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Chapter 7 - Arco 2: A QUEDA, Edição #5: O RENASCIMENTO pt2

Parte 2

PÁGINA 16

O Brilho da Perdição

No laboratório principal, a atmosfera era de triunfo.

O ambiente é high-tech, frio e limpo.

No centro, uma projeção holográfica gigante de uma molécula complexa gira lentamente no ar.

O holograma emite uma luz dourada, quase sagrada.

O Dr. Marcos e a Adriele estão diante dela, banhados por esse brilho.

Era a molécula do novo SORO GÊNESIS .

Diferente das tentativas anteriores, instáveis ​​e caóticas, esta girava suavemente, brilhando com uma luz dourada hipnotizante.

Close no rosto do Dr. Marcos. Ele não sorri; ele está em êxtase religioso. Os olhos dele devoram os dados. A soberba de gênio transborda.

— Sublime...

— Simplesmente sublime.

— Fantástico!

Adriele cruza os braços.

Ela entende de matar, não de química molecular.

Ela franze a testa, com aquele tom debochado e prático de sempre.

— Tá bom, Doutor Frankenstein...

— Traduz pra quem não fala "nerdiquês".

- O que é que tem de tão fantástico nessas luzinhas girando?

 

 

Marcos aponta para o holograma com mãos trêmulas de empolgação.

Ele fala como se explicasse o fogo para um homem das cavernas.

— Olhe, minha querida. Olhe a estabilidade!

— Essas novas ligações de enzimas proteicas que a Herika inseriu... Elas agem como âncoras biológicas.

— Antes, a estrutura colapsava sob pressão. Agora? Ela se adapta.

- É muito mais eficaz do que qualquer simulação que eu já rodei.!

A câmera "entra" na molécula.

Vemos a dupla hélice perfeita, dourada, pulsando com energia vital controlada.

Sem falhas.

Sem erros.

Uma arquitetura divina criada por mãos humanas.

Era uma arquitetura biológica divina.

Marcos caminha ao redor do holograma, admirando sua "obra-prima" (sem saber que é um Cavalo de Troia).

— A nova metodologia de sequenciamento que aquela garota aplicou...

— Deixou o GÊNESIS num estágio de pureza absoluta.

O reflexo dourado brilha nos óculos do Doutor.

— É estável. É potente.

— É quase... perfeito.

 

 

 

 

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A Sentença de Morte

A cena mudou.

A imagem é levemente distorcida, como uma memória bêbada. Foco na mesa da Torcida Organizada. Garrafas de cerveja, braços tatuados, testosterona transbordando. O Careca (no passado) aponta o queixo para o balcão.

CARECA (VOZ OFF - NO PRESENTE)

— A gente tava na paz, Doutor. Comemorando a goleada.

— Mas o destino... ah, o destino gosta de pregar peça.

Voltamos àquela noite fatídica no Alquimia Urbana.

CARECA (NO PASSADO)

— Saca só o comédia lá no balcão.

— Deve ser da torcida das frangas que a gente amassou hoje. Tomaram de quatro e tão aí, chorando as mágoas.

Um dos comparsas (rosto brutal, camisa de time) dá de ombros.

— Esquece esse bucha, Chefe.

— Deixa o mané chorar no cantinho dele. Bora beber que hoje o Rio é nosso, porra!

Eles voltaram a erguer os copos, mas a celebração foi cortada no ar como se alguém tivesse desligado o som do ambiente.

Um grito arrastado, furioso e carregado de álcool explodiu do balcão.

— POR QUE ESSA MERDA DE ALEGRIA?!

— É SÓ A PORRA DE UM JOGUINHO IDIOTA! VOCÊS SÃO DOENTES?!

O silêncio caiu sobre a mesa dos torcedores como uma bigorna.

Todos os seis pararam instantaneamente.

Doze olhos frios se voltaram para JC.

A atmosfera do bar congelou.

Um dos torcedores, talvez o único com um pingo de sensatez naquela noite, fez um sinal discreto para o Líder.

— Deixa quieto, Mano.

— O playboy tá muito louco. Não vale o B.O.

JC, ignorando completamente o perigo mortal que acabara de convocar, baixou os olhos para suas mãos.

Ele segurava a cápsula dourada do Gênesis, que tirara do bolso.

O brilho hipnótico do líquido parecia ser a única coisa real em seu mundo de dor.

(Sussurro)

— Que droga é você...?

— Será que você apaga isso tudo?

Vendo que o "playboy" parecia ter recuado para sua própria miséria, os torcedores decidiram que a humilhação era o melhor castigo.

Voltaram a comemorar, mas agora o volume era uma arma, uma provocação direta direcionada ao balcão.

TORCIDA (CORO)

— QUATRO A ZERO! QUATRO A ZERO!

— CHORA, PLAYBOY! CHORA, OTÁRIO!

 

 

 

Foi o ponto de não retorno.

JC se levantou.

Seu corpo balançava, traído pela bebida, mas seu rosto se fixou numa máscara de ódio puro. Ele apertou a cápsula dourada com força, como se ela fosse um talismã que lhe desse a coragem — ou a estupidez — necessária.

— De quatro, é? Hahaha...

— Vocês gostam de quatro, né?

A voz dele subiu uma oitava, carregada de todo o veneno que ele guardava para o pai, mas que agora seria despejado nos alvos errados.

A frase saiu rasgada, a mais provocadora e suicida possível:

— DE QUATRO SÓ SE FOR NO RABO DE VOCÊS!

— SEUS VIADINHOS DE MERDA!

Na mesa do fundo, a alegria sumiu instantaneamente.

Não havia mais risadas.

Não havia mais cantos.

Em seu lugar, restou apenas uma promessa silenciosa e unânime de violência mortal.

