar uma solução mágica.
Apenas se aproximou e envolveu a amiga num abraço apertado, deixando-a chorar em seu ombro, oferecendo o único refúgio possível naquele momento: a lealdade.
— Shhh... Calma, nega. Calma.
— Não pensa nisso agora.
Gabi levanta Vanessa, segurando-a pela cintura, guiando-a para a porta.
— A gente vai sair daqui. Agora.
— Tu tá uma pilha de nervos, Ruiva. Precisa respirar ar puro, ver gente feia na rua, comer um podrão.
— Esquece o Magnus por hoje. Vem comigo.
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O Rastro do Titã
Para uma mente cansada não melhor que uma noite bem dormida, mais a vida de um repórter nunca para.
Na manhã seguinte, Gabi e Vanessa estavam em frente ao que restou do Centro de Confecção Magnus.
Circo midiático.
Furgões de TV, curiosos, drones zumbindo.
Repórteres se acotovelam na linha da fita amarela.
Ao fundo, um repórter engomadinho da própria Rede News fala para a câmera.
REPÓRTER DA REDE NEWS
— ...um ataque sem precedentes.
As autoridades ainda não confirmaram a autoria, mas especula-se sabotagem industrial ou ataque terrorista.
- O Grupo Magnus promete retaliação...
Mas Vanessa e Gabi não estavam ali para assistir.
Canto discreto do perímetro.
O Investigador Freitas (cansado, cigarro na boca) levanta a fita zebrada para Vanessa e Gabi passarem.
(Sussurrando)
— Rápido, doutoras. Cinco minutos.
— Se o delegado me pega fazendo tour guiado na cena do crime, eu perco meu distintivo e minha aposentadoria.
Interior das ruínas.
É assustador.
O silêncio contrasta com o barulho lá fora.
Vigas de aço retorcidas, concreto pulverizado. Máquinas industriais do tamanho de caminhões viradas de cabeça para baixo, paredes de concreto armado haviam sido derrubadas como castelos de cartas.
O interior da fábrica era uma visão de carnificina industrial.
Não parecia vandalismo; parecia que um furacão, ou uma bomba localizada, tinha explodido ali dentro.
Gabi caminha entre os destroços, desviando de ferros pontiagudos.
Ela olha para cima, para o teto que não existe mais.
— PUTZ... Olha o estrago.
— Será que foi ele mesmo, Nessa? O tal do JC?
— O menino parece magrinho, jeito de gente boa... isso aqui parece coisa do Incrível Hulk com TPM.
Vanessa não parecia assustada ela ignora o comentário pois está no modo "Sherlock".
Ela se agacha perto de uma viga de sustentação de aço maciço que foi dobrada como se fosse arame.
Ela passa a mão no metal frio.
— Gabi... Se ele tomou o soro que eu vi sendo criado naquele laboratório...
— Com certeza foi ele.
(Flashback rápido: A imagem violenta da preguiça no laboratório, se debatendo contra o vidro da jaula, a fúria animal amplificada pela ciência.)
De volta ao presente.
Vanessa se levanta, olhando para a destruição ao redor. O olhar dela é de temor reverente.
(PENSAMENTO)
"É o mesmo padrão de fúria descontrolada...
Mas a escala... A força necessária para fazer isso aqui é mil vezes maior.
Isso não é humano. Nem animal.
Isso é divino... e absolutamente aterrorizante."
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A Metamorfose Revelada
Interior da fábrica.
Vanessa e Gabi caminham sobre cacos de vidro e metal.
O som é CRUNCH, CRUNCH.
Gabi olha para uma viga retorcida com receio real.
— Ô Ruiva... papo reto.
— Se o maluco virou o Hulk e fez esse estrago todo com concreto armado...
— O que tu acha que ele faz com carne e osso? Tipo, com a gente?
Vanessa não olha para ela.
Continua scaneando o chão, focada.
— Carne moída, Gabi. Ele faz carne moída.
— Mas a gente não tá aqui pra lutar MMA com ele. A gente tá aqui pra achar o rastro.
Mas o medo não paralisou a repórter.
Vanessa para bruscamente e se agacha. Ela acena para Gabi com urgência.
Seus olhos se fixaram no chão coberto por uma fina camada de poeira de cimento.
— Gabi, chega aí!
— Olha o chão. A poeira.
Marcada na poeira, havia uma pegada gigantesca, profunda e grotesca que não é humana.
É larga, com marcas profundas e o mais impressionante com garras nas pontas.
Vanessa coloca o pé (bota tamanho 36) ao lado. A pegada é o dobro do tamanho.
Gabi se aproximou e soltou um suspiro de espanto.
— Sangue de Jesus tem poder...
— Olha o tamanho dessa lancha! Isso não é pé de gente não, Vanessa. Isso é pata de dinossauro.
Elas seguem a trilha em direção aos fundos da fábrica. O muro perimetral está arrombado de dentro para fora.
Gabi apontou para o chão, intrigada com o padrão.
— Mas ó... se liga na fita.
— Tu percebeu que a pegada tá encolhendo?
— Lá atrás era o Pé Grande. Aqui já tá parecendo pé de jogador de basquete. O bicho tá murchando?
Vanessa com os olhos brilhando.
— Também notei. De monstro gigante... para quase humano, agora.
E foi ali que o mistério mudou de forma.
Perto do buraco no muro, Gabi pega algo preso num vergalhão. Farrapos de jeans e algodão sujo.
— Achei o figurino.
— Jeans rasgado.
- Camisa estraçalhada.
- O clássico "look" de transformação de lobisomem.
FLASHBACK RÁPIDO (SÉPIA).
