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Chapter 2 - Cap. 2 A Floresta Que Cobra Tudo

Capítulo 2 — A Floresta Que Cobra Tudo

A floresta engoliu Light e sua mãe sem fazer perguntas. As árvores eram altas demais, próximas demais. A luz do dia mal conseguia atravessar as copas, e o chão estava sempre úmido, coberto por folhas mortas e raízes traiçoeiras. Cada passo protegido com cuidado. Cada som parecia uma ameaça.

Eles caminharam até as pernas afetadas. Quando finalmente pararam, já estava escuro. O fogo da vila ainda era visível à distância, um brilho fraco entre as árvores, como um lembrete cruel de que não havia para onde voltar.

Light sentou no chão, exausto. O corpo tremia, não sabia se de frio ou medo. A mãe ajoelhou ao lado dele, segurando seu rosto com as duas mãos.

— Estamos vivos — ela disse, forçando um sorriso. — Isso é o que importa agora.

Light concordou, mas não respondeu. A imagem do pai não saiu da cabeça. O grito interrompido. A lâmina velha. O som seco.

A noite foi longa. Insetos zumbiam sem parar. Algo se move entre os arbustos em alguns momentos, fazendo a luz prender a respiração. Ele não dormiu de verdade — apenas fechava os olhos por alguns minutos antes de acordar assustado.

Quando o sol nasceu, a fome veio junto. No começo, era apenas um vazio no estômago. Depois virou dor. Uma dor constante, que se espalhava pelo corpo, deixando os pensamentos lentos.

A mãe tentou encontrar frutos, raízes, qualquer coisa. Voltava sempre com as mãos vazias, mas com o mesmo sorriso cansado.

— Hoje não — ela dizia. — Amanhã a gente acha.

Os dias começaram a se misturar. A floresta não oferecia comida fácil, e caçar estava fora de questão. Light mal consegue levantar um galho, quanto mais segurar uma arma. A sede era controlada com água de riachos rasos, mas a fome crescia sem piedade.

Mesmo assim, algo estranho aconteceu. Luz não morreu. Em alguns dias, a mãe aparecia com pequenas porções de alimento. Nunca pensei de onde vinha. O gosto era estranho, diferente de qualquer coisa que Light já tivesse comido. Às vezes amargo, às vezes metálico. Mas era comida. O suficiente para continuar andando.

Enquanto isso, a mãe piorava. Ela caminhava mais devagar. Parava para respirar com mais frequência. À noite, tremia mesmo quando o clima estava ameno. Ainda assim, sempre que Light perguntava se ela estava bem, ela sorria.

— Só cansada — respondia. — Nada demais.

Light queria acreditar. Mas começou a notar coisas pequenas demais para ignorar. As mangas das roupas ficaram mais largas. O rosto, antes redondo, parecia mais fino a cada dia. Às vezes, ela se afastava sozinha, dizendo que eu precisava procurar comida, e demorava mais do que antes para voltar.

Light sentiu um nó no peito.

Na quinta à noite, ele acordou com um som estranho. Era um choro contido. A mãe estava sentada perto de uma árvore, abraçando o próprio corpo, tentando não fazer barulho. Quando soube que Light estava acordado, limpou o rosto rapidamente e transmitiu.

— Desculpa… te acordei.

— Você está doente? — ele disse, com a voz fraca.

Ela se mudou, ajoelhou à frente dele e acariciou seu cabelo.

— Não. Só… preocupado. Mas vai ficar tudo bem.

Ela disse aquilo com tanta firmeza que a Light não teve forças para insistir.

No dia seguinte, ele acordou com algo para vir ao seu lado. Era um pouco, mas suficiente.

— Venha — ela disse. — Você precisa de forças.

Light obedeceu. Enquanto comia, veja que a mãe não tocava em nada.

— Você não vai comer? — Disse.

— Já comi antes — ela respondeu rápido demais.

O gosto daquele alimento ficou preso na boca de Light por tempo demais. Algo dentro dele se revirou, uma sensação ruim, um pensamento que ele não quis concluir. Não podia. Não queria.

À noite, a mãe conta histórias. Falou de quando a Luz era pequena, de como o pai ria alto demais, de sonhos simples que nunca foram realizados. A voz dela estava fraca, mas havia paz nela. Uma paz que não combinava com a situação.

— Você vai viver — ela disse, de repente. — Não importa o que aconteça comigo.

— Para com isso — Light respondeu, irritado e assustado. — A gente vai sair daqui junto.

Ela sorriu. Mas não respondi.

Quando o silêncio voltou, Light viu algo que o fez tremer: ele sobreviveu melhor do que deveria. E, no fundo, ele já começava a entender o porquê.

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