Lentamente, como predadores que acabaram de receber o sinal de ataque, os seis homens se levantaram da mesa.

CARECA (VOZ OFF - NO PRESENTE)

— Aí não teve jeito, né, Doutor?

— O playboy pediu a conta.

- E a gente fez questão de entregar.

 

 

 

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O "Remedinho" Amargo

A explosão foi imediata.

Antes que JC pudesse processar o tamanho do erro que cometera, os seis torcedores o cercaram como uma matilha.

Mãos fortes o agarraram pelo colarinho, pelos braços, prensando-o violentamente contra a madeira dura do balcão.

O Líder colou o rosto no dele, o hálito de álcool e ódio queimando a pele de JC.

— Repete, playboy.

— Fala de novo na minha cara.

- Se tu for homem.

Mesmo imobilizado, bêbado e com o instinto de sobrevivência gritando alerta vermelho, a raiva de JC ainda falava mais alto que o bom senso.

Ele cuspiu as palavras:

— Vão... pra puta que pariu...

— Vocês e esse timinho de merda.

A resposta foi física e impiedosa.

Um dos torcedores agarrou o braço direito de JC e o torceu para trás num ângulo antinatural, com uma força selvagem.

O rosto de JC se contorceu instantaneamente numa máscara de pura agonia.

— AAAAHHHH!!!

— MEU BRAÇO! CARALHO, SOLTA! TÁ QUEBRANDO!

O grito dele rasgou o bar, mas ninguém se moveu para ajudar.

 

Foi então que o Líder o careca notou o objeto que JC ainda tentava proteger na outra mão.

A cápsula dourada brilhava, inocente e perigosa.

Um sorriso sádico se formou nos lábios do Careca o lider. Uma ideia doentia surgiu.

— Opa... Que brilho é esse aqui?

— Hehe... Olha só, rapaziada.

O Careca segura a cápsula dourada contra a luz. Um sorriso maligno se forma.

— O maluco tá falando bosta porque esqueceu de tomar o remedinho dele...

— Segurem a boca desse otário aberta! Vamos ajudar o menino a se medicar.

SEGUREM BEM ESSE OTÁRIO!

O terror substituiu a dor no rosto de JC.

Ele percebeu a intenção.

— NÃO! NÃO FAZ ISSO!

— ISSO NÃO É DROGA! NÃO É REMÉDIO! PELA MORDEDEUS, NÃO!

Mas a súplica foi ignorada.

[SOM DE OSSO QUEBRANDO: KRRRRAK!]

O torcedor aplicou uma última torção, definitiva.

O som seco e repugnante do úmero de JC se partindo ecoou pela sala.

JC abriu a boca num grito agudo, primitivo, de dor absoluta.

Era exatamente o que o Líder queria.

Aproveitando a mandíbula escancarada pelo grito, ele enfiou a cápsula dourada goela abaixo, forçando-a com os dedos grossos até que JC engasgasse e engolisse o objeto estranho.

CARECA

— Engole, porra!

— Engole tudo pro papai!

Ao redor, os outros clientes assistiam à cena paralisados pelo horror, desviando o olhar, cúmplices pelo silêncio.

Ninguém ousava enfrentar a fúria da torcida.

Apenas o dono do bar, um senhor de idade, indignado, teve coragem de gritar de trás do balcão, batendo a mão na madeira.

— EI! CHEGA DESSA ZONA!

— Querem se matar, vão lá pra fora! Tirem essa merda do meu bar agora! Sumam

 

 

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O Beco da Agonia

O Líder da torcida nem piscou diante dos gritos do dono do bar.

Lançou apenas um olhar de puro desprezo e fez um gesto seco com a cabeça para seus homens.

A ordem estava dada.

O show não tinha acabado, só ia mudar de palco.

CARECA

— O veio tá estressado.

— Bora levar o lixo pra fora. A festa continua no VIP.

Eles arrastaram JC para fora como um animal para o abate.

Seus gritos de dor pelo braço quebrado foram abafados pelas mãos brutas que o puxavam para a escuridão.

O destino era um beco sujo e mal iluminado atrás do bar, onde as luzes da cidade não alcançavam e a "justiça" da rua imperava.

Um dos torcedores segurou JC por trás, travando seus movimentos. O Careca Lider se aproximou, o rosto agora despido de qualquer deboche, restando apenas a fúria fria de um executor.

— Acabou a gracinha, playboy.

— Tu pediu pra morrer.

- A gente só tá atendendo o pedido.

— Hoje é teu último dia na Terra.

 

 

 

 

[SOM DE SOCO: KRAK!]

O impacto foi brutal. O punho do Líder afundou no rosto de JC com a força de uma marreta.

Sangue, suor e dentes voaram pelo ar, brilhando sob a luz amarela e fraca do poste.

Foi o sinal para o ataque da matilha.

Os outros cinco torcedores avançaram.

O beco se tornou um borrão de violência coordenada.

TORCEDOR 1

— SEGURA ELE!

— CHUTA A CABEÇA! CHUTA A CABEÇA!

Chutes estalavam nas costelas.

Socos afundavam no estômago.

JC não era mais uma pessoa; era um saco de pancadas de carne e osso.

Um dos torcedores avistou um cabo de madeira podre no chão, resto de algum caixote de lixo.

[SOM DE OSSO QUEBRANDO: KRRR-ACK!]

Ele golpeou a perna de JC com toda a força.

O som seco e nauseante da tíbia se partindo foi mais alto que os gritos da vítima.

— AAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH! — O berro de JC saiu irregular, explosivo, carregado de uma dor que a mente humana mal consegue processar.

O torcedor que o segurava deu o golpe de misericórdia na postura dele: uma joelhada nas costas que o jogou de cara na imundície do chão do beco.