(Flashback: A preguiça no laboratório, exausta, encolhendo e voltando ao tamanho normal em sua jaula após o surto de fúria.)
De volta ao presente. Vanessa pega o tecido da mão de Gabi. O raciocínio dela estala.
— Metabolismo acelerado... queima de energia absurda.
— A preguiça voltava ao normal quando a adrenalina baixava. É cíclico.
— O efeito do soro passa.
- Ele não é monstro 24 horas por dia.
— Então, por algum motivo, ele voltou a ser humano. Bem aqui.
- O efeito do soro deve ser passageiro.
Gabi espia pelo buraco no muro.
A rua lá fora é uma via normal do subúrbio.
Sem destruição.
— Daqui pra frente é asfalto limpo.
— Sem pegada de monstro, sem parede quebrada.
- O Godzilla virou o Clark Kent e pegou o ônibus.
Vanessa se levanta e limpa a poeira das mãos sua postura de vítima da redação sumiu seu sorriso agora é de uma predadora que sentiu o cheiro de sangue.
— Então ele saiu daqui andando.
- Como um homem comum, pelado e confuso.
— E homem comum deixa rastro, Gabi.
- Homem comum precisa de roupa, comida e abrigo.
— A caçada recomeçou.
- E agora eu sei exatamente o que procurar.
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O Pacto nas Nuvens
Enquanto Vanessa seguia rastros no chão, o destino do país era decidido a dez mil metros de altura.
JATO PARTICULAR GULFSTREAM G650 - ESPAÇO AÉREO.
Luxo obsceno, Couro bege, detalhes em mogno está flutuando silenciosamente sobre o Rio de Janeiro.
Mauro Magnus estava sentado em sua poltrona, de frente para o uma ilustre figura o Deputado Federal Eduardo Santana — ou "Edu", para os íntimos do poder.
Edu é uma figura: terno caro que não cabe direito na barriga, anel de ouro no dedo mindinho, varias correntes de ouro e um chapéu de fazendeiro na cabeça e cara de quem já matou gente no mato.
Os dois ergueram taças de cristal reluzentes e caríssimas.
DEPUTADO EDU
— Óia só pra isso, Doutor Mauro...
— A gente tá voando mais alto que urubu em dia de sol.
— Vamos molhar o bico pra celebrar, uai!
Magnus exibiu seu melhor sorriso polido, aquele reservado para sócios úteis, mas os olhos são frios.
Edu sorri com a boca suja de salgadinho.
MAURO
— Um brinde ao futuro, meu digníssimo Deputado Santana.
— E à prosperidade da nossa... parceria público-privada.
Eles brindam com taças de cristal Baccarat. Champanhe Krug.
O brinde foi feito.
Edu se inclina para a frente, o rosto vermelho de álcool, falando baixo (o velho hábito de conspirar).
— Vou te falar a verdade, sô... Sem a sua "ajuda de custo", esse trem não tinha saído da estação.
— Lá em Brasília, o que manda não é a lei, é a lubrificação da máquina. E o senhor tem o melhor óleo do mercado, se é que me entende. Hehe.
Os dois riram. A gargalhada de Edu era expansiva, vulgar.
A de Magnus era contida, precisa, o som de uma caixa registradora fechando.
Mauro beberica o champanhe, olhando Edu como se olhasse para um porco premiado na feira. Útil, mas sujo.
MAURO
— Investimento, Edu. Eu não gasto dinheiro. Eu planto.
— E agora chegou a hora da colheita.
Edu, sentindo-se o dono do mundo, continuou, baixando a voz para um tom conspiratório desnecessário, já que estavam sozinhos.
Edu dá uma piscadela gorda, batendo no joelho de Mauro com intimidade excessiva.
— E que colheita, compadre!
— Com o Ministério da Saúde no bolso... O Partido não tem pra onde correr.
— No próximo pleito... O nome na urna não vai ser de nenhum engomadinho qualquer. Vai ser o seu.
Mauro para. Ele gira a cabeça lentamente para a janela oval, observando o Brasil que se estendia lá embaixo como um tabuleiro de xadrez esperando para ser jogado.
VISÃO MENTAL DE MAURO.
Uma projeção megalomaníaca.
Ele no parlatório do Palácio do Planalto.
A faixa presidencial no peito.
Na mão erguida, uma cápsula do Soro EXUS brilhando como um cetro e atrás dele, nas sombras das colunas de Niemeyer: Fernando (armado), Adriele (sorrindo) e silhuetas de híbridos bestiais.
O Brasil ajoelhado.
Um sorriso lento, maligno e cheio de ambição absoluta se formou em seus lábios.
MAURO (PENSAMENTO)
" A Presidência...
Com a caneta na mão esquerda e o Gênesis na direita... Eu não serei um presidente. Serei um deus."
De volta ao jato.
Mauro ergue a taça para Edu, o sorriso agora genuinamente maligno.
MAURO
— Música para os meus ouvidos, Edu.
— O Brasil precisa de ordem. E eu sou um homem muito... organizado.
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O Silêncio dos Inocentes
PERIFERIA - ARREDORES DA FÁBRICA.
As ruas ao redor da fábrica destruída eram um labirinto de portas fechadas e olhares desviados.
Onde o medo tinha muros altos, o silêncio era a lei.
Vanessa bate na porta de uma casa simples e uma senhora abre uma fresta.
Vanessa mostra o crachá da imprensa.
SENHORA: "Não vi nada, minha filha. E não quero conversa."
SFX: BLAM! (Porta batendo).
Gabi tenta falar com um mecânico sujo de graxa.
Ele nem levanta a cabeça do motor.