Com um o rosto deformado sem dentes com o braço e uma perna fraturados, varias lesões internas, JC era um boneco quebrado, incapaz de defesa ou fuga.

Mas a tortura continuou.

A câmera baixou, focando apenas no nível do chão. Víamos apenas as botas pesadas, subindo e descendo, chutando e pisoteando o corpo caído repetidamente, sem ritmo, sem piedade.

A agonia é um oceano. E JC se afogava nele.

 

 

 

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O Quebrar do Anjo

O som abafado dos chutes cessou.

O espancamento parou, não por piedade, mas por exaustão.

Os torcedores estavam ofegantes, o vapor saindo de suas bocas no ar frio da noite, a adrenalina da matilha começando a baixar.

Aos seus pés, JC era uma massa ensanguentada, disforme e imóvel. Um rastro vermelho manchava o chão sujo do beco.

Mas o O Careca Líder não estava satisfeito.

Faltava a assinatura final.

— O serviço tem que ser completo.

— Sem pontas soltas.

Com uma calma assustadora, ele se aproximou do corpo destroçado.

Agarrou JC pelas roupas rasgadas e, num display de força bruta alimentada pelo ódio, levantou-o acima da cabeça como se ele não pesasse nada.

JC pendia lá no alto, inerte, um sacrifício profano.

O Líder ergueu o joelho direito.

Com um movimento rápido, seco e final, ele desceu o corpo de JC com toda a força sobre a articulação dura.

[SOM DE ESPINHA QUEBRANDO: SNAP!]

O estalo foi alto, definitivo.

A coluna vertebral cedeu.

O corpo de JC dobrou-se num ângulo impossível.

O Líder o largou.

O corpo, agora completamente quebrado e inerte, bateu no chão como um saco de lixo. JC apagou.

A escuridão o acolheu.

O espancamento, enfim, acabou.

Um dos torcedores, acendendo um cigarro com as mãos trêmulas de excitação, perguntou com uma casualidade chocante, olhando para a massa no chão:

— E agora, Chefia?

— O que a gente faz com esse presunto? Desova no rio?

Um close-up no rosto do Careca o Líder mostrou a ausência total de humanidade.

Ele olhou para o corpo de JC sem um pingo de remorso, apenas com o tédio de quem precisa limpar uma bagunça.

CARECA

— Rio dá trabalho. A maré traz de volta.

— Joga ele em qualquer caçamba aí.

A matilha riu. Uma risada coletiva, sádica, como se fosse a melhor piada da noite.

Eles agarraram os membros quebrados de JC e o arrastaram pelo beco, deixando um rastro final.

A imagem final daquela noite era de uma poesia devastadora.

CARECA

— Lugar de lixo é no lixo.

JC, com a rosto deformado, espinha partida, braço e perna quebrados, varias lesões internas, inconsciente, foi arremessado no meio de uma viela onde o lixo transbordava, numa esquina escura e esquecida por Deus.

A chuva fina começou a cair, lavando o sangue de seu rosto inchado, misturando o fluido da vida com a sujeira ao seu redor.

Ele não era mais um homem.

Era um objeto descartado.

Um erro a ser esquecido.

Narrador

"E assim, o anjo salvador encontra seu fim.

Não nos braços de um amigo. Não em uma cama quente.Mas em um berço de lixo e esquecimento, entre a vida... e a morte."

 

 

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A Fúria Atrás do Vidro

De volta ao presente, o ar frio da sala de interrogatório parecia ainda mais gélido.

Após terminar seu sádico relato de forma grandiosa o Careca se levanta devagar, limpando uma sujeira imaginária da roupa.

Ele olha diretamente para o espelho, sabendo exatamente quem está do outro lado.

— Foi isso, Doutor. Sem mistério.

— Lugar de lixo é no lixo.

— Hahahahahahaha!

SALA DE OBSERVAÇÃO - O ESTOURO.

Vanessa perde a linha.

Ela se joga contra o vidro blindado com o ombro e os punhos, gritando como um animal ferido.

As lágrimas correm, mas a expressão é de puro ódio.

SFX: BAM! BAM!

VANESSA

— ME SOLTA! ME SOLTA QUE EU VOU MATAR ESSE FILHO DA PUTA!

— EU VOU COMER TEU CORAÇÃO, DESGRAÇADO!

— TU NÃO É GENTE! TU É UM MONSTRO!

 

 

Gabi e Ivan tiveram que usar toda a força para segurá-la, puxando-a para trás enquanto ela se debatia, chutava e tentava atravessar a barreira invisível para estraçalhar o homem do outro lado.

IVAN

— Vanessa! Control yourself!

— Para com isso! O vidro é blindado, porra! Calma!

GABI

— Segura a onda, Ruiva! Tu tá maluca?!

— A tua perna, caralho! Os pontos vão estourar desse jeito! Para!

Na sala ao lado, o Careca ouve os gritos abafados e as pancadas no vidro.

Ele fecha os olhos e sorri, inspirando fundo como se sentisse o perfume de uma flor.

CARECA

— Ah... Escutou isso, Doutor?

— Isso é música pros meus ouvidos.

- A plateia adorou o show.

Dantas, enojado e furioso, puxa o Careca pelo braço com violência, quase arrancando-o da cadeira.

— Levanta, marginal!

— Tu já causou estrago demais por hoje. Anda!

Freitas está na porta, massageando as têmporas, cansado daquilo tudo.

— Dantas, some com esse lixo da minha frente.

— Antes que a garota lá trás quebre o vidro e eu tenha mais papelada pra preencher. Leva ele pra cela.

 

Dantas empurra o Careca para a saída.

O Careca olha para trás uma última vez.