MECÂNICO: "Cês tão malucas? Querem morrer cedo? Sumam daqui."
Vanessa e Gabi tentaram de tudo, abordaram donas de casa, mecânicos, Comerciantes até crianças jogando bola.
A resposta era sempre a mesma: o som seco de uma porta batendo ou um "não vi nada" murmurado com pressa.
A vizinhança sabia quem era o dono daquele império caído, e ninguém queria ser o próximo alvo.
Depois de horas de portas na cara, as duas pararam numa esquina, desoladas.
Esquina deserta.
Sol a pino.
As duas estão suadas e derrotadas.
Gabi chutou uma pedrinha no asfalto quente, a frustração estampada no rosto.
— Puta que pariu, Ruiva. Tá foda.
— Ninguém abre o bico.
— Ou a galera é cega, surda e muda, ou tá com o cu na mão num nível hard. Assim não dá pra trabalhar, porra.
Vanessa acende um cigarro com as mãos trêmulas e observa o local com calma e olha para as casas com grades altas e câmeras.
— É o "Efeito Magnus", Gabi.
— Ele não precisa nem ameaçar.
- O nome dele na fachada da fábrica já faz o serviço.
— O medo é o melhor segurança que o dinheiro pode comprar.
Narrador
" Morando do lado da fábrica, a vizinhança toda deve ter medo dele. Ele comprou o silêncio... ou impôs."
A barriga de Gabi ronca. Um som alto, quase um rosnado.
SFX: GRRRRONC!
— Ai, minha pressão...
— Vanessa, eu te amo, mas eu tô varada.
— Se eu não comer um carboidrato agora, eu vou desmaiar ou vou morder alguém.
- E tu sabe que eu mordo forte.
Vanessa avistou um toldo vermelho desbotado do outro lado da rua ela apontou para um boteco/lanchonete PLACA:
LANCHONETE DO ZÉ - SALGADOS E SUCOS.
— Ali. Tem uma lanchonete.
— Vamos recarregar.
- Café preto pra mim,
- Coxinha pra você.
Enquanto caminhavam em direção ao local, Vanessa acende um cigarro, Gabi atenta olha para a amiga faz uma careta abana a fumaça e contrariada manda a real
— Credo, Vanessa.
— Tu é inteligente, bonita, cheirosa... e chupa essa chaminé de câncer.
- Puta vício nojento.
Vanessa apenas sorriu de canto e tragou, precisando daquela droga lícita para aguentar a busca pela droga ilícita que mudara o mundo.
(Tragando fundo)
— Me julga não, Gabi.
— Uns comem açúcar, outros queimam tabaco. Cada um escolhe o veneno que ajuda a aguentar o dia.
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O Spawn Point do Totozinho
Vanessa fuma e toma café preto (combustível de repórter).
Gabi devora uma coxinha com a voracidade de quem não come há meses.
A paz durou exatos trinta segundos.
Uma voz alta, anasalada e estridente muito familiar quebrou o silêncio do lanche.
— FOFUXAAAAAAAAA!
As duas se viraram em uníssono, quase derrubando as xícaras.
Vanessa fecha os olhos, pedindo paciência a Deus.
Gabi se vira com a boca cheia de frango e catupiry.
Parado ali, como uma aparição saída de um filme nerd dos anos 80, estava ele, para alegria de muitos.
O Geek Gamer galanteador Valtinho.
Camisa polo gola rolê (no Rio, 40 graus), calça skinny que desafia a circulação sanguínea e aquele... volume proeminente, quase arquitetônico, marcando o tecido da calça apertada.
Gabi corou, sem jeito, mas com uma irritação visível.
(Boca cheia)
— Valtinho?! Seu putinho safado!
Já Vanessa tentou, uma, duas, mais na terceira não conseguiu esconder o seu olhar e novamente visualizou a parte mais chamativa dele.
(PENSAMENTO):
- Senhor da Glória...
- Será que ele usa enchimento? Parece uma anaconda embrulhada a vácuo.
Valtinho, alheio ao constrangimento anatômico, se aproximou do balcão próximo de Vanessa com uma animação efusiva.
— E aí, Ruivinha? Fez o reboot no sistema?
— A interface gráfica tá mais amigável hoje, hein? Upgrade no visual!
— Da última vez, tu tava dando tela azul da morte. Bad gateway.
Como sempre provando ela, Valtinho referindo-se ao "crash" emocional dela na última vez que se viram.
Vanessa olhou para o horizonte, fingindo desinteresse, ela focou em uma mancha de infiltração na parede, evitando contato visual.
— Oi, Valtinho.
— E você continua sendo um spam humano.
Gabi o fuzilou com os olhos.
— Não muda de assunto, seu cretino!
— Tu me deu um bolo, moleque! Fiquei te esperando igual uma otária e tu nem mandou um zap!
Valtinho fez uma cara de cachorro pidão versão TI.
— Gordinha, eu expliquei! Deu crash total no servidor!
— O mercado cripto deu Beyblade, girou pro lado errado! Tive que virar a noite fazendo damage control pra um cliente VIP.
- Foi hardcore, nível Dark Souls sem escudo.
Narrador
(A ironia passou batida por elas, mas o destino riu. O "cliente" era justamente o homem que elas procuravam desesperadamente.)
Gabi que não e de guarda magoas aceitou as desculpas de seu crush
— Tá bom, tá bom... Eu te perdoo.
— Mas com uma condição: paga o meu lanche e o da Vanessa, meu King Hacker.
Narrador
(Será que foi pelo perdão ou pelo magnetismo daquela calça apertada? O mistério permanece.).
Enquanto Valtinho chamava o atendente com gestos exagerados.
Vanessa sussurrou para a amiga com um ar de reprovação.
— Gabi, tu não tem vergonha na cara?
— O moleque é um nerd tarado. Deixa de ser galinha!
GABI(Beijinho no ombro)
— Aceita que dói menos, Ruiva.
- O software é bugado, mas o hardware... ah, o hardware promete.
Gabi, já terminando a segunda coxinha, limpa a boca com o guardanapo e encara o Valtinho.
— Mas vem cá, Totozinho seu canalha...
— O que tu tá fazendo perdido aqui na zona norte?
- Tu não é bicho de carpete de escritório?
VALTINHO
— Negativo, Gordinha! O pai é field support também!
— Tá vendo aquela Gráfica caindo aos pedaços ali na frente?
— Tô refazendo toda a parte sistêmica deles. O servidor deles era movido a lenha, ping de 900ms.
- Vim aqui farmar um lanche na hora do almoço.
Vanessa revira os olhos, incrédula com a coincidência.
(PENSAMENTO)
"Sério isso, Destino?
O mundo acabando e você me joga o Valtinho na mesma calçada?"
Valtinho aproveitou o momento do encontro se aproximou de Vanessa apoiando-se no balcão e largou a pergunta, assim seco na lata.
— Mas e aí, Ruiva... Se liga.
— Deixa eu te perguntar uma parada séria
O movimento de se debruçar projeta o "volume peculiar" da calça skinny perigosamente perto do quadril de Vanessa.
Vanessa recua num pulo, se afastando do perigo eminete, rosto misturando nojo e pânico social.
— AI! AFASTA!
— Tira essa... coisa de perto de mim, Valtinho! Respeita o espaço aéreo!
Gabi gargalhada, quase engasgando com a Coca-Cola, se divertindo com o sofrimento da amiga. Valtinho fica sem entender, com cara de inocente.
Narrador
O encontro mais improvável (e constrangedor) do dia estava apenas começando.
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A Coordenada da Raid
Valtinho percebeu o desconforto de Vanessa (ou talvez apenas quisesse voltar ao assunto que lhe interessava).
Ele mudou o tom, deixando a anatomia de lado e focando na missão.
— Mas papo reto agora, clã...
— Vocês encontraram o JC? Conseguiram trackear o alvo?
A pergunta pegou Vanessa desprevenida.
Ela parou de olhar para a infiltração na parede e se virou, ainda evitando o contato visual direto com a região pélvica dele.
— Não. Ainda não.
— Por que a pergunta, Valtinho? O que você sabe?
Gabi para de mastigar.
A coxinha fica suspensa no ar. Os olhos dela brilham.
— Valtinho... não brinca com meu coração bandido.
— Tu achou ele? Diz que sim, meu Totozinho!
O rosto de Valtinho se iluminou com a alegria pura de quem detém acabou de dropar o item lendário na raid.
Ele ajeita os óculos, saboreando o momento.
— Então... Que dia é hoje mesmo?
Gabi
— Dia 19, inferno! Fala logo!
Vanessa
— Valtinho, o que o calendário tem a ver com o caso?! Desembucha!
Valtinho levanta a mão para o atendente, fazendo uma pausa dramática insuportável ele faz um breve mistério, pra criar um pequeno suspense, mais em seguido faz a revelação.
— Calma, o loading tá em 99%...
— Ô Guerreiro! Me vê um suco de caju aí, no capricho! Sem açúcar!
(pausa dramática)
Gabi e Vanessa em um verdadeiro estagio de nervos galopantes
Vanessa perde a paciência.
Ela agarra a gola da camisa dele (evitando olhar para baixo).
— Fala logo, sua praga!
— Ou eu te castro aqui mesmo com essa faca de pão!
Valtinho ri, se soltando.
Ele pega o celular.
— Agressiva... Gosto assim.
— Fiz contato com ele no chat privado.
- Amanhã à noite, dia 20, vai rolar uma Resenha.
- Churrasco, cerveja e skin nova.
- E ele confirmou presença.
Um close-up no rosto de Vanessa mostrou a batalha interna.
A esperança lutava contra o ceticismo calejado de repórter.
Vanessa estreita os olhos.
— Sério? Ou isso é mais um glitch na sua cabeça, Valtinho?
— Igual da outra vez que vocês nos deixaram plantas no bar?
Valtinho riu, ofendido com a insinuação de lag.
Então ele mostra a tela do celular um print de conversa de WhatsApp confirmando dele na presença na resenha.
MENSAGEM DE JC: 'Bora sim, mané. Amanhã 20h tô lá. Levo a carne.
— Nananinanão! Dessa vez é feature, não é bug!
— O cara-de-concha tá confirmado. Amanhã, às 20h. Mando a coordenada do mapa pro GPS da Gordinha.
Narrador
" Valtinho era bobo, mas não era burro. Ele não passou o número. Não passou o endereço exato agora. Protegia o amigo até ter certeza de que não era uma trap."
Vanessa sabendo da lealdade de Valtinho sabe que ele não ligaria e nem passaria o contato do amigo, então suspirou aliviada, sentindo um peso sair de seus ombros.
(PENSAMENTO)
" Se for verdade... Se ele estiver mesmo lá...
É o meu Pulitzer. É a minha chance."
Eles tinham um horário. Tinham um local.
Amanhã à noite, a caçada terminaria.
Ou começaria de verdade.
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A Ameaça e o Conselho de Moda
Gabi, numa explosão de euforia (e hormônios), agarra Valtinho pelo colarinho e lasca um beijo estalado e barulhento na boca dele.