O sorriso dele vai de orelha a orelha, deformando o rosto.

Ele venceu. Ele quebrou o corpo do garoto e a alma de quem o procurava.

OFICIAL DANTAS

— Caminha, seu monstro sádico.

Sala de Observação.

Vanessa para de lutar.

Ela cai nos braços de Ivan, ofegante, o cabelo desgrenhado.

O choro de raiva cessa.

O olhar dela fica vago por um segundo.

O Insight acontece.

Close extremo nos olhos de Vanessa.

A pupila contrai.

A mente jornalística assume o comando, desligando a emoção, as imagens se sobrepõem na mente dela: O relato da surra brutal + O relato do gari sobre o corpo intacto.

(Sussurro)

— Espera...

— O lixo... Os ossos quebrados...

Vanessa se solta de Ivan e agarra os ombros de Gabi, encarando a amiga com uma intensidade assustadora.

VANESSA

— Gabi... Não foram duas vítimas. Não tem dois mistérios.

— É uma história só.

Narrador

"A brutalidade da confissão colidiu com o milagre do lixo. E todas as peças se encaixaram com o som de ossos quebrando... e se regenerando."

 

 

 

 

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Luto e Desejos Proibidos

Um tempo depois, a tempestade de fúria havia passado, deixando para trás apenas a calmaria devastada da desolação.

Cadeiras de plástico azul duro, daquelas desconfortáveis. Vanessa está sentada, cotovelos nos joelhos, rosto nas mãos.

O corpo dela treme com soluços secos.

Gabi está em pé ao lado, braços cruzados, olhando para o nada.

VANESSA

— Acabou... Tá tudo perdido.

— A matéria da minha vida foi pro lixo junto com.

— Que pesadelo, Gabi. Que pesadelo.

No corredor, Dantas conduz o Careca de volta para a cela.

Ao passar pela porta aberta, o Careca vira o pescoço.

Ao passar pela porta aberta da sala onde as duas estavam, o criminoso não resistiu.

Ele dá uma piscadela suja, lenta e cheia de malícia para as duas.

Um sorriso de quem diz: "Eu ganhei, e vocês sabem.

Gabi observa o bandido se afastando.

O porte bruto, os ombros largos, a energia de perigo.

A expressão dela muda.

Sai o medo, entra aquele "dedo podre" lendário.

 

Ela morde o lábio inferior, num ato falho.

(Sussurro)

— Senhor da Glória, me perdoa... mas eu não valho nada mesmo.

— Por que é que bandido safado, lixo tóxico e Chernobyl sempre me deixa com a perna bamba?

— O bicho é um demônio, mas olha essa carcaça... Que ódio do meu útero.

Vanessa levantou a cabeça instantaneamente.

As lágrimas param na hora.

Ela encara Gabi com uma expressão de incredulidade e julgamento supremo.

É o olhar de "você não disse isso".

— ...

— Gabriele.

— Se você terminar essa frase, eu juro por Deus que eu levanto dessa cadeira e te dou um soco na boca.

Gabi percebeu que cruzara a linha (de novo).

Virou-se para a amiga, trazendo o bom humor de volta como escudo, tentando desesperadamente quebrar o clima pesado que se instalara.

Ela levanta as mãos em rendição, dando aquele sorriso amarelo e nervoso, tentando voltar a ser a amiga engraçada.

— Calma, Ruiva! Credo!

— Foi mal! É só uma piada pra quebrar o gelo, miguxa!

— Tu sabe que eu tenho problema, é mecanismo de defesa! Paz e amor!

 

 

Pagina 23

A Conexão da Manicure

Corredor da Delegacia.

Ivan se aproxima, ainda ajeitando o terno, recuperando a postura de chefe.

Vanessa e Gabi estão encostadas na parede, processando o trauma.

O peso da confissão do Líder da Torcida ainda pairava sobre o grupo como uma nuvem negra.

Vanessa, tentando transformar a frustração em fatos, quebrou o silêncio.

VANESSA

— Ivan, me tira uma dúvida...

— Como raios tu chegou nesse marginal? Qual foi a mágica?

IVAN

— Networking, Vanessa. Apenas networking.

— O Freitas colocou a foto do JC no mural interno. Low profile, só pra quem tinha acesso.

 (Flashback: A mão do policial prendendo a foto de JC num mural cheio de papéis amarelados.)

Corredor da DP, horas antes.

Os torcedores algemados passam rindo. Um deles aponta para o mural.

TORCEDOR: "Aí, CHEFIA! Se liga no mural! O presunto do bar virou celebridade!"

De volta ao presente. Ivan gesticula, explicando.

— O Freitas pescou a conversa no ar. Puxou o líder pra um "papo reto" na sala dele e me ligou ASAP.

— O resto vocês viram.

 

 

Momentos depois agora na Calçada da Delegacia.

Pôr do sol no Rio de Janeiro.

O céu está laranja e roxo.

O ar fresco traz a lucidez de volta para Vanessa.

O ar fresco ajudou Vanessa a clarear a mente.

As engrenagens da repórter voltaram a girar.

— Gabi, papo reto agora.

— De onde exatamente veio essa história do lixo?

- Quem te contou isso?

Gabi respondeu com a maior naturalidade do mundo, como se estivesse falando sobre a previsão do tempo.

— Ué, foi a Cleide! Minha manicure.

— Ela fofoqueira sabe que sou repórter 

- Me deu essa fita.

Vanessa encara a amiga, incrédula. Ivan franze a testa, boiando na conversa.

O marido dela é gari, Ruiva. Foi ele quem achou o corpo. Vanessa a encarou, incrédula.

O absurdo da situação era quase cômico.

— Tua manicure?!

— A gente tá aqui investigando uma conspiração genética e a pista chave veio da tua manicure?!

- Que roteiro de novela mexicana é esse?

IVAN

— Wait a minute...

— Que história de "cara no lixo" é essa? O que eu perdi?

 

Corte rápido para o trio conversando intensamente na calçada.

Gabi gesticula muito, explicando os detalhes do corpo "intacto".

À medida que Ivan ouve, o rosto dele muda.

A tristeza some.

O olhar de predador de negócios volta.

IVAN

— Holy shit...

— Roupa destruída... sangue... mas sem ferimentos?

— Regeneration?

Ivan apontou para o carro estacionado na rua saca a chave rapidamente de seu bolso.

Ele aponta para o Ônix vermelho com urgência.

— O Pub! O Freitas me deu o endereço da briga!

— Meninas, pro carro! Agora!

Gabi e Vanessa piscaram, confusas com a mudança repentina de ritmo.

VANESSA

— Pra onde, Ivan?!

IVAN

— Pro Alquimia Urbana! Pra cena do crime!

— Se o Cara achou ele no lixo perto do bar... é pra lá que a gente vai!

Sem mais perguntas, os três entraram apressadamente no Ônix vermelho.

O carro arranca cantando pneu, deixando fumaça para trás. O destino agora é certo.

Narrador

A caçada não acabou. Ela apenas mudou de direção.

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Rastros no Escuro

O Ônix vermelho para cantando pneu em frente ao Alquimia Urbana.

A fachada é escura, neon piscando com mau contato.

O trio desce batendo portas, sincronizado.

A noite já tinha caído pesada sobre o Centro, e o movimento do bar estava fraco.

Ivan, Vanessa e Gabi desceram do carro como uma equipe tática, expressões sérias moldadas pela urgência da missão.

IVAN

— Strategy time, pessoal.

— Eu cuido do manager lá dentro.

- Vocês duas varrem o perímetro externo.

- Achem o beco.

— Qualquer coisa suspeita, gritem. Go!

- Procurem qualquer coisa fora do comum.

Vanessa puxa Gabi para a lateral do prédio.

O beco é úmido, escuro, chão de paralelepípedo irregular que cheirava a urina e cerveja velha.

GABI

— Credo, que cheiro de mijo azedo.

— Se eu pegar uma doença aqui, eu processo a Rede News, hein Ruiva?

Vanessa ligou a lanterna do celular, ignora a reclamação da amiga.

 

 

 

O facho de luz ilumina o chão sujo.

Ela para e se agacha e logo nos primeiros metros, a luz revelou o que elas temiam.

VANESSA

— Achei.

— Olha isso aqui.

Uma mancha escura e seca no asfalto irregular.

Um rastro de sangue, como se algo — ou alguém — tivesse sido arrastado.

Vanessa se agachou, passando o dedo próximo à mancha, sem tocá-la.

VANESSA

— Sangue seco.

— Arrastaram ele pra lá. Vem.

As duas seguiram a trilha macabra, entrando mais fundo no beco.

Elas entram mais fundo no beco.

O espaço se abre num "quintal" de lixo acumulado entre prédios velhos, sacos pretos empilhados, caixas de papelão podres.

Ao fundo, um conjunto habitacional popular com varais nas janelas.

GABI

— Ué... Peraí.

— Eu conheço esse prédio.

- A Cleide mora naquele bloco ali, ó!

— Caraca, o mundo é um ovo mesmo.

- A cena do crime é o quintal da minha manicure.

 

 

Vanessa ignorou o comentário imobiliário.

Seus olhos de repórter varriam a cena como um scanner.

Vanessa foca numa pilha de lixo específica os sacos estão rasgados de um jeito estranho, como se algo tivesse explodido de dentro para fora.

Ela começa a chutar os sacos, abrindo espaço.

GABI

— Ai, que nojo, Vanessa! Sai daí!

— Vai pegar leptospirose, mulher! Tá maluca?!

Sem hesitar, e contra todos os instintos higiênicos de Gabi, Vanessa começou a afastar os sacos sujos com o pé, revirando a pilha.

Ivan aparece na entrada do beco, a silhueta recortada contra a luz da rua.

IVAN

— Girls! Confirmação visual.

— O dono do bar cantou a pedra.

- A fight foi brutal e eles desovaram o corpo aqui nos fundos mesmo.

Vanessa não se virou.

Ela parou de chutar o lixo, congelada pelo que acabara de descobrir sob a pilha de detritos.

Ela apontou para o chão que acabara de limpar.

— Ivan... Gabi...

— Esqueçam o dono do bar. Venham aqui. Agora.

 

 

PÁGINA 25

A Cratera do Anjo

Ivan e Gabi se aproximaram, desviando dos sacos de lixo, cobrindo o nariz com a manga da roupa.

Ivan olha com desdém para a sujeira.

— Vanessa, o que pode ser tão importante no meio desse lixão?

— Whatever it is, espero que valha a pena o cheiro.

Gabi apontou para o local exato.

— Foi bem aqui, chefe.

- O marido da minha manicure disse que achou o rapaz... jogado aqui.

- Debaixo desses sacos.

Vanessa aponta para o chão com a lanterna, iluminando o centro da pilha que ela afastou.

— Olhem.

— Olhem pro chão.

VISÃO AÉREA DO CHÃO (POV DO GRUPO).

O asfalto não está apenas sujo de sangue seco.

Ele está quebrado.

Uma cratera rasa no concreto, com rachaduras se espalhando em forma de teia de aranha, partindo do formato exato de um corpo humano (costas e ombros).

Parece que um cofre caiu do décimo andar ali.

 

 

Ivan tira os óculos, perplexo.

— Impossible...

— Um corpo humano não faz isso.