Valtinho está com os olhos arregalados, pego de surpresa pelo "ataque".
Vanessa observa ao fundo, com uma expressão de "Jesus, apaga a luz".
GABI
— Mwah! Tu é o cara, Totozinho! Sabia que não ia me deixar na mão!
Close no rosto de Gabi, bem próximo ao ouvido de Valtinho.
O sorriso dela é sedutor, mas o olhar é de psicopata pois ela segura a orelha dele com carinho, mas com força suficiente para doer um pouquinho.
GABI(Sussurro)
— Mas papo reto agora, meu "player one"... Se tu der logoff e não aparecer...
— A fonte seca, tá ligado?
- Nunca mais tu encosta nesse loot aqui.
- É Game Over permanente, sacou? Banimento do servidor da Gabi.
Valtinho, suando frio mas com um sorriso de quem ganhou na loteria, faz um sinal de "joinha" trêmulo.
Gabi já está se afastando, arrastando Vanessa pelo braço.
VALTINHO
— C-copiado e validado, Fofuxa!
— A quest é prioritária! Sem AFK, sem lag! O pai tá online!
As duas caminhando para a saída da Lanchonete.
Gabi puxa Vanessa com urgência, cheia de energia.
Vanessa, porém, freia o passo, virando o pescoço para trás.
GABI
— Bora, Ruiva! Mission Complete!
— A gente tem um nome e eu tenho um esquema pro fim de semana! O placar tá 2 a 0 pra nós!
VANESSA
— Espera aí, Gabi. O jornalismo exige apuração, mas também exige... bom senso estético.
Vanessa se vira para Valtinho uma última vez.
Seu olhar é sério, analítico, de quem está dando uma notícia de calamidade pública.
Ela aponta discretamente para a região inferior dele.
VANESSA
— Valter, uma nota de rodapé pra você...
— Amanhã, vê se usa uma calça que permita a circulação sanguínea, tá? Pelo amor de Deus... Ninguém merece ver o "detalhe" em 4K.
- É uma questão de utilidade pública.
Exterior da Lanchonete.
As duas já na calçada.
Vanessa ainda olha para trás, desconfiada, ajeitando a bolsa.
Gabi está radiante.
VANESSA
— Gabi, tu tem certeza que esse garoto é fonte confiável?
— O cérebro dele parece que tá sem oxigênio por causa daquela calça...
GABI
— Relaxa o sutiã, mulher! O Totozinho é bizarro, mas entrega o ouro!
— E na moral? Tu tá precisando é descomprimir, amiga.
- Chega dessa energia de obituário!
- A noite é uma criança e a gente é o brinquedo!
De volta ao interior da lanchonete.
Valtinho está sozinho no balcão, segurando seu suco, com aquela cara de bobo apaixonado.
Ele olha para baixo, analisando a própria virilha com genuína curiosidade científica, como se fosse um bug no sistema.
— Ué...
— O hitbox tá tão grande assim?
Close em Valtinho dando uma risadinha nervosa e anasalada, coçando a cabeça, enquanto toma um gole do suco pelo canudinho.
— Hneh-hneh-hneh...
— Acho que eu dei muito zoom na textura... Tenho que recalibrar o equipamento.
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A Porta do Mistério
De uma Lanchonete na Zona norte para uma Loft na Zona sul.
JC diante do monitor.
A luz azul da tela reflete em seu rosto, que agora exibe um sorriso de alívio genuíno Ele se recosta na cadeira de design caro, o peso do mundo saindo de seus ombros.
— Valtinho... tu é monstro demais, seu sacudo.
— Salvou minha pele.
- O respawn tá garantido.
Ele girou na cadeira, eu viu um rosto bem familiar
Vemos DONA VERA (50 anos, uniforme impecável, expressão de quem já viu de tudo na vida, típica "tia" carioca que resolve tudo).
Ela está passando um pano num móvel, de volta à rotina.
Dona vera – Diarista pessoa humilde na casa dos 50 anos, ela ficou um tempo sem aparecer pois JC esta quebrado, pois ela vem 2x por semana para cuidar dos afazeres domésticos.
Narrador
" A conta bancária voltou ao azul. A rotina tenta voltar ao normal. Dona Vera, minha fiel escudeira, tá de volta. O dinheiro acabou, ela sumiu. O dinheiro voltou, ela apareceu. O ecossistema financeiro do Rio é implacável."
Mais nem tudo eram flores o sorriso e alegria deram lugar a um sentimento de preocupação.
Diante dele, a realidade gritava.
Dois PEDREIROS estão trabalhando no batente da porta. A parede de alvenaria ao redor está estourada, tijolos expostos, ferro retorcido.
Há pó de gesso no ar.
Não parece uma porta arrombada, parece que um canhão foi disparado de dentro para fora.
SFX (Pedreiros)
TOC! TOC! RAAASP!
Dona Vera para o serviço, apoiada na vassoura, olhando para o estrago com aquele olhar analítico e preocupado de mãe. JC está de pé, mãos nos bolsos, tentando parecer casual diante do caos.
DONA VERA
— Misericórdia, Seu João... Olha o estado dessa parede. Parece zona de guerra.
— Isso foi assalto, meu filho? Entraram aqui pra levar o que?
— O Rio de Janeiro não tá pra amador mesmo...
Era um lembrete físico e brutal de uma noite que sua memória insistia em apagar.
JC disfarça, coçando a nuca, evitando olhar diretamente para o buraco na parede o medo está nos olhos dele, mas a voz tenta manter a pose de "tá tudo sob controle".
— Que nada, Dona Vera... Nem te conto.