- Isso é impacto de alta densidade.

- Física pura.

— É como se ele pesasse uma tonelada.

Gabi, sempre prática, quebrou o transe.

Sacou o celular com a velocidade de um pistoleiro e faz uma chamada de Video.

— Peraí. Vamos tirar a prova dos nove.

— Hi, Cleide? Amor da minha vida, desculpa a hora.

- Poderia chamar o Valdir aí rapidinho.

- É urgente, nível vida ou morte.

Na tela do celular, aparece o Valdir (o marido, cara de sono, camiseta regata). .

— Valdir, olha aqui.

- Foi esse o boy que tu achou?

(Gabi mostrou a ele a foto digital de JC)

VALDIR (NO CELULAR):"É ele mesmo, Dona Gabi.Sem erro. Tava jogado aí".

 

 

Gabi agora vira a câmera para o chão quebrado.

GABI

— E esse buraco aqui no chão, Valdir? Já tava assim quando tu chegou?

VALDIR (NO CELULAR): "Ué... Que buraco? Não, senhora. A prefeitura recapeou esse beco semana passada. Tava um tapete, lisinho. Isso aí é novo."

Gabi desliga o telefone com um sorriso nervoso.

— Valeu, Valdir! Beijo na Cleide! Avisa ela Sexta eu tô aí pra fazer a unha!

Gabi encerrou a chamada, o rosto uma mistura de triunfo investigativo e choque absoluto.

Os três — o diretor cético, a repórter vingativa e a produtora conectada — encaravam o chão rachado.

A investigação sobre um espancamento brutal acabara de se transformar em algo muito mais estranho e perigoso.

Os três encaram a cratera. O silêncio pesa toneladas.

VANESSA

— Asfalto novo. Destruído pelo impacto de um corpo que estava com todos os ossos quebrados... e que saiu andando sem nenhum arranhão.

IVAN

— Gentlemen... quer dizer, ladies.

— A pauta mudou.

— Não estamos mais procurando uma vítima de homicídio. Estamos caçando algo... else.

Narrador

- O mistério não era mais "quem bateu nele". Era "o que ele se tornou".

 

PÁGINA 26

O Coro das Bestas

Enquanto a investigação de Vanessa revelava crateras inexplicáveis no beco, um fenômeno igualmente estranho estava prestes a acontecer no subsolo da cidade.

Penumbra. Apenas as luzes de standby dos equipamentos piscam.

Herika dorme debruçada sobre o teclado, baba escorrendo no canto da boca, exausta.

Narrador

"Enquanto a cidade dormia, um poder despertava na escuridão."

A única luz vinha do brilho fantasmagórico dos monitores em modo de espera.

No habitat simulado das preguiças, algo mudou.

Os animais, normalmente imóveis, levantam as cabeças em sincronia perfeita.

Orelhas atentas.

Pupilas dilatadas.

Uma a uma, as cabeças peludas se ergueram lentamente, ouvidos atentos, como se captassem um chamado invisível, uma frequência que nenhum humano poderia ouvir.

Uma preguiça abre a boca.

Não é um grunhido e som fino peculiar contínuo, quase eletrônico começou a vibrar no ar. Baixo, etéreo, quase musical..

SFX: SIIIIIILLLLVOOO...

Narrador

"Não era agressividade. Não era medo. Era ressonância."

O som tirou Herika de seu sono pesado.

Herika acorda num sobressalto, limpando a baba. Ela olha ao redor, desorientada.

— Hã...? Que barulho é esse?

— O alarme disparou?

- Foi então que o coro começou.

A câmera se afastou, revelando uma cena surreal.

Todas as celas, todos os animais, em uníssono perfeito, começaram a emitir o mesmo silvo.

O som aumenta. Agora todas as celas estão cantando. Onças, Lobos, Cobras e etc.

todos emitem a mesma frequência.

É um coro fantasmagórico.

As vozes se sobrepunham, criando uma harmonia estranha e hipnótica que preenchia o laboratório estéril com uma vibração orgânica.

Herika se levanta e corre até o vidro do habitat. Ela encara os animais. O olhar dela muda de sono para fascínio científico puro.

HERIKA

— Um silvo de comunicação...

— Mas todas as espécies ao mesmo tempo? Sincronizadas?

— Isso é impossível. Isso é... comportamento de colmeia.

 

...e em outro lugar, sua espécie responde ao chamado.

 

 

Ela corre de volta para o computador e abre o software de espectrograma.

As linhas de áudio pulsam na tela em padrões idênticos.

HERIKA

— Olha essa frequência...

— Não é aleatório.

- É um padrão.

- É um chamado.

Close no rosto de Herika, iluminado pela tela.

O sorriso da descoberta.

Ela esqueceu que é prisioneira. Agora ela é a cientista diante do desconhecido.

— O que vocês estão sentindo, meus amores?

— Quem está chamando vocês?

Herika girou na cadeira e atacou o teclado.

Abriu um programa de análise de áudio espectral, os dedos voando sobre as teclas.

NARRADOR

"Curiosidade. A velha armadilha dos gênios. O mistério pulsava na tela, implorando para ser decifrado. Herika mordeu a isca. Ela tinha um novo enigma nas mãos, e a solução prometia mudar tudo. Não apenas o que ela sabia sobre aquelas cobaias... mas o que elas, em seu silêncio coletivo, estavam começando a sentir."

 

 

 

PÁGINA 27

O Despertar nas Ruínas

Enquanto Herika analisava frequências estranhas no laboratório e Vanessa investigava becos escuros, em outro ponto da cidade, a escuridão cedia lugar à consciência.

MADRUGADA - LOCAL DESCONHECIDO.

Close extremo nos olhos de JC se abrindo.