— Acho que foi infiltração na estrutura, sei lá... Acordei e tava esse B.O. aí. O condomínio já tá resolvendo.
— Fica tranquila que a segurança tá reforçada.
Ele encara as palmas das próprias mãos.
Estão limpas, lisas, sem um único arranhão ou calo.
Ao fundo, desfocado, vemos o buraco arrombado na parede de tijolos.
O contraste é gritante: mãos de pianista vs. destruição bruta.
(PENSAMENTO)
" Infiltração... é a melhor desculpa que eu consegui inventar.
Porque a verdade? Eu não faço a menor ideia do que rolou aqui.
Eu olho pra esse rombo na parede... parece que um animal tentou sair na unha."
A euforia da riqueza súbita foi contaminada por um medo gelado, profundo, do desconhecido que habitava seu próprio corpo.
(PENSAMENTO)
" Mas aí eu olho pra minha mão... e ela tá zerada.
Se fui eu que fiz isso num surto... não devia ter pelo menos um osso quebrado? Nada faz sentido".
JC chuta um pedaço de reboco no chão, frustrado.
A expressão dele muda de confusão para uma ansiedade crescente.
(PENSAMENTO)
"Minha cabeça tá um blackout total. A última coisa que eu lembro é de sair dirigindo com raiva... e depois acordar no lixo. O resto é vulto."
Ele tateia os bolsos da bermuda, procurando algo que deveria estar ali,
(PENSAMENTO)
" E tem outra coisa me incomodando...
Aquela cápsula dourada. Eu tava com ela no bolso. Tenho certeza. Onde foi parar aquela merda? Sumiu junto com a minha memória?"
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O HD do Nerd
De volta Lanchonete, a solidão do balcão e a frescos do suco gelado começaram a fazer efeito no em seu cérebro hiperativo.
Valtinho está sentado sozinho no balcão da lanchonete.
Ele suga o finalzinho de um suco de caju pelo canudo, fazendo aquele barulho irritante (slurp).
O olhar dele está vidrado no nada, processando informações.
(PENSAMENTO)
"O sistema esfriou. O cooler tá rodando liso com esse suco de caju. Mas tem um bug rodando em background na minha cachola...
Por que raios a Ruiva Hot e a Fofuxa querem tanto achar o "sumido" do JC?"
Um sorriso malicioso de canto de boca aparece.
A mente dele projeta uma janela de navegador mental (imaginária).
"A navalha de Ockham sugere a explicação mais biológica...JC é boa pinta (tenho que admitir, no ranking de skins, ele tá no tier A). A Ruiva é um espetáculo da natureza.
Será que deu Match no Tinder da vida real? Uma quest de acasalamento?
Hehehe..."
A expressão de Valtinho muda subitamente.
O sorriso malicioso dá lugar a uma sobrancelha erguida, analítica.
A lógica gamer encontra uma falha no roteiro.
Valtnho (sussurro)
- Error 404. Lógica não encontrada.
- A variável "Gabi" quebra essa equação.
- Se fosse só rala e rola, a Gordinha não tava no bonde.
- Aquela ali é Hardcore. É "pika", como dizem os NPCs da Baixada.
- Ela não gasta mana em missão de romance à toa.
Valtinho tem um espasmo de riso, soltando sua gargalhada característica e anasalada. Na banco ao lado, um cliente toma um susto e olha feio para ele.
— Hneh-hneh-hneh...
- Aí tem... O plot tá ficando espesso.
Uma visão estilizada de dentro da cabeça dele, como se fosse um servidor piscando freneticamente.
O açúcar do caju bateu no cérebro.
É o "Overclock".
(PENSAMENTO)
"HD Hard no talo. Processando 1GB de probabilidades por segundo.Não é romance.
É dívida? É treta de guilda? É B.O. federal?
O cenário tá mudando de Dating Sim pra Survival Horror..."
Valtinho se levanta, deixando o dinheiro no balcão, com uma cara de satisfação suprema.
Ele ajeita os óculos, sentindo-se o dono do tabuleiro.
(Sussuro)
- Seja lá o que for... a "resenha" de amanhã acaba de virar o evento canônico do ano.
- E eu, como bom Dungeon Master, vou estar na primeira fila pra ver os dados rolarem.
- Bora pro lobby.
- O jogo começou.
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A Bomba-Relógio da Redação
NARRADOR:
"O ar-condicionado central da Rede News zumbia, mas não dava conta de resfriar o medo.
A sala de reuniões cheirava a café requentado, nicotina e o odor azedo de carreiras prestes a serem destruídas.
Ivan, na cabeceira, tentava segurar as pontas de um império feito de vidro, prestes a ser estilhaçado por uma pedra chamada Mauro Magnus."
Som ambiente de escritório tenso, cadeiras rangendo, um pigarro nervoso, o barulho ritmado de um isqueiro Zippo abrindo e fechando ao fundo.
Ao redor dele, a equipe — repórteres, editores, cinegrafistas e Produtores — o encarava com expressões que variavam da preocupação legítima ao pânico puro.
IVAN:(Seco, rápido, sem enrolação)
— Pessoal, atenção aqui. O overview é o seguinte: estamos sofrendo um backlash gigante de todos os stakeholders.
- O jurídico tá em pânico e a verba de patrocínio foi cortada.
- Precisamos de um turnaround imediato na estratégia, ou vamos ter que descontinuar a operação.
GABI: (Interrompendo, voz debochada e alta)
— Ih, corta o papo de coach, Ivan! Fala a língua da favela pro povo entender: a casa caiu, gente!
(Olha pra equipe)
— Se a gente não botar no rabo do Magnus agora, já era. É rua, é game over, é fila do seguro-desemprego.
- Sacaram ou quer que eu desenhe com giz de cera?
Ao fundo, isolada como uma ilha no meio da tempestade, Vanessa fumava perto da janela, de costas para a reunião, olhando para o nada.
IVAN (Tenso, ignorando o jeito dela)
— O ponto é que agora ele virou um asset estratégico do Governo Federal.
- O homem tá blindado. Tentar um approach frontal agora... é suicídio corporativo.
- Mas não temos Plan B. É all-in.
Murmúrios crescentes, barulho de gente se mexendo desconfortável, vozes sobrepostas de medo).
REPÓRTER 1 (Voz trêmula):
— Como, Ivan?! O cara é intocável!
REPÓRTER 2 (Exaltado):
— Mexer com ele agora é comprar briga com o Planalto, porra! Cês tão malucos? Isso é pedir pra morrer!
Ivan perde a postura polida.
Ele olha para o fundo da sala, onde a fumaça sobe.
(Gritando, apontando pro fundo)
— VANESSA! Porra, meu! Sai desse transe! A gente precisa do teu know-how aqui! Acorda!
(Silêncio súbito na sala. Apenas o som da tragada do cigarro).
VANESSA:(Voz fria, distante, de quem já viu o inferno)
— ... Oi? Ah. O Magnus.
(Pausa longa, soltando a fumaça)
— O Magnus... Ele não é gente. Ele é um monstro. Literalmente.
GABI (Balançando a cabeça, voz de pena)
— Ruiva, garota... vira o disco. Essa bad vibe já deu, né? Volta pro mundo dos vivos.
EDITOR-CHEFE (Voz de velho cansado, grave e respeitosa):
— Ivan... veja bem. A gente respeita o legacy da sua família, a história da Rede News... mas se a gente não mudar o foco dessa pauta, o barco afunda.
CINEGRAFISTA VETERANO (Carioca antigo, desesperado):
(Interrompendo, batendo na mesa)
— Ivan, na moral? Eu tenho cinquenta anos nas costas.
- Não vou voltar a filmar casamento pra pagar boleto. Se for pra afundar, avisa logo que eu pulo fora!
NARRADOR:
"Aí o dique estourou. O medo virou histeria. Ninguém ali tava preocupado com a ética jornalística. Tavam com o cu na mão. A sala virou um hospício."
Gritaria generalizada, socos na mesa, cadeiras arrastandoVOZES DA REDAÇÃO (Tudo ao mesmo tempo/Caos):
VOZES (Sobrepostas, gritadas):
— VÃO CASSAR A CONCESSÃO DA TV!
— FODEU! ACABOU!
— QUEM VAI PAGAR A PENSÃO DOS MEUS FILHOS, IVAN?!
— O MAGNUS VAI ACABAR COM A GENTE!
— É O FIM DA LINHA, MERMÃO!
— O MAGNUS VAI MANDAR MATAR GERAL!
— NÃO TEM COMO LUTAR CONTRA O SISTEMA!
IVAN:(No meio do furacão, tentando impor ordem)
— SILÊNCIO! PLEASE! VAMOS MANTER O DECORO, CACETE!
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O Preço do Legado
NARRADOR:
" O Ivan tentava apagar incêndio com cuspe enquanto Vanessa seu Crush/Braço direito ainda está fora de combate. O pânico já tinha tomado conta mais ele pedia calma, mas ninguém ouvia um capitão que não sabe pra onde o barco tá indo."
Caos generalizado, vozes sobrepostas de medo.
(Passando a mão no rosto, voz cansada mas polida)
— Pessoal, por favor... Vamos manter o nível, tá? Sem histeria. A gente precisa ter frieza pra analisar o big picture. Calma lá, meu.
Então foi no momento mais crítico que um som explosivo surgir da pessoa mais improvável.
PAAA-LÁ! Uma palmada violenta na mesa de madeira maciça. O som corta o ambiente seco).
GABI (A Potência da Baixada):
— Ô CARALHO! VAMOS PARAR COM ESSE PUTA SHOW DE HORRORES AGORA!
(Silêncio total. Gabi levanta, impondo respeito com o corpo.)
GABI:
— Acabou a palhaçada! Isso aqui não é a porra da creche, não! É empresa séria, cacete! Cês tão achando que tão aonde? No circo?
(Ela respira fundo, ajeita o decote e baixa o tom, perigosa e sarcástica.)
GABI:
— O papo é o seguinte, amores: TEMPO TÉCNICO.
- Vão beber uma água, tomar um Rivotril, bater uma no banheiro, sei lá! Só sumam da minha frente e voltem quando tiverem virado gente. RALA! VAZA DAQUI!
Todos olharam espantados a reação da pessoa mais goodvides da redação e ficaram atônitos.
(Em seguida: Som de cadeiras arrastando, passos rápidos no corredor, murmúrios cessando. Porta batendo. Silêncio. Só sobra o som do ar condicionado).
Após a confusão Ivan desabou na cadeira de couro, escondendo o rosto entre as mãos, como se tentasse fisicamente segurar a cabeça para ela não explodir.
(Ivan solta o ar preso, desabando na cadeira de couro. O som do couro rangendo com o peso dele).
IVAN:(Voz abafada, séria)
— Puta que pariu... Obrigado, Gabrielle. Literalmente... você salvou a minha pele.
- Se não fosse esse seu... jeitinho, eu tinha perdido o controle da operação.
(Passos de Gabi se aproximando. Som de tapinha camarada no ombro dele).
(Gabi se aproxima, dá um apertão gostoso no ombro dele, quase uma massagem.)