Pupilas dilatadas, veias vermelhas.

A visão está embaçada.

A cabeça latejava num ritmo surdo, uma ressaca que não era de álcool.

JC (PENSAMENTO)

"Ai... Minha cabeça parece que vai rachar.

Que ressaca do inferno é essa?"

JC se senta, esfregando os olhos, ele está sentado sobre uma pilha de entulho, mãos sujas de pó de cimento e fuligem.

— Hã...?

— O que eu tô fazendo no chão?

Cercado por pedaços de concreto quebrado, vergalhões retorcidos e uma nuvem fina de poeira que dançava no ar da madrugada.

A camiseta está em trapos, pendurada no peito a calça jeans rasgada nos joelhos.

Ele passa a mão pelo braço, limpando a sujeira.

 A pele por baixo está impecável.

— Merda... De novo não.

— Tudo rasgado... Sujo de pedra...

— Mas o que houve? Que merda ta acontecendo.

 

JC se levanta, cambaleando.

Ele olha em volta, assustado.

O silêncio é perturbador.

— Onde eu vim parar, meu Deus?

— Tenho que sair daqui.

- Se alguém me vê nesse estado, vão achar que eu sou mendigo ou maluco.

JC começa a se afastar, escalando os escombros com dificuldade, uma figura pequena e confusa fugindo da cena.

— Casa... Preciso ir pra casa.

[A DESTRUIÇÃO DO CENTRO MAGNUS]

SPLASH PAGE (Página Inteira - Plano Aéreo)

A câmera sobe e revela a escala da destruição.

JC é apenas um ponto minúsculo saindo das ruínas não é uma obra é um prédio industrial demolido.

Paredes derrubadas, vigas de aço retorcidas como arame, fumaça saindo do concreto parece que uma bomba explodiu no centro.

No meio dos destroços, uma placa de metal amassada e pendurada por um fio balança ao vento.

PLACA: " MAGNUS CONFECÇÕES ".

Narrador

"A mente dele apagou o registro. Ele não se lembra de nada. Mas o concreto...

Ah, o concreto nunca esquece."

 

 

 

 

PÁGINA 28

A Fúria do Imperador

MANSÃO MAGNUS - MANHÃ.

Mauro Magnus anda de um lado para o outro, seu iphone no ouvido, vestindo seu terno Hermes impecável, mas o rosto está vermelho de ódio.

— O que você quer dizer com "um monstro", seu incompetente?!

— Eu não pago vocês pra verem assombração! Eu pago vocês pra protegerem meu patrimônio!

— Destruíram o Centro de Distribuição inteiro?!

Mauro arremessa o celular no sofá de couro.

Ele pega o tablet na mesa de centro e inicia uma chamada de vídeo.

— Quero nomes. Quero cabeças rolando. Agora.

Tela do Tablet. Dr. Marcos aparece, jaleco amassado, olheiras profundas. O fundo é o laboratório estéril.

MARCOS

— Senhor Magnus? Aconteceu alguma coisa?

MAURO

— Não se faça de sonso, Doutor.

— Qual das suas "criações" escapou da jaula e demoliu minha fábrica esta noite?

 

 

Marcos franze a testa, checando os monitores ao lado.

Ele está sendo sincero (na ignorância dele).

— Escapou? Impossível, senhor.

— Todos os espécimes estão na contenção. O sistema biométrico está verde.

- Ninguém saiu daqui.

- Posso enviar os logs agora mesmo.

 (E ele estava sendo sincero. Todos os seus experimentos... aqueles que ele mantinha em jaulas... realmente estavam todos lá. O perigo era aquele que estava solto, fora de seu controle.)

Um close-up no rosto de Magnus mostrou a paranoia transbordando em seus olhos.

A desconfiança era um veneno que ele bebia diariamente.

Close no rosto de Mauro. O olhar é de uma cobra pronta para dar o bote. Ele fala baixo, quase carinhoso, o que torna a ameaça pior.

— Escute bem, Dr. Fausto D'Ávila.

— Se eu descobrir que você está jogando dos dois lados... Se eu sentir o cheiro de traição...

— Eu não vou só demitir você.

- Eu vou destruir sua reputação, sua carreira... e depois vou atrás daquela coisinha linda que você chama de filha.

Na tela, Dr. Marcos empalideceu.

A ameaça velada à sua filha, Adriele, gelou seu sangue.

— O senhor tem a minha lealdade absoluta, Magnus.

— Eu juro.

 

Mauro desliga o tablet.

Ele se serve de uma dose de Blue Label às 9 da manhã.

MAURO (Sussurro)

— Se aquele velho e aquela ativista de merda estiverem tramando algo... eu mato os dois.

- Com minhas próprias mãos.

Bibi, que observava a cena de longe, tentou se aproximar, buscando amenizar o clima com sua doçura habitual.

Bibi entra na sala, vestindo um robe de seda. Ela vê o marido bebendo e tenta ser carinhosa (com aquele sotaque gaúcho manhoso).

— Amor... Bah, tu já tá no uísque uma hora dessas?

— Calma, vida. Vai te fazer mal...

Magnus girou sobre os calcanhares, fulminando-a com um olhar assassino.

— Cala a boca, Bianca.

— Some da minha frente antes que eu troque você por um modelo mais novo e menos irritante.

O choque atingiu Bibi como um tapa.

Bibi recua, chocada.

Lágrimas brotam nos olhos. Ela sai correndo, soluçando. Mauro a observa com tédio, bebericando o uísque.

BIBI

— Seu monstro!

MAURO

— Ah, mon dieu...

— Agora vem o drama. Mulheres...

— Hmpf. Patético.

PÁGINA 29

O Vulto Amarelo

A porta da sala se abriu silenciosamente.