GABI:(Sussurrando, voz cheia de malícia)
— Relaxa, Chefinho. Cê sabe que comigo o buraco é mais embaixo.
- Mas ó... isso aí vai te custar caro, hein? Tô aceitando pagamento em espécie... ou em natureza, se é que tu me entende.
IVAN: (Levanta a cabeça, solta um riso nervoso, meio sem graça)
— Gordinha... você é uma figura.
- Uma baita figura. Só você pra me fazer rir numa situação de merda dessas.
(O clima pesa. O som de isqueiro da Vanessa estala no fundo, lembrando que ela está lá).
IVAN:(Mudando o tom. Voz grave, sussurrada, confidencial)
IVAN: (Voz grave, confidencial, tom de lamento)
— Gabi, o negócio é muito mais complexo do que parece. O buraco no caixa... é um abismo, meu.
(Aponta pros quadros na parede)
— Tá vendo o Sr. Jorge e o Sr. Evaldo?
GABI:
— Lendas, né? Teu pai e teu avô. Respeito máximo pela velha guarda.
IVAN:(Balançando a cabeça, amargo)
— Lendas no jornalismo, Gabi. Mas na gestão financeira? Um desastre completo.
(Ele se inclina, voz baixa)
— O velho me deixou um passivo gigantesco.
- Eu tô alavancado até o pescoço pra manter essa estrutura de pé.
- Hipoteca, banco, factoring... eu tive que recorrer até a agiota pra fechar o cash flow do mês passado.
- Eu tô literalmente andando no fio da navalha, entende?
GABI:(Arregala os olhos, genuinamente surpresa)
— Caralho, Ivan... Eu não sabia que o bicho tava pegando desse jeito.
- Tu tá fudido de verde e amarelo, hein?
(Ivan olha pra Vanessa de novo. A frustração vira ódio de quem tá pagando a conta sozinho.)
IVAN:(Levanta, perdendo a classe paulista, vermelho de raiva)
— E PRA PIORAR O SCENARIO, A MINHA MELHOR PEÇA... TÁ LÁ, BRINCANDO DE ESTÁTUA!
(Ele grita na direção dela, veia saltada no pescoço.)
IVAN:
— ELA TÁ TRAVADA NESSA VINGANÇA PESSOAL IDIOTA! PORRA, VANESSA! ACORDA PRA VIDA, MEU!
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Justiça vs. Vingança
NARRADOR:
"O grito do Ivan serviu de gatilho. E a resposta veio sem filtro, direto na jugular."
[SPLASH PAGE: O CONTRA-ATAQUE]
O grito de Ivan mal tinha terminado de ecoar quando a resposta veio, rápida e letal.
Vanessa se virou da janela como um raio, O cigarro caindo no chão. Passos rápidos e agressivos de salto batendo no piso.
O transe apático tinha evaporado, substituído por uma fúria incandescente, muito mais perigosa que a de seu chefe.
Seus olhos, antes vazios, agora queimavam com uma mistura tóxica de dor, luto e ódio puro.
Ela apontou um dedo trêmulo, acusador, na direção de Ivan.
VANESSA (A Repórter Ferida e Furiosa - Gritando, voz rouca, rasgada de ódio)
— VINGANÇA?!
(Ela avança, derrubando uma cadeira no caminho.)
— Tu tá de kaô com a minha cara, Ivan?! Isso não é uma "pauta sensacionalista", porra! Meus companheiros morreram!
(A voz falha, embargada, mas volta com mais força)
— Isso não é "pauta furada", mermão! Meus amigos morreram! Eu vi brother meu virar carne moída na minha frente! Aquilo lá não foi acidente, foi sacanagem das brabas! Foi execução, porra!
(Ivan tenta abrir a boca, mas ela atropela.)
VANESSA:(Apontando o dedo na cara dele)
— Baixa a bola que eu tô falando! Isso não é vingancinha de novela, seu playboy de merda! É JUSTIÇA! É o certo pelo certo!
(Ela chega bem perto, encarando fundo)
— Coisa que tu, aí sentado nessa cadeira de couro que o papai te deu, preocupado com o teu dinheirinho, já esqueceu faz tempo o que é!
- Tu perdeu a moral, Ivan! Cadê o jornalismo de verdade, caralho?! (
Ela passa por eles como um furacão. Gabi tenta segurar, mas desiste.)
VANESSA: (Já na porta, sem olhar pra trás)
— Quer saber o papo reto? VAI PRA PUTA QUE PARIU, VOCÊ E ESSE TEU IMPÉRIO FALIDO!
SLAM! A porta bate com uma violência absurda. Vidros tremendo. O silêncio volta pesado, zumbindo no ouvido.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Ivan ficou de pé, estático, a cor drenada do rosto.
A raiva tinha evaporado, deixando apenas o gosto amargo do arrependimento e a humilhação das verdades que Vanessa cuspiu.
Gabi estava no meio da sala, os braços levemente erguidos num gesto inútil de mediação que nunca aconteceu.
Ela olhava da porta fechada para Ivan, os olhos arregalados, paralisada no meio do fogo cruzado.
(Ivan está branco. Gabi está paralisada no meio da sala, olhando de um pro outro.)
IVAN:(Voz sumida, chocado, engolindo em seco)
— ...
GABI:(Sussurrando, chocada)
— Caralho... A ruiva jantou você com farofa, Chefinho. E o pior... ela tá certa.
NARRADOR:
"A equipe, que tava unida pelo medo de perder o emprego, agora tava rachada pelo ódio. Gabi olhava pra porta fechada e pro chefe pálido, sem saber quem salvar primeiro. O barco não tava só afundando... ele tava pegando fogo."