Fernando entrou, impassível como sempre, segurando um tablet.

Sua presença era a única coisa sólida num ambiente onde as emoções de Magnus oscilavam perigosamente.

— Senhor.

— A equipe de TI conseguiu recuperar fragmentos do servidor local do CD.

Magnus arrancou o tablet das mãos dele, ansioso por um rosto, um culpado, alguém para destruir.

— Me dê isso aqui.

— Vamos ver a cara do desgraçado que vai morrer hoje.

[SPLASH PAGE: O MONSTRO NA TELA]

A tela dominava sua visão.

A gravação de uma câmera de segurança interna, granulada e com interferência estática.

O cenário era de destruição pura: paredes caindo, máquinas sendo arremessadas como brinquedos.

No centro do caos, um borrão de movimento.

Por uma fração de segundo, antes da câmera ser destruída, a imagem congelava num frame aterrorizante.

Não era um homem. Não era um grupo de ativistas.

Era partes de um monstro gigante e amarelo não era roupa. Era pelo. Era brilho.

Uma garra massiva rasgando o ar. Um ombro colossal coberto de pelagem dourada. Um olho vermelho como fogo, não humano, focado na lente.

O vídeo acabou em estática.

Mauro baixa o tablet devagar sua mão treme levemente seu rosto vermelho de raiva agora está pálido.

Ele olhou para Fernando com certo medo nos olhos (ele viu algo que o dinheiro dele não compra e que a influência dele não para.), buscando uma resposta que seu leal cão de guarda não tinha.

— Fernando...

— O que diabos... foi aquilo?

Fernando permanece impassível, mas há uma tensão no maxilar.

— Não identificamos, senhor.

— Não bate com nenhum perfil conhecido.

- Nem humano, nem animal.

Mauro se vira para a janela, olhando o Rio de Janeiro lá embaixo o reflexo dele no vidro mostra um homem assombrado.

MAURO (Sussurro)

— Eu conheço os meus monstros.

- Eu paguei por cada um deles.

— Mas aquilo... Aquilo eu nunca vi.

— E se tem algo no meu tabuleiro que eu não controlo... então nós temos um problema muito maior do que sabotagem.

 

 

 

 

PÁGINA 30

A Suspeita Dourada

De volta ao silêncio frio do laboratório principal.

Dr. Marcos está colado aos monitores, roendo a unha do polegar (sinal de ansiedade).

As telas mostram as silhuetas térmicas das cobaias nas celas.

MARCOS (Sussurro):"Alfa... Beta... Gama... Estão todos aqui. Ninguém saiu."

A porta se abriu com um silvo hidráulico.

Adriele entrou, a postura ereta e eficiente de uma soldada perfeita.

— Varredura completa, Doutor.

— Perímetro limpo. Sensores intactos. Ninguém entrou, ninguém saiu. O laboratório é um bunker.

O Doutor assentiu, mas não relaxou.

Nesse instante, seu celular sobre a mesa de metal vibrou, arrastando-se com o zumbido.

[NOTIFICAÇÃO: BZZZT.]

Marcos pega o aparelho.

Mensagem criptografada de Magnus.

Anexo de vídeo.

Ele dá o play.

Close no rosto de Marcos iluminado pela tela do celular. O reflexo nos óculos mostra o Vulto Amarelo destruindo a câmera.

 

 

Um close no rosto do cientista revelou o choque.

Marcos deixa o celular cair na mesa.

Ele está pálido.

— Impossível...

— Amarelo? Dourado?

— Pelagem densa... massa muscular expandida... Isso é fenótipo de Preguiça Real. Mas gigante?

Ele parou a mente dele faz a conexão.

O loop mental: Amarelo -> Preguiça -> Soro Gênesis -> Van de fuga.

As engrenagens de seu cérebro de gênio começaram a girar numa velocidade alucinante, conectando peças que ele achava estarem fora do tabuleiro

Ele gira a cadeira violentamente para Adriele.

— ADRIELE!

— Eu quero as gravações de segurança. AGORA!

— Do dia da invasão dos ativistas! De preferência as câmeras internas!

Adriele franze a testa.

Ela não entende a conexão com o passado, mas o tom do "pai" não admite dúvidas.

— Sim, Doutor.

— Pra já.

Adriele sai apressada.

 

 

Marcos fica sozinho, encarando o vazio.

A dúvida corrói a certeza.

Seus olhos se arregalaram com uma suspeita súbita e terrível.

MARCOS (PENSAMENTO)

" O Magnus garantiu... Ele disse que o Fernando tinha limpado a bagunça."

FLASHBACK (Bordas esfumaçadas).

Dia do incidente. Mauro Magnus, arrogante, tomando uísque no laboratório.

MAURO: "Relaxa, Marcos. Fernando cuidou do lixo. A van foi interceptada. Não sobrou ninguém pra contar história."

De volta ao presente. O rosto de Marcos é uma máscara de terror inteligente.

MARCOS

— Se o Fernando falhou...

— Se alguém sobreviveu e levou uma amostra...

— Então aquilo na fábrica não é uma anomalia.

— É uma evolução.

Dr. Marcos ficou encarando o vazio, a mente em turbilhão.

 

 

NARRADOR

"A certeza absoluta de Magnus era um muro de concreto. Mas aquele borrão amarelo... aquilo era a marreta.

As dúvidas agora eram vermes roendo a lógica do cientista. Teria o "serviço limpo" deixado rastros? Teria a morte falhado naquela van? E se o Gênesis tivesse encontrado um hospedeiro entre os destroços?

A conclusão era aterrorizante: aquilo lá fora não era uma anomalia de laboratório.

Era algo muito pior.

Era uma consequência."

 

FIM DA EDIÇÃO #5

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